Música

Há 25 anos começava a vida rápida dos Mamonas Assassinas

Em nove meses revolucionaram a música brasileira sem pararem um segundo. No final, pagaram o preço.
Os autores do fenómeno brasileiro.

O novo pavilhão de Guarulhos, cidade nos subúrbios de São Paulo, era uma das maiores salas da região. Um autêntico sonho para cinco miúdos que tentavam tornar-se estrelas. Com 21 anos, Dinho era um rapaz obstinado e ousou bater à porta do presidente da câmara para pedir a oportunidade de dar um concerto para o público que o viu crescer. Era o vocalista dos Utopia, uma banda local de rock genérico, igual a tantas outras. Os vizinhos ouviam, gostavam e isso bastava.

Pela voz da secretária, ficaram a saber que não haveria concerto e que não seriam sequer recebidos pelo autarca. O brasileiro levantou-se, perguntou onde era o gabinete e afastou a secretária com o braço. “Entrou na sala e insultou-o com todos os nomes possíveis. E disse-lhe que um dia ainda seria ele a pedir-lhe para tocarem no pavilhão — e que nesse dia seria ele a decidir se tocariam“, revela Ana Paula Rasec no documentário “Mamonas Para Sempre”, de 2009.

Ninguém, nem o presidente da câmara, nem os vizinhos, muito menos os pais, acreditariam que os miúdos teimosos dos Utopia se transformariam num fenómeno nunca antes visto. Dinho (Alecsander Alves), Bento (Alberto Hinoto), Júlio Rasec e os irmãos Samuel e Sérgio Reoli venderam mais de cinco milhões de discos do primeiro e único álbum que assinaram — e que foi lançado há precisamente 25 anos.

Dinho moldou a voz, tirou cor ao sotaque brasileiro e gritou “raios” com o maior jeito português que conseguiu. Os riffs, o sotaque e a letra nonsense fizeram parar o público brasileiro que, perplexos, tentavam perceber o que é que acabara de passar na rádio. A 23 de junho de 1995, data oficial do lançamento do disco homónimo, começavam os nove meses mais frenéticos e delirantes da vida dos cinco brasileiros. Foi tudo demasiado rápido.

Os miúdos lá do bairro

Quando Sérgio, Samuel e Bento fizeram nascer os Utopia, desenharam um grupo sem vocalista. Apareceu por acaso, durante um concerto, quando desafiaram a plateia. Dinho subiu ao palco, agarrou no microfone e deu tudo ao som de uma cover de Guns N’Roses, mesmo sem saber a letra.

As coisas começaram a tornar-se mais sérias. Júlio Rasec, que era o roadie, acabou por enturmar-se e mais tarde conquistou também o posto de teclista. Com a ajuda de alguns patrocinadores locais conseguiram juntar dinheiro para a prensagem de mil cópias do seu primeiro disco.

Eles achavam que o disco era super vendável, que ia ser um sucesso, vender 10 milhões de cópias. Achavam que iam ser mega-estrelas”, recorda o produtor Rick Bonadio no documentário. Apesar de impingirem o disco nos concertos, venderam apenas 100 exemplares. O prejuízo ficou todo do seu lado. “Eles eram muito divertidos, mas as letras eram muito tristes, muito sérias”, sublinha Bonadio.

O fracasso não arrancou a banda do estúdio. Dinho era visita recorrente no estúdio do produtor e pedia ocasionalmente permissão para o usar. Foi num desses dias, apenas para “gravar umas sacanagens”, que Bonadio recebeu uma chamada de um dos seus assistentes. “Tens que ouvir isto, passei a noite a rebolar a rir”, ouviu do outro lado da linha.

Nessa noite gravaram-se as primeiras versões de “Pelados em Santos”. E no próprio dia, Bonadio fez questão de se reunir com os cinco. “Isto é bom p’ra caralho”, disse-lhes. Era tudo o que eles queriam ouvir. A segunda ideia é que não foi tão bem recebida.

O produtor não tinha dúvidas de que, para terem algum sucesso, teriam que mudar o nome. “Disseram que já eram muito conhecidos. Rebolei a rir, puta que pariu, nem conseguiram vender 200 discos”, recorda.

Lá vêm os Mamonas

“Hoje, Mamonas Selvagens”, podia ler-se no cartaz afixado na boate Lua Nua. Era uma noite absolutamente decisiva onde poderia decidir-se a vida ou morte da nova banda. O erro no nome era apenas um pormenor.

Semanas antes, completavam a gravação de dois temas: “Robocop Gay” e “Pelados em Santos”. A demo saltou de mão em mão, de Bonadio até a um conhecido da indústria, que a reencaminhou para os responsáveis da editora EMI. “Começou a ser uma coisa contagiante”, recorda o produtor.

Do outro lado chegou uma proposta: a EMI gostou mas teria que os ver tocar ao vivo. Tudo aconteceria no palco da famosa boate de Guarulhos. Trouxe-se equipamento novo, o dono do espaço reservou as melhores mesas para os visitantes e até lhes serviu whisky. Todos tentavam dar a mão ao grupo de miúdos bem-dispostos que só queriam que o Brasil ouvisse as suas músicas.

Estavam habituados a subir ao palco como Utopia. Só que agora eram os Mamonas Assassinas: ousados, irreverentes, loucos. No espetáculo de uma vida, tiraram as roupas e subiram ao palco de cuecas, só com discos de vinil a tapar os genitais. A Bento Hinoto calhou a fava, ou melhor, o vinil em formato compact. A plateia já se ria e ainda não tinham tocado um acorde.

Um par de horas depois, estavam todos sentados a uma mesa a assinar um contrato. Objetivo conseguido. Faltava o mais difícil: entregar os temas prontos a tempo e horas. “Quando o Rick [Bonadio] lhes perguntou quantas músicas é que tinham escritas, eles responderam sete. Na verdade tinham apenas duas”, recorda Ana Paula Rasec, irmã de Júlio Rasec.

Completaram os 14 temas em menos de 20 dias. “Fizeram letras umas atrás das outras. Era a chance de uma vida. E pensaram ‘que se é para escrever besteira, nós somos pós-graduados'”, conta Bonadio.

Quando deram por si, estavam num avião rumo a Los Angeles. O disco havia de ser terminado num estúdio com todos os luxos oferecidos aos melhores músicos do mundo. Nas gravações caseiras da banda, Dinho mostra-se estupefacto: “Acho que nos estão a enganar. Esse negócio aí não pode ser para nos”. Era mesmo.

Os miúdos humildes dos subúrbios estavam longe do seu meio. Tinham largado os estudos e os empregos nos escritórios de multinacionais a troco de um sonho incerto. Estavam agora rodeados de profissionais, equipamento de milhares de euros e sem feijão à vista.

“A comida é estranha. Há muitos doces, não há feijão. Só hambúrgueres, camarões e lagostas. Essas coisas. Nós andamos a comer Big Macs”, contava à família Sérgio Reoli, através de chamada telefónica, um dia antes do regresso ao Brasil, onde nada seria igual.

Que rock é este?

“Ele põe lá o ‘Vira’, entra aquele tecladinho. E eu pergunto ‘o que é isso?’. Quando ouço o ‘raios’ e aquela guitarra fiquei completamente louco. Não entendi absolutamente nada da letra, mas a energia era uma coisa espantosa. Disse ao Ricky que isso ia explodir. ‘Vai ser o maior estouro do país'”, recordava em 2009 Samy Elia, empresário da banda que se tornou sócio de Bonadio nesse preciso momento. E tinha razão.

Não era só a ousadia de misturar rock com forró e outras fusões bizarras. Toda a atitude era descomplexada e bem-disposta. Foi assim que abordaram a primeira grande aparição mediática, como convidados no talk show de Jô Soares, que trataram quase por tu.

Chegaram como nos habituamos a vê-los, disfarçados de algo indecifrável e de cores garridas lançaram-se à letra de Robocop Gay com Dinho a correr o palco e a seduzir os membros da banda do programa.

Três meses depois da assinatura do contrato, estava tudo na rampa de lançamento. Numa era pré-Internet, a rádio era ainda o grande veículo da nova música. E foi durante um almoço que acconteceu a estreia numa rádio dedicada ao rock. “Choraram todos, foi uma coisa bonita”, recorda Elia.

“Vira-Vira”, o single que agarrou no vira português e lhe juntou um par de guitarras, fez uma suruba com Manuel e Maria. Dinho, com o seu sotaque no ponto, colocou os ouvintes a franzirem o sobrolho. Que rock era este? No dia de estreia, o tema foi o mais pedido pelos ouvintes. Foi um sucesso não só em São Paulo, mas também no Rio de Janeiro.

“Era um disco de rock. Eles eram uma banda de rock. Carregamos na guitarra, na distorção, que era aliviado por alguns momentos de outras influências”, recorda Bonadio. A ousadia de criar algo de novo e raramente visto compensou, embora o contexto não o fizesse adivinhar. O mercado passava por uma crise e o sobressalto provocado pela mudança do vinil para o CD. “Não se vendiam CD nem vinis”, sublinha o produtor.

De repente, o fenómeno multiplicava-se e algo de estranho começava a acontecer. Os miúdos nas escolas começavam a trautear os ritmos e a cantar as letras de uma ponta à outra. Os adolescentes também. Os adultos convertiam-se a uma velocidade estonteante.

“Não fizemos nada dirigido a alguém. Não fizemos isto a pensar que a criançada vai gostar. Se assim fosse, não tínhamos usado nenhum palavrão. Fizemos o que ouvimos e o que gostámos”, recordava à época o guitarrista Bento Hinoto.

O rolo compressor

Era a alcunha pela qual era conhecida a banda no meio musical. “As outras bandas tinham medo de estar nas cidades ao mesmo tempo que nós, porque os Mamonas acabavam com todos os outros shows”, recorda o empresário, que de repente se viu inundado de pedidos e chamadas.
Três meses após o lançamento, os Mamonas Assassinas eram a next best thing. Uma arma de arremesso entre estações televisivas na guerra pela audiência de mais de 200 milhões de brasileiros. Quando a banda atuava num programa, esse canal era líder automático das audiências.

Batiam-se todos os recordes. E nenhuma estação queria ficar a perder. Houve até quem tivesse tentado assinar um contrato de exclusividade, revela Samy Elia. Num dos programas, a realização arriscou num pequeno direto no camarim dos Mamonas. O momento que devia durar apenas um par de minutos alongou-se por mais 20.

Nos bastidores, ninguém tirava os olhos do medidor em tempo real da audiência. A ordem da realização era simples: enquanto estivesse a subir, ninguém tirava a câmara dos cinco tipos que já tinham roubado o microfone e saltavam no camarim a fazer macacadas.

“Graças a Deus que as pessoas estão a entender a mensagem da banda, ou seja, não há nenhuma mensagem”, revelou Dinho numa entrevista. Com ou sem mensagem, a verdade é que não havia como parar este comboio em andamento.

“Graças a Deus que as pessoas estão a entender a mensagem da banda, ou seja, não há nenhuma mensagem”, revelou Dinho numa entrevista

Ao sucesso na rádio seguiu-se uma digressão absolutamente frenética. Pelo meio, as constantes aparições na televisão e, finalmente, os prémios. “Isso significa muito para nós, porque afinal de contas, os músicos são muito discriminados. Primeiro é um vagabundo, depois que vira artista e aparece na televisão, até a vizinha te trata de maneira diferente”, confessou o vocalista.

Deram cerca de 182 concertos em apenas oito meses, uma média de 22 espetáculos por mês. Começava a ser fisicamente impossível responder a todas as solicitações. A única solução possível passava por encurtar o tempo de viagem.

“Uma vez tiveram que reservar um jato privado porque tinham que ir ao Faustão e voltar para um concerto no mesmo dia. Eles piraram com a ideia de fazer o show e voltar para dormir em casa. E disseram: ‘Então queremos andar sempre de jato’“, recorda Bonadio.

Nove meses depois do lançamento do disco, os Mamonas Assassinas regressavam a São Paulo, depois de um concerto em Brasília. No dia seguinte aguarda-os outro momento decisivo: partiam para Portugal para outra etapa de divulgação. Por cá, os cinco brasileiros já eram um sucesso.

À espera do avião estavam os pais e a namorada de Dinho, o extrovertido vocalista que foi a cara da banda. A demora trouxe alguma preocupação. No balcão das informações revelaram que “havia um probleminha”. “Avião não tem probleminha. Ou tem problema ou não tem”, recorda Hildebrando Alves, o pai. Minutos depois disseram-lhe que haviam perdido o avião.

O último vôo da cansativa digressão nunca chegou ao destino. Despenhou-se momentos antes de chegar à pista e matou todos os membros da banda. O mais novo tinha 22 anos, o mais velho 28. Morreram também mais quatro ocupantes, os dois pilotos e dois funcionários da banda.

O relatório da investigação revelou que o mau tempo poderá ter sido causa do acidente. O cansaço da tripulação, que trabalhava sem descanso há mais de 16 horas, também desempenhou um papel importante.

Dois meses antes, Dinho tinha regressado a Guarulhos para concretizar um sonho antigo. Conforme tinha prometido ao presidente da câmara, estava na altura de decidir atuar para o seu público no ginásio local.

Na multidão estavam velhos e novos, fãs dos Mamonas e até antigos fãs dos Utopia. Contrariamente ao que era habitual, os cinco entraram no palco sem disfarces. Chegavam vestidos de forma normal, tal e qual como se apresentavam nos tempos da velha banda de garagem que tocava nas boates de Guarulhos.

À entrada, agradeceram a oportunidade de serem convidados para abrir “o espetáculo dos Mamonas Assassinas”. A multidão foi à loucura. Dinho, o coração da banda, deixou por uma vez o papel de rapaz divertido e, em frente ao seu público, mostrou-se pela primeira vez enraivecido. Um misto de emoção e de alegria que explodiu em palco entre pontapés no equipamento.

“Há cinco anos estava ai no vosso meio e queria estar aqui. Diziam-me que era impossível. Mandem-nos para a puta que os pariu. É possível sim. (…) Se você não acreditar, ninguém vai acreditar. Eu quero que saibam que nós vendemos mais de dois milhões de discos, somos o artista número um do Brasil, o que faz mais shows, o que ganha mais dinheiro, o que está na moda. E nós continuamos a ser de Guarulhos. (…) Ainda somos daqui. O sucesso não sobe à cabeça das pessoas. Sobe à cabeça das pessoas fracas e nós não somos fracos. Se fôssemos fracos, tínhamos desistido há cinco anos. E nós estamos aqui caralho. O impossível não existe.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT