Música

Aretha Franklin: a mãe adolescente que se tornou na maior cantora americana de sempre

A diva do soul morreu esta quinta-feira. Tinha 76 anos, mais de metade dedicados à música. 

R-E-S-P-E-C-T.

No início deste ano, Aretha Franklin foi aconselhada pelos médicos a repousar durante dois meses, apesar de a diva da soul estar em digressão com o seu último disco, “A Brand New Me”. O novo álbum recuperava alguns dos maiores êxitos da cantora, embrulhados em novas orquestrações e arranjos, mantendo as vozes gravadas originalmente. Neste cenário clínico, Franklin anunciou que pretendia terminar a carreira assim que a digressão chegasse ao fim. A cantora acabou por morrer esta quinta-feira, 16 de agosto, na sua casa em Detroit, nos EUA, vítima de cancro no pâncreas. Tinha 76 anos. 

Aretha Franklin teve uma das carreiras mais longas da história da música. Começou a cantar em 1952, aos dez anos, logo após a morte da mãe. Pouco depois já acompanhava o pai, Clarence LaVaughn Franklin, o mais popular músico de gospel desses dias, nos concertos em igrejas. O seu primeiro registo discográfico, “Songs of Faith”, seria lançado por uma pequena editora quatro anos depois, em 1956. A música de igreja, os cânticos religiosos, o gospel e a soul seriam as raízes artísticas de uma carreira internacional que a levou, por exemplo, a ser a primeira mulher a figurar no Rock and Roll Hall of Fame, antes até dos Beatles, em 1987.

Nascida em Memphis, no Tennessee, cedo revelou os seus talentos. A mais nova de quatro irmãs, viu os pais separarem-se quando fez seis anos e ficou sem mãe pouco depois, vítima de um ataque cardíaco. A mudança da família para Detroit coincidiu com o despontar do seu génio criativo, primeiro ao piano, depois com uma voz poderosa. Na igreja baptista de New Bettel ficaria conhecida como a “voz de ouro”. Foi por esta altura que começou a acompanhar o pai nas suas digressões. A vida na estrada, porém, obrigou-a a crescer depressa: foi mãe pela primeira vez aos 12 aos, e com 14 já tinha dois filhos, tendo ambos sido criados pela avó e por uma irmã.

O livro “Respect”, uma biografia não autorizada escrita por David Ritz (que já havia colaborado com a cantora americana, no livro assinado pelos dois “Aretha: From These Roots”), refere o outro lado da fama: a história de uma mãe adolescente, a difícil relação com o pai, a relação violenta com o marido, e a luta contra o álcool. Aretha foi casada três vezes e tem quatro filhos — o seu sonho era que todos seguissem uma carreira na música. Um deles, Ted White Jr., é guitarrista e filho do antigo agente de Aretha. Ted chegou a tocar ao lado da mãe em palco durante uma tour. Outro dos seus filhos, Kecalf Franklin Cunningham, é um conhecido rapper cristão.

Polémicas à parte, ela será sempre um ícone da cultura norte-americana. Considerada a cantora mais importante da américa pós-II Guerra Mundial, ganhou 18 Grammy (foi nomeada para 44), e ocupa um lugar na História ao lado de nomes como James Brown, Ottis Reading e Ray Charles. A revista “Rolling Stone” apelidou-a de “a cantora número 1 de todos os tempos”; e Obama, que a convidou para a sua cerimónia de tomada de posse (Jimmy Carter, Bill Clinton também quiseram que ela atuasse nas respetivas tomadas de posse), disse: “Ninguém representa tão bem a ligação espiritual entre africanos e americanos, o blues, o R&B, o rock and roll, a forma como dificuldades e tristezas foram transformadas em algo cheio de beleza, vitalidade e esperança”. 

Para Obama, a voz de Aretha não definiu apenas um estado de espírito, moldou a paisagem da música americana. “Que outro artista teve esse impacto? Dylan, talvez, Stevie Wonder, Ray Charles (…). Se estiver numa ilha deserta e tiver de escolher dez discos para levar, sei que ela está na coleção porque me lembrará sempre a minha humanidade”, acrescentou Obama, sobre a autora de êxitos como “Respect”, “I Never Loved a Man (The Way I Love You)” ou “Chain of Fools”. 

Aretha deixa uma obra extensa: ao longo de mais de 60 anos de carreira a cantora editou mais de 40 discos de estúdio, além de vários registos gravados ao vivo. “Aretha in Paris”, de 1968, foi o primeiro — e foi gravado no L’Olympia, uma das suas salas favoritas em Paris.

O seu último concerto foi em novembro do ano passado, na gala da Elton John AIDS Foundation. 

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT