Cinema

O português que em apenas dois anos se tornou num dos maiores figurantes de Hollywood

Alfredo Tavares trabalhou sempre como engenheiro mas mudou de vida. Vai estar no próximo “Batman” e “Monstros Fantásticos”.
Alfredo Tavares tem 46 anos e trabalhou 16 como engenheiro.

Uma equipa de investigadores forenses entra numa sala imponente. Um homem está morto, com a cabeça coberta por um saco de plástico — deve ter sido asfixiado. Há sangue no local e parece que um dos dedos da sua mão esquerda foi cortado. Esta será uma das cenas do próximo filme de “The Batman”, que terá Robert Pattinson como protagonista e Matt Reeves como realizador.

O português Alfredo Tavares interpreta um dos investigadores forenses — gravaram esta cena no início do ano, quando a produção do filme começou em Londres, no Reino Unido. Pouco tempo depois, a rodagem foi interrompida por causa da pandemia.

Natural de Aveiro, este homem de 46 anos tem uma história surpreendente. Em dois anos, tornou-se uma presença regular em grandes séries de televisão e filmes como figurante. O seu currículo é já verdadeiramente impressionante. Mas vamos começar pelo início.

Quem é Alfredo Tavares?

Nasceu em 1974, dois meses antes da revolução, em Aveiro. Vivia com a mãe, que trabalhava na universidade da cidade; o pai, torneiro mecânico; a meia-irmã sete anos mais velha e os avós maternos. A mãe morreu muito cedo, em 1979, e os avós seguiram-se um par de anos depois. Desentendida com o padrasto, a meia-irmã de Alfredo foi estudar para um colégio de freiras. Como ficaram os dois sozinhos, a família paterna — que vivia toda no Porto — convenceu o pai de Alfredo a mudarem-se para lá.

Alfredo Tavares tinha dez anos. Tinha tido uma infância “pobre”, como descreve à NiT, e no Porto teve a oportunidade de começar a ver filmes na televisão. “Adorava os filmes do Bruce Lee, do Chuck Norris, do Jean-Claude Van Damme. Porra, gostava de ser como eles. Depois fui para uma escola de karaté, e formei-me em karaté e kickboxing com cinturão negro. E na altura gostava de ser ator de cinema. Mas em Portugal não havia condições, era uma pessoa sem meios, o meu pai também me tinha um pouco abandonado… Não tinha possibilidades de pagar uma escola e ir para Londres ou para os Estados Unidos. Então fui obrigado a fazer o curso de engenheiro.”

Licenciou-se em Engenharia de Eletrónica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e aos 23 anos partia rumo a Paris, em França, em busca de uma “vida melhor”. Lá, conseguiu trabalho como engenheiro na Siemens, onde esteve durante 16 anos. Em Paris também se apaixonou e casou. Teve dois filhos, Alexandre e Nicolas — que hoje têm, respetivamente, 19 e 16 anos. Esta podia ser uma história banal como tantas outras sobre a vida de um emigrante português, mas a verdadeira ação começa aqui.

Alfredo Tavares e a mulher separaram-se. Foi um processo lento, que durou alguns anos. “E depois fiquei um pouco saturado do trabalho, sabes? Gostava de fazer outra coisa, mas não sabia o quê. Então os meus colegas perguntaram-me porque é que eu não ia para ator de cinema. E eu perguntei porquê. E eles disseram que, só de olharem para mim, com o meu sotaque e o meu jeito de ser, era suficiente para os fazer rir. Deixei tudo, pensei: sou divorciado, vou mudar completamente a minha vida. Vou mudar de mulher, de trabalho e começo uma vida nova. E foi a melhor escolha que fiz em toda a minha vida.”

Alfredo Tavares atrás e ao centro, na Cours Florent, em Paris.

A carreira na representação

Alfredo Tavares seguiu este impulso de recuperar o seu sonho antigo de se tornar ator. Tinha dinheiro guardado de parte e nos últimos tempos na Siemens começou a estudar à noite numa das escolas de representação mais reputadas de França, a Cours Florent. Foi aceite depois de interpretar um monólogo que Marlon Brando tornou famoso. Esteve lá entre 2015 e 2017. 

Nesse último ano, separou-se definitivamente da mulher e mudou-se para Los Angeles, nos EUA. “Em França o cinema é um pouco fraco e o meu sonho, como o de todos os atores, era ir para Hollywood e ser conhecido mundialmente. O meu sonho era ser famoso. Então mandei o meu currículo para a melhor escola de acting do mundo, a New York Film Academy, em Los Angeles, e perguntaram-me se eu podia ir lá fazer uma audição.”

Levou um monólogo de Hannibal Lecter que Anthony Hopkins tinha interpretado em “O Silêncio dos Inocentes”. “O júri adorou, disseram que tiveram medo: ‘Pensámos que alguém estava dentro de você’. E como eles viram que eu já era diplomado em França, passaram-me diretamente para o último ano da faculdade. Só estive lá um ano com eles, e meteram-me logo numa agência em Los Angeles chamada Central Casting, que é onde os grandes produtores, realizadores e diretores de casting dos filmes e séries de televisão, das grandes produções, vão buscar os figurantes.”

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