Cinema

O irmão anónimo de Christopher Nolan que foi acusado de rapto, tortura e homicídio

Christopher e Jonathan são cineastas de estatuto mundial, mas Matthew parece ser a ovelha negra da família Nolan.
O realizador tem dois irmãos.

Christopher Nolan é um dos melhores cineastas do mundo — o génio responsável por filmes como “Memento”, “O Terceiro Passo”, “A Origem”, “Interstellar”, “Dunquerque” ou a trilogia das histórias de Batman com Christian Bale. O seu próximo trabalho, cuja história ainda é bastante misteriosa, mas que se centra em dois espiões, será “Tenet” — que tem sido adiado várias vezes por causa da pandemia. Atualmente a data prevista para a estreia é 12 de agosto.

O seu irmão mais novo, Jonathan Nolan, tem sido um colaborador essencial ao longo da carreira. O seu conto “Memento Mori” serviu de base para o argumento do filme “Memento”. E Jonathan escreveu com o irmão os guiões de “O Terceiro Passo”, “O Cavaleiro das Trevas”, “O Cavaleiro das Trevas Renasce” e “Interstellar”. Além disso, Jonathan Nolan é o criador das séries “Westworld” (em conjunto com a mulher, Lisa Joy) e “Sob Suspeita”.

Juntos, ou em separado, são conhecidos por desenvolverem narrativas profundamente cerebrais e complexas, por vezes não lineares, com significados profundos e densos. A noção que temos do tempo, ou as memórias, são um elemento muitas vezes fundamental das suas obras — “Tenet” promete ser mais um desses casos, até porque foi descrito como o projeto mais “ambicioso” de Christopher. Esta enorme produção foi gravada em sete países, com cenários grandiosos e um enorme elenco.

Christopher e Jonathan Nolan têm um irmão mais velho, Matthew. É o menos conhecido, e seria totalmente compreensível que levasse uma vida comum e distante da indústria do entretenimento e da fama, mas também foi notícia pelo seu envolvimento em diversos crimes — incluindo o de um homicídio.

Antes de contarmos a sua história, convém explicar que os Nolan nunca expuseram muito a sua vida. Os três irmãos nasceram no Reino Unido e são filhos do britânico Brendan James Nolan, que trabalhava como diretor criativo no setor da publicidade; e de Christina Nolan, uma comissária de bordo americana que mais tarde trabalharia como professora de inglês.

Os irmãos têm, por isso, nacionalidade dupla e cresceram entre Londres, a capital do Reino Unido, e a cidade de Evanston, no estado de Illinois, nos EUA. Todos tiveram uma boa educação em colégios de excelência, numa família de classe média alta. Ainda crianças, Christopher e Jonathan começaram a fazer as primeiras experiências em cinema com a câmara Super 8 do pai. Construíam cenários e faziam filmes em stop-motion com os seus bonecos.

Christopher e Jonathan, que hoje têm 49 e 44 anos, respetivamente, acabaram por seguir uma carreira ligada ao cinema (área em que o tio, John Nolan, já trabalhava como ator). Matthew, de 51 anos, tornou-se um homem de negócios. 

Trabalhou no ramo imobiliário durante muitos anos em Chicago, a principal cidade no estado de Illinois. Tem dois filhos e é casado com uma instrutora de Pilates americana desde 1999, com quem ficou conhecido por levar uma vida de luxos.

Matthew (a verde), Christopher (a azul) e Jonathan (a vermelho).

O seu percurso criminal também daria um filme. Por volta da mesma altura em que “Interstellar” chegou aos cinemas, foi noticiado que Matthew Nolan estava a ser acusado de homicídio na Costa Rica, apesar de o crime ter ocorrido vários anos antes. Alegadamente, Nolan foi contratado para raptar e torturar um homem chamado Robert Cohen, um contabilista americano de 63 anos, no país da América Central. O corpo espancado de Robert Cohen foi encontrado perto da costa marítima em 2005.

Supostamente, Matthew Nolan fora contratado por um negociante de pedras preciosas chamado Robert Breska. O outro Robert, a vítima, Robert Cohen, teria na sua posse mais de cinco milhões de dólares que pertenciam a Breska — e que tinham sido roubados por outro homem, um amigo de Cohen, que alegadamente se suicidou em 2004 com um tiro na cabeça, com medo das represálias por parte de Breska (que nos anos 80 foi condenado por tráfico de droga). Só que o dinheiro nunca foi encontrado e Cohen já estaria com medo de ser atacado por Breska.

Alegadamente, Matthew Nolan usou um nome falso, Matthew McCall Oppenheimer (fingindo ser da conhecida família Oppenheimer, ligada ao negócio dos diamantes), e combinou um encontro com Cohen. Além disso, contratou um empregado do hotel onde o encontro aconteceu, Douglas Mejia, para juntos cometerem o crime. Terão tentado extorquir a família de Cohen para obter o dinheiro, mas o plano falhou e o contabilista acabou por morrer.

O empregado foi condenado pelos crimes e está preso, mas Nolan foi para os EUA depois do homicídio. Aliás, durante os vários dias em que Cohen esteve raptado, Nolan fez várias viagens, sem nunca estar muito tempo num só sítio, e usando uma morada e um número de telefone falsos. Voltou à Costa Rica para se reencontrar com Douglas Mejia, que não teria tido sucesso naquilo que pretendiam, e foi quando o homicídio aconteceu. No dia seguinte, Nolan foi para os EUA. As autoridades do país da América Central fizeram vários pedidos pois tinham suspeitas do seu envolvimento, mas nunca o puderam julgar porque os EUA nunca o extraditaram.

A justiça americana, no entanto, estava à sua procura por causa de outro crime, uma fraude bancária. Em 2009, quatro anos depois do que aconteceu na Costa Rica, Matthew Nolan e a mulher declararam que estavam em falência e por isso não podiam pagar as dívidas que tinham. Por causa da audição pública que teve de ser feita em tribunal, o FBI encontrou e deteve Matthew Nolan, mas não obteve provas suficientes para o poder extraditar.

Christopher e Jonathan Nolan têm trabalhado muito ao longo dos anos.

Em declarações citadas pelo jornal britânico “The Daily Mail”, o agente do FBI que deteve Nolan considerou-o “a pessoa mais arrogante que já conheceu”. “Apanhei-o depois de me ter iludido durante um ou dois anos, e quando o prendi as palavras dele para mim foram: ‘Vocês nunca me apanhariam se não fosse pela falência’.”

Há suspeitas, no entanto, que alguém com bastante dinheiro tenha ajudado Matthew Nolan — porque o irmão de Christopher e Jonathan, apesar de estar na falência, conseguiu pagar uma boa (e cara) defesa legal, que o impediu de ser extraditado.

Contudo, Matthew Nolan declarou-se culpado de outro crime. Quando esteve detido em Chicago, preparou uma fuga da prisão — apesar de nunca ninguém ter conseguido esse feito naquela cadeia. Matthew, que se queixou de ter sofrido abusos físicos e psicológicos por parte das autoridades, não terá chegado a tentar, mas foram encontrados vários objetos que apontavam para essa hipótese — e ele confessou o ato. 

Na sua cela na prisão foi encontrada uma corda feita a partir dos lençóis da cama que media mais de nove metros de comprimento. Havia ainda um arnês, uma lâmina e um clip que poderia ser usado para abrir algemas.

O caso na Costa Rica continua aberto, mas, sem novas provas, Matthew Nolan não será entregue à justiça pelas autoridades dos Estados Unidos. Nolan, que sempre negou as acusações contra ele feitas pelas autoridades da Costa Rica, está em liberdade e nos últimos anos não houve novidades sobre a investigação nem notícias acerca da sua vida.

Em 2014, em declarações ao “The Daily Mail”, a filha de Robert Cohen, Alisha Cohen, que vive na Flórida, defendeu que Matthew Nolan devia ser julgado pelo homicídio do pai.

“Acho que o juiz errou quando considerou que não havia provas suficientes para o extraditar, acho que as provas eram fortes. A minha mãe e eu queremos justiça. Acreditamos que Matthew Nolan devia ir a tribunal na Costa Rica pelo homicídio do meu pai. Acredito que, se Nolan não fosse alguém de uma família famosa, esta seria uma situação diferente.”

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