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“Estar dentro de Chernobyl foi muito assustador. E fiquei desapontado com a série”

A NiT entrevistou Adam Higginbotham, que escreveu o livro “Meia-Noite em Chernobyl”, que foi agora publicado em Portugal.
A minissérie estreou no ano passado e foi um sucesso.

25 de abril de 1986 ficou marcado para sempre como o dia em que o reator quatro da central nuclear de Chernobyl, na União Soviética (no território da atual Ucrânia) explodiu. Não só alterou a forma como o mundo olhava para a energia nuclear, como contribuiu para o fim da URSS e para a vitória dos EUA na Guerra Fria.

Foi um desastre ecológico, ambiental, político e financeiro que abalou todo o leste da Europa. A história de Chernobyl foi contada várias vezes — mas em muitas ocasiões com imprecisões. Criaram-se até mitos associados ao acidente que, de repetidos tantas vezes, se tornaram aparentes verdades.

Em “Meia-Noite em Chernobyl”, o jornalista britânico Adam Higginbotham repõe a história “verdadeira” do que aconteceu naquela noite — e do impacto que isso teve nas pessoas. O livro foi publicado este mês em Portugal, numa edição da Desassossego, e está à venda por 24,40€.

Higginbotham entrevistou dezenas e dezenas de testemunhas em várias viagens que fez à atual Ucrânia e Rússia. O resultado da investigação é este trabalho. Leia a entrevista da NiT sobre o livro, a investigação e também sobre a minissérie “Chernobyl”, da HBO, que se tornou num fenómeno de popularidade no ano passado.

O desastre de Chernobyl aconteceu em 1986. Lembra-se do incidente? O que estava a fazer na altura?
Estranhamente, não me lembro. Eu tinha 17 anos quando o acidente aconteceu. Aquilo que me lembro de uma forma muito mais clara é o desastre do Challenger, que aconteceu alguns meses antes. E não me lembro de ver notícias sobre o acidente de Chernobyl. E acho que é porque, na altura, estava integrado numa sensação mais alargada de terror nuclear que acho que toda a gente que cresceu nessa época experienciou. Eu apenas esperava que o mundo fosse consumido nalgum tipo de conflito nuclear num futuro próximo, como resultado da Guerra Fria. Por isso acho que o desastre de Chernobyl na altura não teve um grande impacto em mim, em comparação com o do Challenger. Um deles era muito mais expectável do que o outro [risos].

Então, quando é que se começou a interessar por este tema? E porquê?
Eu comecei a escrever sobre isto no final de 2005. Eu queria escrever uma peça sobre o acidente para ser publicado no vigésimo aniversário da explosão. Eu estava apenas a abordar aquilo para um artigo numa revista — e queria uma peça que reconstruísse os acontecimentos da própria noite, através de testemunhas que sobreviveram. E fiz essa abordagem porque tinha lido o “A Night to Remember”, um livro do Walter Lord sobre o afundamento do Titanic, que é um livro muito conciso que apenas se foca na noite em que aconteceu. E fui a Moscovo [na Rússia] e a Kiev [na Ucrânia] para encontrar e entrevistar testemunhas para fazer isso mesmo, escrever um artigo para uma revista. Preparei-me para isto ao ler quase todos os relatos existentes em inglês que consegui encontrar, mas quando comecei a conhecer e a falar com as testemunhas, apercebi-me de que não só havia muita coisa que não tinha sido contada, como havia coisas erradas nos registos sobre o que aconteceu. As histórias destas pessoas eram incríveis. E reconheci, nesse momento, que havia uma história a ser contada da perspetiva deles, que nunca tinha sido contada. E quis escrever um livro. Mas nessa altura não consegui que ninguém me deixasse fazê-lo e demorei quase dez anos até persuadir alguém que me deixasse escrever um livro sobre isto. 

Foi fácil encontrar as testemunhas, as pessoas que, de alguma forma, experienciaram o desastre?
Não foi especialmente [risos]. Pelo menos não para mim, que sou um repórter ocidental, que não falo nem russo nem ucraniano. Inicialmente muitas destas pessoas foram difíceis de encontrar. Mas no fundo tive uma grande ajuda a encontrá-las através do museu de Chernobyl em Kiev. A diretora da secção de ciência passou os últimos 25 anos a recolher informações e a cultivar contactos e relações pessoais e a identificar testemunhas e a reunir os depoimentos num único sítio. E ela ajudou-me imenso a fazê-lo. E em muitos casos ia perguntando às pessoas se conheciam mais alguém com quem eu devia falar. Mas tive de viajar muito e ir a alguns sítios bastante estranhos para encontrar estas pessoas.

Quanto tempo durou essa investigação?
Foram muitas viagens. Fiz a minha primeira reportagem em 2006, e depois fiz outro artigo para uma revista em 2011, então voltei à zona de exclusão. E quando comecei a trabalhar mesmo no livro, voltei em 2015 e ao longo dos dois anos seguintes fui de novo, várias vezes, a Moscovo, a Kiev e a vários locais da Ucrânia. No final acabei por entrevistar mais de 85 pessoas.

Quão perto chegou de Chernobyl?
Eu estive dentro da central nuclear, o quão perto consegues estar. Não estive dentro do centro de controlo ou no edifício do reator que explodiu. Mas estive no terceiro bloco, que é ao lado do reator quatro. 

Como foi essa experiência?
Foi muito assustador. É uma central nuclear deserta e abandonada, num sítio onde aconteceu um acidente nuclear [risos]. Apesar de continuar a ser descontaminada, ainda não consegues ficar por lá. E consegues sentir a presença de algo… quando te aproximas dos restos do reator quatro. Só consegues entrar na zona de exclusão com um guia, e estive sempre acompanhado.

Tem 560 páginas.

Olhando para trás para o seu trabalho, quais foram as descobertas mais surpreendentes que fez?
Acho que uma das mais surpreendentes fiquei a saber nessa primeira viagem que fiz em 2006. Eu estava a falar com um dos físicos que trabalhavam na central, e até na parte de segurança da central, e fiz-lhe uma questão que na altura estava a fazer a toda a gente. “Para si, qual foi o momento mais assustador do que experienciou?” A maioria das pessoas disse o mesmo, falou da explosão enorme e disseram que pensavam que a guerra com os americanos tinha começado. Mas este físico não disse isso: ele disse que o momento mais assustador tinha acontecido já em maio, quando eles acreditavam que ia haver uma segunda explosão e iam ser todos mortos. Nesse momento, eu nunca tinha lido qualquer menção a isto, sobre o medo de uma segunda explosão. Por isso fiquei bastante surpreendido. Ainda pensei, por um segundo, que o tradutor que me estava a ajudar se tinha enganado. Mas quanto mais trabalhei, mais percebi que tinha mesmo acontecido. Todo o staff estava aterrorizado com o medo de que ia haver uma segunda explosão, que contaminasse uma área muito maior do que a primeira. 

Acredita que ainda há muita coisa para descobrir sobre o que aconteceu?
Acho que provavelmente há, sinceramente eu podia continuar a escrever sobre isto durante mais uns dez anos. Porque acho que é fascinante, e há tantos mitos à volta disto. Eu falei com um dos investigadores do gabinete do ministério público em Kiev, que foi encarregue de investigar o que aconteceu e quem foram os responsáveis. Eles reuniram, acho eu, 57 volumes de informação no decorrer da sua investigação. E assim que ficou concluída, esses volumes foram enviados para Moscovo e colocados numa cave algures — imediatamente tornaram-se confidenciais. E este investigador, depois do colapso da União Soviética, tentou que estes volumes de investigação fossem devolvidos a Kiev para que toda a gente os pudesse ver. E ele não conseguiu. Ele disse que há coisas sobre o acidente que nunca se vão saber. Porque todo esse material foi enterrado.

Que coisas é que nunca vamos saber?
Para mim, acho que o mais importante são as verdadeiras motivações por trás das decisões que foram feitas da parte dos indivíduos na noite do acidente. São coisas que talvez nunca saberemos, porque as pessoas responsáveis já morreram. Isso é uma das coisas mais fascinantes: saber quais são as verdadeiras motivações. Mas acho que a mais importante é descobrir quais são — e quais vão ser — as verdadeiras consequências médicas do acidente. Nunca vamos saber porque muitas das informações sobre as consequências radioativas para as pessoas e o ecossistema naquela zona tornaram-se confidenciais logo no início. 

Há pouco referiu os mitos que estão associados a Chernobyl. Há algumas ideias que as pessoas têm do acidente que não são necessariamente verdadeiras. Qual é o mito mais popular?
Há muitas coisas dessas que quis abordar no livro. Era uma das razões pelas quais o quis escrever, para tentar desconstruir esses mitos e escrever a verdadeira história sobre o que aconteceu — em vez da história que estava a ser tantas vezes publicada, com estes mitos que têm sido repetidos. Há muitos exemplos que continuam a ser repetidos, como a ideia de que os cidadãos de Pripyat se reuniram numa ponte de comboios à entrada da cidade enquanto assistiam ao incêndio da central nuclear, nas primeiras horas da manhã seguinte. E há a ideia de que todas estas pessoas morreram, e agora esta ponte é conhecida como a “ponte da morte”. Isso não faz sentido nenhum. Não há qualquer tipo de prova que sustente isso. E muitos dos mitos têm visões estereotipadas da vida na União Soviética. Muitos dos mitos têm as suas raízes na propaganda soviética. Mas outros nascem do que é que as pessoas acreditam que pode ter acontecido, em vez daquilo que é a verdade.

Acredita que por ter estado lá, na Ucrânia, na Rússia, foi mais fácil de descobrir a verdade e desconstruir os tais mitos?
Não sei, acho que estas coisas foram repetidas tantas vezes e apelam às profundezas mais obscuras da natureza humana. As pessoas gostam de acreditar nestas ideias macabras, como a “ponte da morte”, porque desola as pessoas, é como uma ideia de um filme de terror. Por isso acho que não tem a ver necessariamente com onde estás. Mas, claro, quando vais à Ucrânia e falas com engenheiros nucleares que trabalharam em Chernobyl, eles vão-te dizer que isto não tem sentido [risos].

Essa “ponte da morte” aparece na série “Chernobyl”, que estreou no ano passado na HBO, que teve um grande sucesso e que o Adam já comentou nalgumas ocasiões. Em geral, gostou da série? Mesmo que algumas das coisas incluídas não sejam verdadeiras.
Acho que recriaram de forma impecável a representação visual da Ucrânia e da Rússia em 1986. Tem um visual incrível e acho que o guarda-roupa e a direção de arte foram fantásticos. Mas acho que foi uma infeliz oportunidade perdida. Como disseste, repetiu muitos destes mitos. E ainda acrescentou mais. Criou novos mitos, com a intenção de contar uma história mais dramática. E fiquei um pouco surpreendido, porque é uma história que, pela sua natureza, já é muito, muito dramática. E eles ainda sentiram a necessidade de a tornar mais dramática [risos]. Acho que foi um mau serviço prestado às pessoas que realmente viveram isto. Tem muitos estereótipos e parece que nem sequer consideraram que as pessoas que estavam a representar no ecrã são pessoas reais, muitas das quais ainda estão vivas. Fiquei um pouco desapontado por isso. 

O britânico radicado nos EUA entrevistou mais de 85 pessoas.

Também contribui para a disseminação destes mitos?
Absolutamente. Toda a gente que vir a série vai acreditar que, como resultado do acidente, centenas de milhares de pessoas morreram e que a “ponte da morte” foi real. Há muitos elementos da série que são simplistas ou imprecisos. E eu conheci muitas destas pessoas que aparecem na série, e elas foram entrevistadas para o livro. A versão do livro é a versão precisa [risos].

Gostaria de ver o seu livro adaptado para uma série de televisão? Para contar, como diz, a “versão precisa” do que aconteceu?
É uma pergunta interessante, porque, na verdade, o meu livro foi proposto para ser tornado numa minissérie, mas não aconteceu. Isto foi alguns anos antes de a série da HBO ter sido feita. 

Ainda sobre a série da HBO, vários órgãos de comunicação estatais russos terão acusado a produção de conter mentiras ou de ter sido manipuladora. Eles têm razão no que dizem?
Não acredito que estejam preocupados com a mitologia ou com a representação errada do comportamento individual. Não li essas declarações, mas suspeito que as tenham feito como acusando a série de ser um ato deliberado de propaganda. Não diria que a série quis fazer propaganda, só acho que os criadores da série queriam fazer a história mais dramática que podiam. E foi o que fizeram. É certamente imprecisa. Os russos não estão errados acerca disso. Eu acho que tem os estereótipos dos estilos de vida preguiçosos na União Soviética, e representa mal as pessoas, como se fossem todas vítimas passivas do estado em que viviam. E as pessoas reais simplesmente não eram assim. Mas isso não acontece apenas nesta série da HBO, há muitos relatos sobre Chernobyl que representam as pessoas desta forma.

Estava a dizer que podia continuar a contar esta história nos próximos dez anos porque há material para isso. Há alguma perspetiva específica de que ainda não tenha abordado este tema, mas que gostaria de o fazer?
Não, é só porque é uma história tão enorme e épica que engloba centenas e milhares de histórias individuais. Tantas pessoas experienciaram tantos acontecimentos e foi tão historicamente importante. Eu entrevistei muitas pessoas e muitas delas tornaram-se protagonistas centrais no livro. Mas há pessoas que entrevistei durante horas cujos relatos só contribuíram para informar sobre a narrativa maior e nem sequer são mencionados no livro, sem ser nos rodapés. É uma história tão vasta que podias continuar a investigar durante uma vida sem nunca chegares ao fim. Mas acho que não há nenhum ângulo específico que sinta que devesse ter seguido e que não segui.

Há pessoas específicas que não tenha conseguido entrevistar?
Sim, há algumas, pessoas com quem tinha combinado encontrar-me mas que depois fiquei sem tempo. Ou que estavam em locais a que eu simplesmente não conseguia ir. 

E as pessoas que falaram consigo estavam muito abertas a contar as suas histórias?
A maioria, sim. Mas alguns nunca tinham falado com um repórter ocidental. Outros tinham trabalhado na indústria nuclear, em programas secretos de armas e coisas assim, e eles diziam que não podiam falar sobre certas coisas porque é confidencial — mesmo que tenha acontecido em 1965 [risos], num Estado que já não existe. Dependeu, claro. Tive de persuadir algumas pessoas. Porque algumas delas já tinham falado com outras pessoas que tinham escrito livros ou feito documentários mas que abordam teorias da conspiração ridículas e que contribuem para a mitologia. E as pessoas que tinham sido entrevistadas para isso estavam bastante suspeitas sobre o porquê de eu estar a fazer isto. Tive de as persuadir e fazer perceber que tinha intenções honestas e que só queria contar a história verdadeira sobre o que tinha acontecido, que refletisse as experiências reais das pessoas e que não tinha a minha própria agenda.

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