Música

“Homegrown”: uma viagem com Neil Young ao fim da linha do amor

Em tempo de Covid, o cantor lembra-nos o que realmente importa e lança um álbum sobre um amor perdido de 1974. Leia a crítica da NiT.
Neil Young é brilhante.

Neil Young tinha tudo. O sucesso de “Heart Of Gold” e do respetivo álbum “Harvest” catapultaram-no para o lugar que todos os artistas ambicionam quando começam na música. Mas com o sucesso, vieram os problemas e ficaram as perguntas. Sobre este período, Neil escreveu nas notas de “Decade”, em 1977: “Heart Of Gold pôs-me no meio da estrada. Viajar ali rapidamente se tornou aborrecido, por isso dirigi-me para o fosso”. O “fosso” foi um período de dois anos (1973/1974) em que Neil lidou com os fantasmas do sucesso (“Time Fades Away”), a morte dos amigos (“Tonight’s The Night”), a alienação do Mundo à sua volta (“On The Beach”) e, sabemos agora, o heartbreak (“Homegrown”). “Homegrown” é por isso o elo que faltava para melhor perceber a trilogia do fosso, que afinal é uma quadrilogia e ilustrar o período mais negro da vida de Neil Young, berço do seu espólio mais fascinante.

“Homegrown” é o primeiro álbum perdido de Neil Young. Depois deste, muitos outros se seguiriam (já lá vamos). Gravado entre Junho de 1974 e Janeiro de 1975 e inspirado pelo falhanço da relação com a atriz Carrie Snodgress, NY achou que as canções eram demasiado pessoais para serem partilhadas com o público. “Assustei-me ao ouvir o álbum”, disse Neil. O disco foi para a gaveta e lá ficou desde 1975. Muitas destas músicas seriam regravadas e lançadas em álbuns subsequentes, espalhadas para esconder um todo demasiado introspectivo. “All you have is memories of happiness / Lingerin’ on”. Esta é a primeira vez que as podemos ouvir como originalmente foram estruturadas.

O timing é curioso. Enquanto o mundo está numa espiral destravada rumo ao abismo, Neil Young resolve tirar da gaveta um álbum sobre um amor perdido em 1974. Amor. Lembram-se? Amor em tempos de Covid parece uma relíquia do passado, perdida longe no tempo. Ou como profetizava o David Bowie no “Under Pressure”, “love is such an old fashioned word” (“amor é uma palavra tão antiquada”). É um cliché de agora dizer-se que determinada coisa chegou na altura certa. Creio que é uma serendipidade à qual nos convencemos, para dar algum significado à nossa vazia existência eremítica em tempos de lockdown. Eu vou virar a moeda duas vezes e digo que “Homegrown” chega na altura certa porque chega na altura errada. Falar de amor numa altura que o mundo está numa guerra civil global, por estar mal resolvido com o seu passado, parece um exercício tão vazio como as nossas vidas em lockdown. Por isso é que eu amo o Neil Young. Por isso é que ele é genial. Porque mesmo sendo um activista agressivo, ele não se esquece do que realmente importa e do que de facto molda as nossas vidas – o amor. Mas divago.

O pedal steel no primeiro tema de “Homegrown” coloca-nos imediatamente nas paisagens bucólicas de “Harvest”. Mas aqui não há prados verdes, nem canaviais a perder de vista. O que há é um coração partido, que vai sangrar durante 12 temas sobre heartbreak. “We go our separate ways / lookin’ for better days”. Neil Young diz que “Homegrown” é o elo que faltava entre “Harvest”, “Comes A Time” e “Harvest Moon” – os álbuns mais melódicos da sua discografia. Eu digo que “Homegrown” é o “Harvest” no fosso. Neil Young leva-nos na sua viagem ao fim da linha do amor.

Para perceber de onde Neil vem quando chega a “Homegrown”, temos que rebobinar um bocadinho. Depois do aclamado “Harvest”, seguiu-se o abrasivo “Time Fades Away”, um álbum ao vivo gravado na mega-digressão de “Harvest”, em que o público apareceu aos milhares para ouvir os hits, mas que em vez disso, levou com músicas que nunca tinham ouvido antes, de uma banda onde ninguém suportava ninguém. “Um documento de quando estás perdido”, disse Neil Young sobre “Times Fade Away”.

Se “Time Fades Away” foi o despiste para o fosso, “Tonight’s The Night” foi a catarse. Carregado de notas erradas e desafinações, o álbum é um exercício de perguntas e lamentações sobre a morte dos amigos Bruce Berry e Danny Whitten para a heroína. É um disco que procura a verdade da música na sua interpretação crua, ao primeiro take, ao invés do polimento de estúdio. Mas tal como aconteceria com “Homegrown”, quando acabou de gravar o álbum, Neil Young achou que era demasiado pessoal e decidiu arquivá-lo e gravar o próximo. O próximo seria “On The Beach”.

“On The Beach” é, digo eu, a obra-prima de Neil Young. Foi em “On the Beach” que Neil nos atirou um arpão ao coração, quando fez a si mesmo a pergunta: se eu tenho tudo o que sempre quis, porque é que não sou feliz? “Though my problems are meaningless, that don’t make them go away.” Nunca consegui encontrar a resposta.

As perguntas em “Homegrown” são menos filosóficas, mas não menos importantes. Porque é que o amor não resulta? (“Love Is A Rose”) Como lidar com aquela pessoa que amámos e que já não conhecemos? (“Vacancy”) Como é que se lida com a desilusão?  (“Star Of Betlehem”) Por que trilhamos caminhos diferentes dos que amamos? (“Separate Ways”) Fugir é a resposta? (“Mexico”) Como é que se parte para um novo amor sem deixar o passado para trás? (“Try”) Neil Young faz as perguntas, mas tal como em “On The Beach”, não dá as respostas. Não as dá porque não as tem e porque também não é esse o objectivo. O corolário aqui é enfrentar as questões que evitamos para viver o dia-a-dia com o mínimo de sanidade mental. Mas Neil Young não é diferente e tal como nós, também ele evitou as questões que colocou a si mesmo e atirou o álbum para o fundo da gaveta. Como “Homegrown” era ainda mais pessoal, Neil decidiu então lançar “Tonight’s The Night”. “Homegrown” ficou para trás. Até agora.

Estará assim finalmente completa a discografia do fosso? Talvez não. Segundo uma lista de 29 (!) projectos que Neil Young partilhou no seu site, que ficaram na gaveta ao longo da sua carreira, ainda falta ouvir “Homefires”, que supostamente vai incluir faixas como “Deep Forbidden Lake” (lançado mais tarde em “Decade”), ou as versões originais de “Hawaii” e “Give Me Strength”, que ouvimos pela primeira vez na sua regravação para “Hitchiker” em 1976, álbum esse que, adivinhem, também ficou na gaveta até 2017. Não admira, pois, que a discografia de Neil Young pós-Harvest seja uma amálgama incoerente de álbuns que não fazem justiça à qualidade do trabalho que ele produzia. Todos os estes cancelamentos só mostram um artista que, na busca da verdade, procura, talvez até demais, a perfeição. Tanto na música como na vida.

Enquanto escrevo as linhas finais desta review, o carteiro toca-me à porta. É a minha cópia do “Homegrown” em vinil. Esta, o Neil Young já não pode cancelar.

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