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Leia aqui os primeiros capítulos do novo thriller de espionagem do momento

“O Espião Israelita”, escrito por Dov Alfon, vai ser publicado esta terça-feira, 16 de junho.
Dov Alfon foi um verdadeiro espião.

O thriller mais vendido em Israel nos últimos anos já foi traduzido para 12 línguas e esta terça-feira, 16 de junho, chega às livrarias portuguesas. Falamos de “O Espião Israelita”, bestseller escrito por Dov Alfon — ex-jornalista e ex-espião.

As suas memórias e experiência nos serviços de segurança israelitas foram fulcrais para construir esta história fictícia. Um informático é raptado do aeroporto de Charles de Gaulle em Paris, França. Os serviços secretos reúnem-se de emergência.

O crime dá origem a uma série de acontecimentos nos dois lados do mar Mediterrâneo. Um coronel israelita que, por acaso, viajava no mesmo voo da vítima, começa a investigar. Em Telavive, uma inexperiente oficial tenta perceber porque é que um informático irrelevante se tornou de repente uma ameaça à segurança nacional.

Sem nunca se encontrarem, os dois agentes vão tornar-se aliados numa corrida contra o tempo: têm apenas 24 horas para descobrir o paradeiro do jovem — que é perseguido também por um misterioso comando chinês.

A NiT publica em exclusivo esta segunda-feira, dia 15, os primeiros quatro capítulos desta história. A edição da Lua de Papel tem 416 páginas e está à venda por 15,75€.

“Nove pessoas testemunharam o sequestro de Yaniv Meidan do aeroporto Charles de Gaulle, sem incluir as centenas de milhares que viram as imagens das câmaras de segurança assim que estas foram publicadas online. O relatório inicial da polícia francesa descrevia‑o como “um passageiro israelita, com cerca de 20 anos”, apesar de ele ter celebrado o seu vigésimo quinto aniversário uma semana antes. Os colegas descreviam‑no como “brincalhão”, alguns chamavam‑lhe mesmo “infantil”. Todos concordavam que ele era “divertido”. Yaniv Meidan desembarcou, visivelmente alegre, do voo 319 da El Al.

Ao sair do avião, tentou novamente a sua sorte com as hospedeiras de bordo e no controlo de passaportes armou‑se em palerma com os agentes da polícia francesa, que o fitaram com clara hostilidade antes de lhe carimbarem o passaporte e o mandarem seguir com um aceno. Sempre fora assim. Desde o jardim de infância, toda a gente desculpava tudo a Meidan. Possuía uma espontaneidade exuberante, de certa forma juvenil, que seduzira todos os patrões para quem já trabalhara, além de lhe conquistar um número bastante elevado de mulheres, mesmo que todas por pouco tempo.

– É fácil perdoar ao Yaniv – dissera a professora uma vez à mãe dele. Nada mais o distinguia dos outros duzentos israelitas que tinham vindo a Paris participar na CeBit Europe Expo. Com o cabelo cortado rente e a barba por fazer, de calças de ganga e uma t‑shirt com o logótipo de uma feira de informática do ano anterior, envergava o uniforme de todos os jovens, num país que se descrevia a si próprio como uma “nação start‑up”. Nas filmagens, via‑se que ele estava sempre a mexer no telemóvel.

Era o seu segundo ano como gestor de marketing na companhia de software B. O. R., o que fazia dele o membro com mais antiguidade da equipa enviada para o evento. Eram seis, incluindo ele – uma equipa pequena, em comparação com as enviadas por outras companhias maiores.

– O que nos falta em dinheiro, compensamos em talento – dissera ele aos colegas, que o encaravam com um misto de divertimento e afeto. A recolha de bagagens ficava num espaço apertado e mal iluminado. Meidan acelerou o ritmo das piadas. Quanto mais tempo tinham de esperar, mais entediado estava, e vagueou de um lado para o outro, sempre a tagarelar, a tamborilar com os dedos no tapete rolante imóvel. Detestava esperar. Detestava estar entediado. O seu sucesso como gestor de marketing estava diretamente ligado a esta qualidade, a esta sua necessidade de injetar interesse em todos os momentos. Não havia sinal das malas. A dada altura, começou a fotografar‑se a si próprio em várias poses e publicou uma fotografia sua ao lado do cartaz dos armazéns Galeries Lafayette, a deitar a língua de fora para a modelo nua, sem fazer a mínima ideia de que esta fotografia estaria no dia seguinte na primeira página do jornal israelita mais popular, o Yedioth Ahronoth.

Os gestores de marketing das empresas rivais sentaram‑se com os computadores portáteis e aproveitaram o tempo para trabalhar, para ensaiar as suas apresentações para a feira. 

– O que interessa é estabelecer ligações – disse Meidan à equipa, e sacou do cartão Visa para fazer uma careta engraçada em frente de um cartaz da American Express. De súbito, as malas começaram a aparecer no tapete e as deles foram das primeiras a chegar.

– Não se preocupem, rapazes, a feira ainda cá está amanhã – brincou Meidan com os outros passageiros, e conduziu a sua equipa em direção à saída com passo triunfante. Passaram pela linha verde da alfândega, ele à frente, os cinco colegas nos seus calcanhares. As portas automáticas da saída abriram‑se de imediato e ele deparou‑se com uma dúzia de pessoas com cartazes, motoristas à espera deste ou daquele passageiro. Metade parecia gângster, mas entre eles destacava‑se uma loira deslumbrante, com o uniforme vermelho de um hotel e um cartaz na mão. Meidan dirigiu‑se imediatamente a ela, certo de que havia tempo para uma última palhaçada diante dos colegas, só mais uma oportunidade para se armar em engraçadinho, nada mais. Eram 10h40 de segunda‑feira, dia 16 de abril.

Entretanto, em Tel Aviv, a segen1 Oriana Talmor estava a ser apressadamente conduzida para a reunião especial. Era a primeira vez que lhe pediam que representasse a sua unidade em Camp Rabin, a sede da Tzahal em HaKirya. Olhou em volta, assombrada com o enorme complexo das Forças de Defesa Israelitas, enquanto o polícia militar atlético que fora destacado para a acompanhar caminhava à sua frente com passo rápido. A segen Talmor seguiu‑o por um labirinto de casernas de betão brutalistas e torres de vidro futuristas, por estradas com nomes incongruentes como “passeio Íris” ou “rua dos Campos Verdes”. Foram precisos 20 minutos e várias verificações de segurança para chegarem ao piso onde ficam os escritórios executivos do chefe dos Serviços de Informações da Tzahal. O átrio já estava repleto de pessoas.

No corredor, um rav seren corpulento, sentado atrás da secretária da receção, ignorava os seus olhares furiosos. Oriana sentou‑se junto de uma janela com vista para Tel Aviv. À sua frente, um manto de edifícios baixos, salpicado de verde aqui e ali, estendia‑se em direção à costa mediterrânica. O mar não se via, eclipsado pelo brilho do sol e pelas torres residenciais e complexos hoteleiros. Do outro lado da estrada, em frente ao enorme complexo militar, havia pessoas nas filas dos restaurantes gourmet, a passearem em sofisticadas bicicletas elétricas, a trocarem cumprimentos, moradas confidenciais, notícias da família e receitas veganas. Mais perto dos portões, algumas mulheres vestidas de preto exigiam o fim da ocupação militar nos territórios palestinianos e eram cordialmente ignoradas pelos turistas americanos e generais israelitas que desapareciam dentro do centro comercial mais adiante.

Junto ao parque de estacionamento, dezenas de gatos vadios vagueavam entre os caixotes do lixo, à espera de que o soldado de serviço despejasse os restos de comida da base militar. Embora estivesse muito acima da cidade, Oriana conseguia sentir a sua intensidade. Tel Aviv era agora considerada a cidade mais moderna do mundo. Era também o único sítio de Israel de que ela nunca gostara verdadeiramente. Afastou‑se da janela e parou a observar os estranhos objetos exibidos nas paredes: um chapéu de cowboy, presente do então diretor da CIA; uma espada de prata pura, presente do chefe dos serviços de segurança do Zimbabué; um póster antigo da Toblerone, oferecido pelo diretor dos serviços de contrainformação suíços. Tentou adivinhar que presentes o chefe dos Serviços de Informações de Israel teria dado em troca. Ao meio‑dia em ponto, a porta de madeira pesada abriu‑se e todos entraram na sala de reuniões, onde o ar condicionado estava na potência máxima.

Oriana sentou‑se ao canto da mesa, perto da porta. Houve algum burburinho quando os representantes das unidades de recolha de informações se dirigiram às cadeiras na cabeceira da mesa, enquanto o pessoal do departamento de investigação exclamava alto e bom som que os lugares tinham sido previamente atribuídos. Oren, um homem de 20 e poucos anos, era o ambicioso adjunto do chefe dos Serviços de Informações. Claramente sob pressão, repreendeu ambos os lados indiscriminadamente. A representante da Divisão de Informações Navais, a única outra mulher presente, sentou‑se casualmente no lugar reservado para o presidente da reunião, com o uniforme branco a dar‑lhe a aparência de uma noiva no dia do casamento. O diretor de investigação, que entrara por uma porta lateral e não parecia muito impressionado, exigiu‑lhe que mudasse de lugar. Dos seus retratos nas paredes, os chefes dos serviços de informações de gerações passadas assistiam a esta barafunda, seguros na sua imponência a preto-e-branco. Depois de todos estarem finalmente sentados, o adjunto deu início à reunião com uma chamada, um ritual escolar que só veio intensificar a atmosfera infantil.

– Serviços de Segurança de Informações?

– Aqui.

– Grupo dos Serviços de Informações da Força Aérea?

– Aqui.

– Departamento dos Serviços de Informações Navais?

– Aqui.

As divisões de investigação foram chamadas por número, seguidas das unidades de recolha de informações, incluindo duas que Oriana nem sequer sabia que existiam. Estavam presentes nada mais, nada menos, do que três representantes da Mossad.

– 504?

– Aqui.

– 8200? Pronunciava o nome da unidade como um novato: “oito mil e duzentos” em vez de “oito duzentos”.

– Aqui. 

Todos os olhos se voltaram para ela com o que lhe pareceram ser expressões claramente apreciadoras, alguns descaradamente a comê‑la com os olhos. Oren tinha outros problemas.

– Esta é uma reunião convocada pelo chefe dos Serviços de Informações Militares, o aluf Rotelmann. Ele pediu explicitamente que o chefe da Secção Especial 8200 estivesse aqui presente hoje.

– Não há um chefe de secção neste momento, seren. Eu sou a vice-chefe e chefe provisória – explicou Oriana.

O adjunto do general era um seren, apenas um posto acima dela, mas a sua posição conferia‑lhe muito mais poder. Passou‑lhe pela mente o conselho que costumava dar a si própria em momentos como este: “Não sorrias de forma constrangida. Não repitas o que já disseste. Se estão à espera de que te expliques melhor, deixa‑os esperar.” O adjunto foi o primeiro a quebrar o silêncio.

– O sgan aluf Shlomo Tiriani é o chefe da Secção Especial da Unidade 8200 – disse Oren, olhando em volta, à procura do sgan aluf.

– Está a dizer que ele está de licença?

– Foi afastado do cargo ontem – disse Oriana.

– O seu substituto encontra‑se de momento em treinos no estrangeiro. Espera‑se que assuma os seus deveres ao regressar.

– Pensávamos que o Tiriani estaria presente – disse o jovem. Tinha olhos grandes e lábios que formavam um O mesmo quando não se estavam a mexer, como se ainda ansiassem pelo seio materno. As asas de paraquedista ao seu peito completavam a imagem de uma criança mascarada para o Purim2 .

– Lamento muito a desilusão causada pela minha presença – disse Oriana. Ouviram‑se risos na sala, mas Oren foi rápido a silenciá‑los. Concluiu a chamada, levantou‑se para abrir uma porta interior e chamou:

– Estamos prontos.

A cena no Terminal 2 do aeroporto Charles de Gaulle estava a tornar‑se incontrolável e o commissaire Jules Léger da Police Judiciaire queria que o dia acabasse de uma vez. Doía‑lhe a cabeça. Não era uma dor de cabeça distante, daquelas que se mantêm educadamente em segundo plano; não era uma dor de cabeça de ressaca, acompanhada por memórias agradáveis da noite anterior. Não era uma dor de cabeça causada pela fome, das que trazem consigo a esperança de uma refeição reconfortante e regeneradora. E muito menos era uma daquelas dores de cabeça que desaparecem por si só, ao fim de algum tempo, como acontece depois de beber um granizado gelado no verão. Não, esta era uma dor de cabeça a sério, prestes a tornar‑se uma enxaqueca, e havia muitas razões para ela, que o commissaire Léger tentava agora enunciar para si próprio. Primeiro, o facto simples e indiscutível de que um passageiro desaparecera de um dos locais mais seguros de França, menos de meia hora depois de o seu voo ter aterrado.

É uma edição da Lua de Papel.

Segundo, e isto era injustiça pura e simples, o local do crime caíra sob o seu domínio completamente por acaso. O chefe da polícia do aeroporto tinha tirado uma semana de férias e o commissaire Léger recebera ordens para que, na ausência dele, presidisse também a quaisquer investigações no aeroporto. Não conhecia os investigadores à sua volta e também não estava familiarizado com o local. As suas tentativas de organizar algo que se assemelhasse a uma atividade policial estavam a intensificar‑lhe a dor de cabeça: o uivo das sirenes da polícia lá fora competia com o barulho dos rádios cá dentro e, juntos, martelavam sem misericórdia contra as suas têmporas doridas. Terceiro, e bem acima na lista de razões para a sua dor de cabeça, dois oficiais israelitas que tinham aparecido no local sem aviso prévio exigiam agora que lhes fosse permitido participar no interrogatório das testemunhas. Léger reconheceu vagamente o que se chamava Chico, um homem mais velho com uma grande cabeleira ruiva, não necessariamente natural, que era o representante da polícia israelita na Europa. Léger estivera com ele em algumas reuniões para discutir a segurança das instituições israelitas em Paris, mas, tanto quando se recordava, ele nunca tinha pedido para estar envolvido em nenhuma investigação.

O outro israelita não se parecia nada com um polícia. Era alto, com calças de ganga pretas justas e uma camisa branca cujo preço Léger calculou que fosse superior ao seu salário mensal. Os olhos azuis brilhavam sob o cabelo preto salpicado de cinzento, contrabalançados por uma cicatriz horizontal no queixo que impedia que o rosto parecesse demasiado delicado para pertencer a um homem. O seu olhar passava diretamente através de Léger. O commissaire tinha encontrado vários tipos como ele ao longo da sua carreira, geralmente ligados à investigação de fraudes. Fora‑lhe apresentada a identificação obscura do israelita, um cartão plastificado com uma fotografia que parecia demasiado recente, do qual constava um nome estrangeiro e uma patente militar. Se Léger decidisse acreditar no cartão, tratava‑se do coronel Zeev Abadi. O urologista de Léger também se chamava Abadi, um facto que em nada aliviava as suas preocupações. O emblema do Estado de Israel era orgulhosamente exibido na parte de trás do cartão, com o pedido, em inglês e em francês, para que quaisquer autoridades a nível global “auxiliassem de todas as formas possíveis o portador deste cartão”, cujo cargo definia simplesmente como “investigador”.

– Qualquer pessoa podia fazer um cartão destes em casa – disse Léger, erguendo os olhos para os de Abadi. Militar, pensou. Serviços de Informações?

– Estou em Paris um pouco por acaso – disse o misterioso israelita enquanto guardava novamente o cartão na carteira, como se, com isso, tivesse respondido ao comentário de Léger. O seu francês era lento mas preciso, quase poético. “Um peu par hasard”, pensou Léger, e só a sua dor de cabeça o impediu de se lembrar se era uma citação de algum poema. Queria perguntar ao coronel Abadi – se era realmente esse o seu nome – como é que um investigador podia tropeçar um pouco por acaso num local de crime a milhares de quilómetros do seu gabinete, mas em vez disso virou‑se para o inspetor do aeroporto.

– Vamos levá‑los até junto das testemunhas.

Passava pouco do meio‑dia em Tel Aviv, mas ninguém o diria dentro daquela sala. Não havia janelas na divisão gigantesca, que era iluminada dia e noite por lâmpadas brancas de néon. Na parede principal, moviam‑se lentamente os ponteiros de uma dúzia de relógios em fusos horários diferentes, cada um com o nome de uma cidade distante. Estava verdadeiramente frio. Mesmo no pino do verão, os soldados ali sentados ficavam de casaco vestido e passavam turnos inteiros a esfregar os ombros uns dos outros. Ao longo dos anos tinham sido submetidas inúmeras queixas ao ombudsman, mas as unidades de ar condicionado continuavam a trabalhar: no sistema nervoso central dos serviços de informações militares israelitas, o bem‑estar dos computadores vinha primeiro do que o bem‑estar das pessoas.

Os relatórios chegavam a um ritmo alucinante, às dezenas por minuto, de todas as unidades dos serviços de informações militares. Em 99% dos casos, os algoritmos distribuíam os relatórios para as secções relevantes sem necessidade de intervenção humana. Noutros casos, o relatório aparecia num dos ecrãs e o soldado tinha de decidir em segundos se ele justificava a atenção do supervisor de turno. O volume de dados era avassalador. Os computadores conseguiam, não só distribuir os relatórios, mas também determinar o seu nível de importância conforme a credibilidade da fonte e a sensibilidade das palavras‑chave. Além disso, identificavam relatórios semelhantes e agrupavam‑nos, de modo que às 12h14 os ecrãs se iluminaram simul‑ taneamente em frente do soldado na Estação 23.

Para: CENTRAL

De: HATZAV OSINT Europa

Prioridade: Muito Urgente/ Desclassificado

Passageiros no aeroporto Charles de Gaulle relatam nas redes sociais que as forças de segurança estão a varrer o Terminal 2 A (terminal da El Al, comentário do oficial de serviço). 

Para: CENTRAL

De: El Al/ Segurança/ Chefe do Gabinete de Segurança

Prioridade: Imediato/ Restrito

O chefe de segurança da El Al em Paris informa do possível sequestro de cidadão israelita no aeroporto Charles de Gaulle. Mais detalhes em breve.

Para: CENTRAL

De: Polícia/ Sede Nacional/ Serviços de Informações Estrangeiras

Prioridade: Imediato/ Secreto

Representante da polícia israelita na Europa informa que um cidadão israelita foi considerado desaparecido pela polícia de Paris. Circunstâncias desconhecidas. Representante da polícia no local, com representante do adido militar. Mais informações assim que estiverem disponíveis. 

Para: CENTRAL

De: Aman/ Unidade Central de Recolha de Informações/ Unidade de Ligação aos Serviços de Informações dos EUA

Prioridade: Imediata/ Top Secret

Nível de Acesso: Código Negro 

Polícia francesa a revistar o Terminal 2 A do aeroporto Charles de Gaulle em busca de passageiro israelita Yaniv Meidan, aprox. 20 anos, de visita a Paris para a CeBit Expo. Desaparecido ao desembarcar do voo 319 da El Al. (Suspeitas iniciais de crime, nota do oficial de serviço.) 

O soldado em frente do ecrã não correu riscos desnecessários e pressionou o botão de reencaminhamento das mensagens. Três metros atrás dele, numa plataforma elevada, a supervisora de turno estava sentada diante de um ecrã gigante que cobria toda a parede. Nesse dia, era por mero acaso uma sargento a poucos dias da data de fim de serviço, cujos pensamentos estavam concentrados na viagem próxima às praias do Sri Lanka.

– Parece‑me do foro criminal – disse ela.

– Por que raio um informático estaria envolvido em atividade criminosa? – perguntou o soldado. 

– Os tipos de ligação aos EUA classificam automaticamente como “criminal” qualquer evento que não seja relacionado com os palestinianos. A fonte deles existe mesmo? E com esse nível de acesso? A maioria dos relatórios da unidade de ligação aos serviços de informações dos EUA chegava de postos de escuta americanos, geralmente geridos pela Agência de Segurança Nacional. Como é que o oficial de serviço deles podia sequer saber se se tratava de um evento criminal ou de segurança? A pergunta do soldado era lógica, apesar de a sargento dispensar perguntas lógicas naquele momento. As únicas perguntas que queria ouvir eram “Deseja uma refeição especial no seu voo?” ou “Pretende comprar alguma coisa do carrinho de duty‑free?”

– Para que raio preciso eu disto agora, quarenta e oito horas antes do fim do meu tempo de serviço? – disse ao soldado, que era simpático e compreensivo. Sorriu‑lhe e carregou no botão.

– Gabinete executivo, fala a Central – disse ao microfone.

– Temos um relatório com Código Negro para o chefe, urgência imediata. No piso superior do edifício contíguo, dois soldados levantaram‑se de um salto e desceram as escadas a correr.”

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