Cinema

John David Washington: o filho de Denzel vai ser a próxima estrela de Hollywood

O ator vai ser um dos protagonistas de “Tenet”, o novo filme de Christopher Nolan, depois de ter brilhado em “BlacKkKlansman”.
John David Washington vai ser uma das estrelas de "Tenet".

John David Washington tinha apenas seis anos quando Spike Lee o chamou para fazer de figurante numa escola do Harlem em 1991. Eram as gravações do filme biográfico “Malcolm X”, que era protagonizado pelo pai de John David, Denzel Washington. Quatro anos depois, participaria também de forma anónima noutro filme do pai, o menos memorável “Devil in a Blue Dress”.

Cresceu entre filmes e guiões, falas e interpretações, literalmente em cenários de rodagem, e por isso sempre adorou cinema e televisão. Desde cedo que passava horas e horas a fazer maratonas de filmes, a analisar as performances dos atores, a imitar sotaques, a decorar e a recriar os diálogos.

Sempre foi um mundo natural para si, algo que sonhara fazer e que esteve sempre presente. Mas só nos últimos sete anos — e John David Washington já tem 35 — é que começou uma carreira na indústria que tornou o seu pai uma lenda.

John David prepara-se para dar um grande passo na carreira a 12 de agosto, quando estreia o novo filme de Christopher Nolan, “Tenet”. Ele é um dos protagonistas. A data inicial para a estreia nos cinemas era 17 de julho, mas a pandemia obrigou a que fosse feito um pequeno adiamento.

Durante toda a vida, John David Washington teve de lidar com o facto de ter um pai famoso. Além de também ter uma mãe profissional do meio das artes e do entretenimento — Pauletta Washington é atriz, cantora e pianista.

Por diversas vezes tentou esconder esse facto, motivado por amigos e colegas que tentavam comparar a sua voz ou rosto às características do pai. Ou pessoas que apareciam na sua vida por estarem interessadas em conhecer o pai.

Nascido em Los Angeles e filho mais velho de um total de quatro irmãos, decidiu dedicar-se ao futebol americano, outra das suas paixões, onde podia esconder o rosto atrás de um capacete e onde o seu nome era apenas mais um — num meio onde ninguém o podia acusar de ter sucesso por ser filho de quem era.

Na escola era conhecido como JD e foi onde começou a jogar futebol com os amigos. Adorava a competição. Apesar do distanciamento entre áreas, Denzel Washington treinou algumas dessas equipas escolares — supostamente inspirando-se nos diálogos dos seus filmes para motivar os jovens jogadores.

Quando chegou ao liceu, John David Washington quis ir estudar artes — e o próprio ator admite, num longo perfil escrito pela revista “Esquire”, que teve uma fase mais rebelde na adolescência, em que mandava piadas nas aulas e era mais “disruptivo” com os professores. Foi nessa altura que explorou a arte da pintura — sendo que os Washington tinham uma grande coleção privada de arte em casa, o que lhe fez suscitar o interesse, algo raro para uma estrela atlética da escola.

Na faculdade, Washington teve direito a uma bolsa por ir jogar para a equipa de Morehouse — e foi lá que fez um pacto com os seus novos colegas de equipa, de não revelar a ninguém de que era filho de Denzel Washington. “Eu só me queria integrar. Mentia sobre o meu nome às vezes. E havia esta alcunha de Mikey que os meus colegas usavam”, contou o atual ator no mesmo artigo da “Esquire”.

Prestes a terminar a faculdade — estava a licenciar-se em Sociologia, área em que nunca trabalhou —, Washington achava que não era bom o suficiente para conseguir ir jogar para a National Football League (NFL). Ao mesmo tempo, podia ser a sua última oportunidade para seguir o sonho de se tornar ator como os pais. Falou do assunto com a mãe, a sua maior confidente, que o aconselhou a seguir uma carreira no desporto. Foi o que ele fez.

Jogou em várias equipas entre 2006 e 2013. Mas nem sempre conseguiu esconder o seu último nome. O artigo da “Esquire” conta que houve momentos em que os seus colegas lhe pediam para interpretar citações do filme “Dia de Treino” com a voz do seu pai — algo que John aceitou, tomando as palavras como suas e dando-lhes força e emoção na entrega.

Ao mesmo tempo, continuava a dissecar filmes em casa, analisando-os ao pormenor, entendendo o ofício daqueles atores. Entre duas épocas, no ano de 2010, foi com o pai a uma reunião sobre o filme “O Livro de Eli”. Um dos dois realizadores, Allen Hughes, ficou impressionado com a perspetiva de John David sobre o filme e perguntou a Denzel se ele se importava que o seu filho se juntasse ao projeto.

Denzel disse prontamente que não e John David aceitou a oportunidade. Era uma hipótese para voltar a um set de filmagens e estar confortavelmente atrás das câmaras enquanto co-produtor. Aqui teve a vantagem de ser filho de Denzel Washington, mas teve de provar que era bom naquilo que fazia — curiosamente, até ao dia de hoje nunca mais foi produtor de um filme, mas foi bastante elogiado pelo trabalho que fez em “The Book of Eli”.

No verão de 2013, chegou o fim da carreira como atleta. Não foi uma decisão que tomou, não se tratou de uma escolha, foi simplesmente algo que aconteceu e que determinou o seu futuro daí para a frente: rompeu o tendão de Aquiles. 

“Numa noite chego a casa do trabalho, e ele está sentado em completa escuridão na nossa mesa da cozinha, com muletas ao lado, e a cabeça para baixo”, disse o irmão mais novo, Malcolm Washington, sobre o dia em que John David perdeu a carreira de atleta. 

“Eu tinha visto o meu irmão jogar futebol durante 20 anos: vi-o ganhar, perder, vi-o magoado, mas nunca derrotado. Aproximei-me e vi a informação médica que estava no balcão: tinha rompido completamente o tendão de Aquiles. Sentámo-nos ali em silêncio, ambos a pensar na mesma coisa: acabou. Nunca vi o meu irmão jogar futebol outra vez”, contou à “Esquire”.

Poucos dias depois (e já com uma cirurgia feita), celebrava-se o 29.ª aniversário de John David Washington. A família aconselhava-o sobre o futuro: podia usar o curso para se tornar um professor. Podia ser treinador de futebol. Entre muitas chamadas e mensagens perdidas, estavam várias tentativas de contacto de um agente de Hollywood e amigo da família, Andrew Finkelstein.

Finkelstein tinha sido contactado por uma diretora de castings, Sheila Jaffe, que estava desesperada para encontrar alguém que pudesse compreender e interpretar um jogador de futebol que fosse arrogante mas, ao mesmo tempo, vulnerável. Não encontrava ninguém que encaixasse. Era para a personagem de Ricky Jerret na série da HBO “Ballers”, que viria a tornar-se um sucesso. John David leu um excerto do guião e gostou da ideia. Poderia ser a porta de entrada para o velho sonho de se tornar ator.

John contou apenas à mãe e os dois começaram a preparar o casting às refeições. Acabou por ser o escolhido para interpretar a personagem — apesar de não ser algo expectável. Apesar de ter uma aproximação natural ao papel, começou a ter aulas de representação com o veterano Stephen McKinley Henderson, que estava na Broadway com uma peça com Denzel Washington. Curioso, Denzel ia perguntando a Henderson como estava a evoluir o seu filho, se ele tinha o talento necessário. As respostas do outro lado eram sempre positivas.

Estava num quarto de hotel quando o telefone tocou. Era Spike Lee — o mesmo que o tinha colocado em “Malcolm X” quando ele era uma criança pequena — a ligar-lhe. Conheciam-se desde sempre, mas não mantinham uma relação próxima. Lee queria que John David lesse um livro sobre a história real de um polícia afro-americano que se havia infiltrado nas fileiras do Ku Klux Klan nos anos 70.

John leu o livro, apesar de não saber porque é que Spike Lee o tinha pedido para fazer, e recebeu uma chamada do realizador uns dias mais tarde. Disse-lhe que tinha adorado a história. E, assim de repente, John David Washington tinha acabado de se tornar o protagonista de “BlacKkKlansman: O Infiltrado”, que estreou nos cinemas em 2018 e que haveria de ser nomeado para seis Óscares.

No mesmo ano, e já mais por dentro da indústria, participou noutras produções com menor destaque, como “The Old Man & The Gun”, “All Rise” ou “Monsters and Men”. De forma instantânea tornou-se uma cara conhecida, um membro de Hollywood, um nomeado para um Globo de Ouro de Melhor Ator.

Christopher Nolan já admitiu que o facto de ter visto “BlacKkKlansman: O Infiltrado” na estreia em Cannes — mesmo à frente de Spike Lee — fez com que tivesse sido conquistado por John David Washington. Daí a convidá-lo para ser um dos protagonistas do seu “mais ambicioso” projeto de sempre, “Tenet”. Apesar disso, já o conhecida de “Ballers”, ainda que não soubesse o seu nome nem de quem era filho.

Nesta história de thriller que tem sido mantida sob grande segredo, e que promete ser bastante complexa e relacionada com o conceito de tempo, Washington interpreta um espião, assim como o colega Robert Pattinson.

O filme foi gravado em sete países e é uma enorme produção, com cenários grandiosos e um enorme elenco — é esperado que seja um dos filmes com mais impacto do ano tanto nas receitas de bilheteira como nos prémios arrecadados.

Este pode muito bem ser o salto definitivo de John David Washington para o estrelato, para se tornar uma verdadeira estrela do cinema, seguindo as pisadas de outros protagonistas de Christopher Nolan, como Leonardo DiCaprio, Christian Bale, Matthew McConaughey ou Hugh Jackman. Washington começou tarde, mas tem o seu ADN profundamente ligado à arte de ser ator e uma carreira com enorme potencial pela frente.

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