Cinema

Jon Stewart virava as notícias do avesso, agora é um ativista que toca bateria

Durante 16 anos foi o contraponto bem-humorado do caos político dos EUA. Cinco anos depois do “The Daily Show”, ele está de volta.
Ele tem duas novas paixões: vegetais e baterias.

Os últimos minutos de Jon Stewart atrás da secretária do “The Daily Show” foram difíceis para o homem que criou e comandou o programa durante 16 anos. Stephen Colbert rompeu o protocolo e elogiou o apresentador até às lágrimas. Ele que ali deu os primeiros passos como correspondente, que o levaram a ocupar a cadeira de um dos mais cobiçados late night shows, o “The Late Show”.

“Disseste-nos há alguns anos para não te agradecermos porque não te devemos nada. Estavas errado. Devemos-te tudo porque aprendemos com o teu exemplo (…) és irritantemente bom no que fazes e todos os que tivemos a sorte de trabalhar contigo somos hoje melhores porque te vimos a fazê-lo”, desabafou Colbert perante um Stewart a tentar, sem sucesso, conter a emoção com a ajuda da velhinha caneta que o acompanhou durante mais de uma década.

No final, nem mais nem menos do que Bruce Springsteen, tocou a música final do programa satírico que transformou as notícias em entretenimento — e pelo caminho tornou-se numa espécie de primeira fonte de informação de toda uma geração.

O pendor liberal fez dele uma arma apontada às hipocrisias dos republicanos e da Fox News, embora nunca o tenha feito acobardar-se de fazer exatamente o mesmo às fileiras democratas. Durante anos, acolheu entrevistados famosos, jornalistas, até presidentes, e sujeitou-os a perguntas incómodas, em conversas aparentemente informais que, por vezes, se transformavam em confrontos. É aí que reside um dos seus grandes arrependimentos.

“Esses momentos [de confronto] onde tens a tendência, até subconscientemente, de sentir que ‘Temos que corresponder à expectativa da evisceração’. Tentámos não dar a alguém mais tempero do que mereciam, mas também estavas consciente de, por exemplo, o que se torna viral. Resistir a essa força gravitacional é muito difícil”, confessou na mais recente entrevista dada ao “The New York Times”. Porquê? Porque, ao que parece, Jon Stewart está de regresso. 

Foram cinco anos de ausência, com pouco ou nada para saciar o apetite dos fãs mais hardcore de Stewart. À exceção das breves ocasionais aparições como convidado em diversos programas, o antigo apresentador do “The Daily Show” tem-se mantido em recolhimento quase absoluto. O regresso acontece no meio de uma espécie de furacão, entre manifestações e umas eleições que se preveem caóticas. Debaixo do braço traz um filme, o seu segundo, “Irresistible”.

“É como chegar a um acidente de avião com uma barra de chocolate. A tragédia está por todo o lado e tu estás ali, tipo: ‘Uh, alguém quer chocolate?’. É ridículo. O que não é ridículo é continuar a lutar pela nuance, pela precisão, por soluções”, explica.

A vida sem televisão

Habituado a fazer humor com o dia a dia político, Stewart perdeu a oportunidade de acompanhar a presidência de Trump — a fonte inesgotável de material que alimenta dezenas de programas humorísticos. Entre escândalos, polémicas e pandemias, explica não sentir saudades de fazer parte de toda a discussão. “Acho que há formas diferentes de fazer parte dela (…) A ação é uma conversa e agi mais nos últimos quatro ou cinco anos do que em toda a minha vida. Por vezes, essa ação pode falar mais profundamente do que um monólogo diário”, explica, acrescentando que por vezes desejava ter um programa, “mas não aquele que tinha antigamente”.

O período parece ter sido feito de projetos abortados. Os rumores de um acordo com a HBO nunca se concretizaram. O mesmo aconteceu a um suposto especial de comédia. Mas, como revelou, ação não lhe faltou. E onde antigamente ela terminava quando as câmaras se desligavam, desta vez, Stewart saltou para o terreno e fez a diferença.

É que além de humorista e homem da televisão, Stewart é um ativista fervoroso. Uma das causas que agarrou, ainda durante o programa, foi a do financiamento das despesas de saúde aos bombeiros, polícias e outros profissionais que foram os primeiros a acudir as vítimas dos atentados de 11 de setembro.

Muitos ficaram gravemente feridos, outros, por culpa das poeiras tóxicas, foram diagnosticados com cancros, vários anos depois. Duas décadas depois, o congresso ainda não havia garantido que esses custos seriam assumidos pelo Estado. Stewart agarrou a luta como se fosse sua e serviu de porta-voz durante uma audição. Um discurso emotivo que correu o mundo.

“Atrás de mim, uma sala cheia de socorristas do 11 de setembro. À minha frente, um congresso quase vazio. Doentes e a morrer, conseguiram vir até aqui para falar para ninguém. É vergonhoso. É um embaraço para o país e uma mancha nesta instituição. Deviam ter vergonha pelos que não estão aqui, mas não vão ter, porque parece que responsabilidade não é uma coisa que exista nesta câmara”, declarou sem piedade. O esforço compensou e nesse mesmo dia, a medida recebeu o sim.

Nem tudo é tão árduo e emocionalmente exaustivo na vida pós-televisão: “A minha vida é muito mais rica. É como se tivesse andado por aí com tubos de papel higiénico a tapar-me os olhos, até ao ponto em que pensava que isso era tudo o que havia à vista. Era tudo preto e branco. De repente tiras isso da frente e dizes ‘Roxo!’. É libertador”.

O ativismo de Stewart tem várias frentes. Ainda antes de deixar o cargo, comprou uma quinta em New Jersey que serve como santuário para animais maltratados. Quatro anos depois, investiu noutro espaço semelhante, que salva animais dos matadouros e dos mercados. E logo que se reformou do “The Daily Show”, tornou-se vegano, à imagem da mulher.

O insaciável acumulador de talentos achou que havia espaço para mais um e dedicou-se a ele: Jon Stewart está a aprender a tocar bateria. Apesar de ser um principiante, parece estar no bom caminho, pelo menos na opinião de um vizinho, que terá abordado a sua mulher: “Ouvi o vosso filho a praticar bateria. Parece que está a melhorar”. “Sim, eu toco guitarra como um miúdo de 13 anos”, atirou.

“Quando consigo que o meu pé esquerdo faça algo independentemente da mão direita — é o oposto da morte. Não sentes esse tipo de coisas quando és mais velho. Consigo estar presente na minha vida. Quando me foquei mais nas coisas, elas tornaram-se mais gratificantes. Tenho saudades das conversas do ‘The Daily Show’. Adorava sentar-me naquela sala com gente inteligente e talentosa e dizer merda sobre o mundo. Era um prazer imenso. Mas hoje tenho tantas mais cores na minha vida”, confessa.

O regresso ao ecrã

Aos 57 anos, o papel de Stewart tem-se ficado pelos bastidores. Foi produtor executivo de programas como o “The Nightly Show with Larry Wilmore” e o “The Late Show with Stephen Colbert”. Mas outra das paixões começou logo em 2014, com o lançamento do seu primeiro filme como realizador e argumentista.

“Rosewater” conta a história verídica de Maziar Bahari, jornalista ilegalmente detido pelo governo iraniano. Agora, 2020 traz o segundo filme da autoria de Stewart, desta vez num tom menos sério.

“Irresistible” é uma sátira política inspirada em acontecimentos reais da vida americana. Pequenas campanhas locais envenenadas pela luta democrata-republicana, máquinas partidárias e os meandros das doações políticas. Tudo envolto com requintes de comédia.

No papel principal está outro seu antigo colega e correspondente, hoje uma celebridade por mérito próprio, Steve Carell. Ele é o estratega democrata que vê num veterano a esperança do partido — e que tenta ajudar a vencer a corrida para o cargo de presidente da câmara de uma localidade conservadora. Pelo caminho, terá, como sempre, uma arqui-rival republicana.

O filme, que estreia a 26 de julho em diversas plataformas digitais — e não nas salas de cinema —, deverá dividir a opinião pública, diz Stewart.

“Os da esquerda vão dizer que nesta altura de Trump, eu deveria estar a fazer um ‘Fahrenheit 9/11’ [documentário de Michael Moore], porque não há outra motivação que não destruir a nave-mãe. Na direita, estão predispostos a dizer ‘Que se foda esse gajo’. Há coisas que nunca mudam”.

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