Música

Cock Robin: “Não sei qual é a mensagem da música de hoje. É muito sobre a imagem”

A NiT falou com o vocalista e compositor principal, Peter Kingsbery. A banda vai atuar em Lisboa e no Porto.
Os concertos acontecem sexta-feira e sábado.

São os autores de temas como “The Promise You Made”, “When Your Heart is Weak”, “Just Around the Corner” ou “Thought You Were On My Side”, entre outros hits dos anos 80, e atuam em Portugal esta semana. Os americanos Cock Robin estão de regresso ao nosso País para um concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa (13 de março), e outro no Coliseu do Porto (14 de março).

Os bilhetes para a atuação na capital portuguesa estão à venda online entre os 30€ e os 50€, sendo que o espetáculo arranca às 22 horas. Se quiser entradas para o espetáculo no Porto, ficam entre 35€ e 45€, sendo que começa à mesma hora.

Como forma de antecipar o concerto, a NiT entrevistou Peter Kingsbery, músico americano de 67 anos, líder e fundador do grupo, que vive há vários anos em França.

Os Cock Robin começaram nos anos 80 e no início, com o lançamento do primeiro álbum, tiveram mais sucesso na Europa do que no vosso país, os EUA. Na altura acreditavam que em 2020 ainda estariam a tocar enquanto Cock Robin?
Bem, é uma questão interessante. Para mim, os Cock Robin foram sempre a única coisa de que eu quis saber. Demorou muito para que as coisas arrancassem, para que eu fizesse álbuns, foi uma luta. E quando finalmente aconteceu pensei que era um grande sortudo, e o facto de que éramos mais populares na Europa do que nos EUA… não penso muito sobre isso. Se pensar sobre isso hoje, claro que ainda me pergunto sobre o que é que aconteceu, mas acho que sei. Em termos de tocar com os Cock Robin hoje, sempre foram o meu primeiro amor. Nunca quis ser um artista a solo. 

Portanto, o plano sempre foi continuar com a banda durante muito tempo.
Sim, foi difícil durante algum tempo, fiz alguns discos a solo, sem a Anna [LaCazio], mas a separação foi muito sensível, por isso não toquei no assunto, fui em frente e fiz alguns álbuns eu próprio. Mas eu nunca quis que a banda parasse.

Estava a dizer que tinha ideia por que é que sempre foi mais popular na Europa do que nos EUA. Qual era a razão, para si?
Bem, os Cock Robin nunca… fizemos algumas tours, com o Bryan Adams e o Billy Idol, mas quando o nosso segundo single saiu, que era o “The Promise You Made”, nós estávamos com a CBS Records na altura e eles foram apanhados num grande escândalo, e todas as bandas que tinham singles a serem lançados foram esmagadas. Até há um livro que foi escrito sobre isso e os Cock Robin foram uma dessas bandas, sofremos as consequências. Contudo, enquanto isso estava a acontecer, nós estávamos em digressão na Europa e a ver que as pessoas ainda gostavam da nossa música, por isso estava apenas grato por ter uma casa. 

Como é a vida na estrada agora, comparada com os anos 80?
É muito parecida, mas tenho saudades de fazer tours com a Anna LaCazio, ela era muito divertida — ainda é. Estou feliz por poder dizer que ainda somos amigos. Ela sempre foi uma das minhas pessoas favoritas, mas hoje em dia a estrada acho que é um pouco mais sóbria. Não há drogas de que possamos falar, não há excessos de bebida, algumas pessoas poderão pensar que é mais aborrecido, mas estou a gostar mais do que costumava, porque sinto mais que mereci e conquistei o meu espaço.

Agora é tudo mais profissional?
Sim, gastas tanto tempo a tentar manter o carro a funcionar que queres gastar as energias a ter a certeza de que as pessoas ainda estão presentes na mente das pessoas, que elas ainda te vão ver, e isso requer energia e depois de tanto trabalho árduo sinto-me bem, eu mereci isto. E essa é uma boa sensação.

Há alguma coisa que faça sempre antes de atuar?
[risos] O que costumo fazer é aquecer a minha voz, é aquilo com que gasto mais tempo, para ter a certeza de que ainda consigo cantar bem. Em termos psicológicos, tento sempre perceber para quem é que estou a cantar, seja em que país estiver.

Para tentar adaptar o espetáculo?
Sim, acho que tens de o fazer, mesmo. Às vezes não estamos só a tocar para o nosso público, recentemente por exemplo tocámos no sul de França, num evento privado para umas 150 pessoas, e eles não eram todos do nosso público. Nós éramos um bocado o presente, do género “aqui está a banda”. E quando tocas para pessoas que foram ali para fazer outra coisa e tu és simplesmente o entretenimento extra da noite…

É estranho para vocês?
Quer dizer, os meus concertos favoritos são sempre aqueles em que as pessoas vêm especificamente para ver a banda. Prefiro muito mais isso do que tocar num festival, ou quando és apenas mais uma banda de muitas, e tens uma hora para tocar se tiveres sorte. Quando estou num concerto, mesmo que seja um palco muito mais pequeno, estou mais feliz lá, concerteza. 

Obviamente, desde que começou a carreira houve enormes mudanças na forma como a indústria da música funciona. Quais são as melhores e piores alterações, na sua perspetiva?
Acho que uma das piores mudanças são as letras nas canções. Fico um bocado surpreendido, porque perco algum tempo com as minhas letras, mesmo hoje, penso se está bem escrito, se tem uma boa mensagem. E eu não sei qual é a mensagem nos dias de hoje, tenho saudades… de ter mais pontos de vista dos músicos. Não preciso que alguém me diga que ele é o maior, ou que ninguém faz como ele faz, vá lá… isso chateia-me. Tirando isso, acho que a música é bastante fixe. Mas não sei por onde é que vai. Tenho estado há tempo suficiente dentro desta indústria para ver que não estamos a ouvir música da mesma forma que ouvíamos antes. Agora tem de ser visual, tem de ter um conceito, já não é sobre fazer um grande álbum, é sobre muitas coisas.

Ficou mais complexo?
Acho que sim, é mais variado, é mais sobre a imagem do que qualquer outra coisa. Eu não acho necessariamente que isso seja saudável, mas ao mesmo tempo é uma indústria que está repleta de novos talentos, e está cheia. Já não há aquela coisa de seres um sortudo, teres sido selecionado e és um dos poucos. Agora toda a gente está lá e isso de alguma forma tornou a fasquia mais alta, tornou a criação de canções mais desafiante, e não é sobre dinheiro, é mesmo pela tua paixão, a tua motivação para que te conheçam. Não é um esquema para ficar rico rapidamente nem nada disso. Esses dias, se alguma vez existiram, acabaram. 

Quer dar alguns exemplos de bandas ou artistas mais recentes de que gosta?
Não tenho estado em contacto com muitas das novas bandas, conheço muitos por causa da minha filha, que tem 16 anos, ela é uma enorme fã da Selena Gomez, e, claro, da Ariana Grande e artistas assim. Acho que a última banda que comecei a gostar foram os King Gizzard & The Lizard Wizard. Eles são muito populares em Londres, vi-os há pouco tempo com o meu filho, que fez 23 anos recentemente. Antes disso, eu ouvia muito Fleet Foxes, que cantam muito bem e fazem temas ótimos, com um grande som. Eu vivo em França, por isso também acabo por ouvir muita música francesa, não gosto de muita dela, mas de vez em quando há alguém mesmo interessante. Quando aconteceu a cena eletrónica deles, muitas portas se abriram. Mas são muito bons a fazer rap, conseguem tocar rock…

Tem planos para lançar um novo álbum em breve?
Apresentámos o nosso último disco durante uns três anos, e este ano vamos ter um novo álbum. Vamos tocar algumas das canções no concerto em Portugal. Ainda não há data de lançamento. Já não é como antes. Costumava ser: lançavas um álbum e depois fazias uma tour. Agora é outra coisa, eu já nem lhe chamo uma tour, são datas de concertos. Desejo às jovens bandas o melhor da sorte, porque eles vão precisar. É uma viagem bem difícil e dura e está a ficar pior. 

Por isso mesmo, perguntou-lhe se quer continuar a tocar até se reformar?
Essa é outra boa pergunta, e acredita que tenho pensado nisso. Não quero chegar a uma situação em que estou a correr só porque tenho medo de parar. Percebes? Acho que a reforma assusta muitas pessoas. E acho que devia, porque vi muitos casos de pessoas que se reformam e ficam miseráveis. Parece que pode ser uma melhor opção continuar a trabalhar. Eu acabo por ter a felicidade de conseguir cantar como antes, ainda não perdi a minha voz, por isso ainda é um prazer fazê-lo. Sempre disse que me iria retirar quando fosse demasiado velho para conseguir levantar o meu amplificador. Isso ainda me parece lógico.

O quão bem conhece Portugal?
Não conheço assim tão bem, tenho vindo a conhecer nestes últimos três anos, mais do que antes. Tivemos a oportunidade de ir fora do Porto e Lisboa até ao interior do país, e estivemos também na costa. Falámos muito sobre bacalhau e não me importava de ir ver um jogo de futebol. Os portugueses são tão malucos como os franceses pela bola e gostava de ver.

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