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A polémica biografia de Woody Allen chegou a Portugal — e fala do caso que mudou tudo

Depois das críticas e dos recuos, “A Propósito de Nada” foi publicado. Retrata a vida e o trabalho do cineasta americano.
O cineasta tem 84 anos.

“Não acreditando na vida depois da morte, não consigo mesmo ver qualquer diferença prática entre se as pessoas se vão lembrar de mim como um realizador de cinema ou um pedófilo.” A frase é de Woody Allen, mostra indiferença em relação às acusações de que tem sido alvo, mas não é necessariamente verdadeira.

Se não, dificilmente Woody Allen dedicaria tantas páginas a refutar as acusações e a contar o que aconteceu — a partir da sua perspetiva — na autobiografia, ou livro de memórias, “A Propósito de Nada”, que é lançada em Portugal esta quinta-feira, 23 de julho.

Trata-se de uma edição do Grupo Almedina, da chancela Edições 70, que se encontra disponível por 22,41€. Tem 450 páginas. 

Apesar de estas acusações remontarem a 1992, nos últimos anos — e na sequência do movimento #MeToo em Hollywood — Woody Allen tem sido ostracizado nos EUA e o cineasta de 84 anos acabou por encontrar um porto de abrigo na Europa. Houve amigos que deixaram de o ser, oportunidades profissionais perdidas, um contrato milionário com a Amazon que foi anulado.

Por isso mesmo, a publicação deste livro também foi controversa. Ia ser publicado nos EUA pela editora Hachette, mas, depois de um protesto dos funcionários, a empresa desistiu da ideia. Acabou por sair por uma editora mais pequena chamada Arcade. Quatro meses depois, chega a Portugal.

Nascido na Nova Iorque dos anos 30, no seio de uma família judaica, Woody Allen começa por descrever a sua infância neste livro. Filho de um pai e de uma mãe da classe trabalhadora, foi a sua prima Rita quem lhe abriu os horizontes para o mundo das artes e do entretenimento, que abriram a sua imaginação. Adorava jazz e magia.

Começou por escrever anedotas nos jornais da Broadway, acabando por escrever também para a rádio, televisão, teatro e o cinema — onde se tornou a referência que é: um realizador e argumentista multi premiado, com dezenas de filmes no seu enorme currículo. Aliás, vem aí um novo, que foi gravado em Espanha.

Woody Allen fala sobre isto tudo em “A Propósito de Nada”, apesar de a indiferença descrita no início deste artigo se manter. Diz que nunca fez um grande filme. E mostra até um desinteresse em explicar como construiu as histórias, como escolheu os atores e os dirigiu (apesar de tantos terem sido nomeados para Óscares nas suas histórias), ou desvendar porque tomou determinadas decisões criativas. “Para os estudantes de cinema, eu não tenho nada de valioso para oferecer. Os meus hábitos de cinema são preguiçosos, indisciplinados.”

Allen, que abomina os comentários dos realizadores nos DVD a explicar como fizeram os filmes, diz que não costuma ver as suas produções depois de terminadas nem lê críticas nem análises ao seu trabalho. No livro há pelo menos um par de frases sobre cada uma das dezenas de filmes, mas normalmente são informações conhecidas, ou que não são difíceis de descobrir numa pesquisa online. Não há aqui grandes incursões sobre o seu trabalho nem sobre a sua visão do cinema — algo que até seria relevante e novo tendo em conta a sua postura habitual enquanto realizador. 

“Eu tinha meia-dúzia de finais diferentes, mas acabou por ficar aquele que podem ver” é uma das poucas coisas que diz, por exemplo, sobre uma das suas maiores obras, “Annie Hall”, de 1977. Não se debruça sobre essas várias opções, simplesmente escreve esta frase. Não há, assim, um grande aprofundamento sobre a sua obra. Allen mostra neste livro como é talentoso a escrever e a contar pequenas histórias e episódios que o marcaram, a escrever sobre pessoas que se cruzaram com ele ao longo das décadas, mas acaba por ser uma compilação desses momentos no fio condutor que é a sua vida.

Tem 450 páginas.

Sendo assim, é curioso que Allen escreva que espera que o leitor não tenha comprado este livro para ler as suas palavras acerca das acusações sexuais de que foi alvo. Na verdade, é um dos temas com maior destaque no livro.

Apesar disso, não há grandes novidades para quem conhece esta história complexa. Woody Allen mantém a sua versão dos acontecimentos e explica-a em detalhe. Há dois escândalos em questão. Um deles é a acusação sexual de que foi alvo em 1992, de alegadamente ter molestado a sua filha adotiva Dylan, que na altura tinha sete anos. Foi investigado duas vezes pela polícia, que não encontrou provas.

A outra é o facto de ter começado uma relação — que ainda hoje se mantém, há mais de 20 anos — com Soon-Yi Previn, sua ex-filha adotiva da mesma relação, com a atriz Mia Farrow, com quem também trabalhou em muitos filmes.

Farrow também acusou Allen de ter abusado da menor Soon-Yi, apesar de ela já ser maior de idade quando começaram a relação, que se tornou num casamento com o passar dos anos. Neste livro, Allen defende-se e ataca o carácter de Farrow. Acusa-a de ter virado alguns dos seus filhos contra ele, embora Moses, que está do lado do pai, seja uma exceção.

Diz que a sua reputação de “supermãe” — Farrow tem 14 filhos, dez deles adotados — era uma farsa. Diz que ela procurava por “novos órfãos como uma pessoa vai ao fundo de catálogo de uma livraria”. Acusa-a de maus tratos físicos e psicológicos aos filhos, e comenta que não se admira que dois deles se tenham suicidado. Do lado de Farrow, tudo tem sido sempre negado.

O incidente da acusação sexual de Dylan aconteceu numa altura em que Allen e Mia Farrow estavam separados — mas tinham filhos e assuntos em comum — já depois do escândalo com Soon-Yi Previn.

“Visitei a casa de campo de Mia num sábado, no início do verão, para ver os miúdos e fazermos um churrasco. Este fora um direito negociado temporariamente. Eu, claro, não dormi no mesmo piso que Mia, mas antes numa secção diferente da casa, num quarto de hóspedes. Independentemente das festividades ou comezainas, andei de um lado para o outro tentando gozar os meus poucos momentos com Dylan, Moses e, se possível, Satchel. Regressei ao meu quarto e descobri um bilhete de Mia preso à porta. Nele lia-se: ‘Pedófilo no churrasco. Abusou sexualmente de uma filha e agora vai atrás da outra.’ Sabia que Mia gostava de dizer às pessoas que eu tinha abusado sexualmente da sua filha menor quando, na realidade, Soon-Yi tinha vinte e dois anos, e claro que o nosso amor, que resultou num casamento de mais de 20 anos, dificilmente poderia ser considerado um abuso sexual. Lembre-se de que este bilhete pavoroso, que ela prendeu na minha porta, é anterior a qualquer sugestão de abuso. Estaria ela a preparar o terreno para aquilo que seria uma cilada?”

Woody Allen explica depois o que terá acontecido, de acordo com a sua versão. “Aconteceu que, durante a minha visita, enquanto Mia fora às compras depois de ter explicado a toda a gente que eu tinha de ser atentamente vigiado, todos os miúdos e as amas estavam a ver televisão, numa sala. Não havia lugar para mim, por isso sentei-me no chão e é possível que tenha apoiado a cabeça no sofá e no colo da Dylan por um instante. Certo é que não fiz nada de desadequado com ela. Estava numa sala cheia de pessoas a ver televisão a meio da tarde. Alison, a nervosa ama dos filhos da amiga de Mia — incitada por Mia para se manter hipervígil — relatou à sua empregadora, Casey, que a certa altura eu pousara a cabeça no colo de Dylan. Mesmo que o tenha feito, foi absolutamente inócuo e completamente apropriado (…) A cabeça pousada no colo, com o passar do tempo, metamorfosear-se-ia em mim a molestá-la no sótão.”

Para oferecer contexto e caracterizar a família de Farrow como disfuncional, Allen destaca ainda o facto de um dos irmãos de Mia Farrow, John Villers-Farrow, ter sido acusado e condenado por abuso sexual — sendo que alegadamente o pai de ambos também já era abusivo. Esta e várias outras histórias são contadas da perspetiva de Woody Allen, “A Propósito de Nada”.

Woody Allen e Soon-Yi Previn

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