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De flop a bestseller: a história do homem que previu o mundo em quarentena

Em apenas um mês, um livro escrito há 15 anos tornou-se um enorme sucesso. Tudo por causa da Covid-19. A NiT entrevistou o autor.
Peter May é natural da Escócia.

Há 15 anos, a vida não estava a correr bem para Peter May. Depois de ter deixado para trás a carreira de argumentista na BBC para se focar nos seus livros, o autor escocês criou uma saga de histórias de crime passadas na China. Só que, depois de seis livros com vendas apenas razoáveis, a sua editora desistiu do projeto.

Peter May continuou sempre a escrever, mas os seus dois trabalhos seguintes, “The Blackhouse” e “Extraordinary People”, não suscitaram o interesse das editoras. May precisava desesperadamente de vender um livro para pagar as contas e começou então a desenvolver um thriller passado em Londres.

O escritor tinha uma ideia assim há muito tempo. Aliás, o quarto livro da sua saga de histórias na China já falava de um grupo de terroristas que usava o vírus da gripe espanhola como arma. 

Quando a SARS apareceu em 2003, Peter May ponderou escrever uma história sobre a cidade de Pequim em quarentena total. Em 2005 recuperou a ideia quando percebeu que precisava de uma narrativa que vendesse. Escolheu a gripe das aves e resolveu situar o enredo em Londres, uma cidade que conhecia bem. 

Criou a história de um detetive e de uma cientista forense que investigam uma série de homicídios nesta cidade atormentada pela quarentena e pelo medo de um vírus letal (que no livro já matou meio milhão de pessoas). Consultou diversos documentos oficiais de diversos países sobre as indicações a seguir no caso de uma pandemia e construiu uma história da forma mais verossímil possível.

Apesar disso, deu contornos trágicos e distópicos à pandemia — a cidade é apresentada como tendo partes em ruínas, com militares no terreno a tentar manter a ordem, numa sociedade em que a população não acredita nos dados divulgados pelo governo. 

Peter May terminou o livro, a que deu o título de “Lockdown”, e sentiu-se satisfeito. Mas o mesmo não aconteceu com as editoras a quem apresentou a história. Disseram-lhe que, nos tempos modernos em que vivíamos, que seria totalmente absurdo e impensável que uma cidade como Londres fosse totalmente encerrada por causa de um vírus. Em 2020 sabemos que isso não é bem assim.

Peter May foi jornalista e guionista até se tornar apenas escritor.

“Lockdown” não foi a solução para os seus problemas e ficou arquivado na gaveta. Entretanto, uma editora americana quis publicar “Extraordinary People”, o que ajudou a que “The Blackhouse” também fosse editado. Ambos venderam milhões de cópias em múltiplos países e catapultaram May para o tão desejado sucesso. “Lockdown” ficou para sempre esquecido e nunca houve qualquer razão para que fosse lembrado. Até este ano, claro.

Depois da sua extensa pesquisa, Peter May tornou-se bastante “paranóico” em relação aos perigos da falta de higiene no dia a dia. “Em 2005 fiquei bastante consciente do quão fácil é para os vírus serem transmitidos de uma pessoa para outra no dia a dia. Tornei-me paranóico com isso e comecei a usar gel desinfetante ou toalhitas. Quando viajo de avião limpo sempre o tabuleiro onde se come e os braços do meu lugar, uso máscara muitas vezes e estou sempre a desinfetar e a limpar as minhas mãos. Por isso tornei-me muito consciente sobre o perigo”, conta Peter May à NiT através do telefone, a partir da sua casa em França, país onde vive há várias décadas.

Quando o novo coronavírus começou a alastrar-se pelo mundo fora, Peter May, hoje com 68 anos, estava focado em lançar o novo livro, “A Silent Death”. Até que, em meados de março, um fã recomendou-lhe no Twitter que escrevesse uma história passada numa pandemia. Peter May lembrou-se que já a tinha escrito há 15 anos e foi recuperá-la a uma pasta da Dropbox.

“Nunca tinha relacionado a pandemia da Covid-19 com o que eu tinha escrito há 15 anos. Mas quando aquele seguidor do Twitter me disse isso, eu percebi que já tinha escrito sobre isto. Não era a Covid, era a gripe das aves, mas fiquei chocado, porque eu próprio não me tinha lembrado das semelhanças.”

Peter May nem se lembrava exatamente do livro que tinha escrito. “Apesar de eu me lembrar do conteúdo geral da história, não me recordava dos detalhes. Foi inacreditável, o quão preciso era. Tudo o que eu tinha escrito na altura parecia estar a acontecer agora. Por um lado estava surpreendido, mas por outro não porque eu tinha feito a minha pesquisa. E bastava ires até à pandemia da gripe espanhola e veres o que aconteceu, porque não é assim tão diferente em relação ao que está a acontecer agora, na forma como os governos e os países dão resposta. Tudo isto aconteceu há 100 anos, só que ninguém se lembra [risos].”

Fez uma publicação na sua página no Facebook a perguntar aos seguidores o que achavam da ideia de publicar o livro. Os leitores responderam positivamente e com entusiasmo. Foi no dia 18 de março que enviou o livro em PDF ao seu editor. Não alterou sequer uma vírgula. Na manhã seguinte, depois de o ter lido de seguida, a ideia estava comprada: queriam publicar a história o mais rápido possível.

“Ele disse: isto é excelente, temos de publicar agora. Isso nunca me aconteceu [risos], normalmente o processo de publicação dura um ano. Este foi feito em duas semanas.”

Passado duas semanas o eBook já estava disponível na Europa e o livro chegou às livrarias um mês depois. Em Portugal foi lançado mais recentemente, a 2 de setembro. É uma edição da Marcador com 288 páginas que está à venda por 15,90€.

Foi publicado a 2 de setembro.

Peter May assegura que todas as receitas vão reverter para associações e profissionais que estejam a combater na linha da frente contra o vírus — apesar de ter escrito a história por na altura precisar de dinheiro, agora não é algo que lhe falte.

Este ano, o autor tinha planeado fazer uma viagem até a um arquipélago na Noruega para escrever uma história que tinha como grande tema as alterações climáticas e que envolvia, curiosamente, um vírus perigoso. Por causa das restrições, não pôde deixar a sua casa em França e viajar, pelo que desistiu do projeto. Atualmente está a escrever outro livro, do qual ainda nada pode revelar, e planeia reformar-se nos próximos anos.

Quanto a “Lockdown”, e recuperando o seu passado enquanto guionista, acredita que poderia dar “um grande filme”. “Mas tendo em conta tudo o que passámos com a pandemia, não sei se haveria um grande apetite para ver um filme assim.” Apesar de “Lockdown” estar a ser um bestseller.

“Estranhamente, sim. Eu não entendo necessariamente isso. As pessoas estão interessadas porque acho que se podem identificar com a situação de ‘isto está a acontecer comigo na vida real’. Acho que há um certo nível de conforto, por estranho que pareça. Por isso se calhar gostariam de um filme, não sei, mas não é muito fácil que uma produção aconteça agora [risos].”

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