Cinema

A história de “Capone” com Tom Hardy é verdadeira?

O filme, que estreia esta quinta-feira, está a ser arrasado pela crítica. Acaba por ser uma versão dos últimos anos do mafioso.
Tom Hardy interpreta o mafioso na sua fase decadente.

Al Capone é um dos mafiosos mais famosos de sempre. A sua figura, enquanto líder do crime organizado em Chicago, tornou-se lendária — e por isso mesmo já foi retratado muitas vezes no cinema e na televisão, nos livros ou em espetáculos, e naturalmente com bastante ficção à mistura.

Em “Capone”, produção que estreia em Portugal esta quinta-feira, 30 de julho, o protagonista é interpretado por Tom Hardy. Desta vez não são os seus anos de ouro que estão em destaque, mas sim a sua fase decadente nos últimos tempos de vida.

O filme realizado e escrito por Josh Trank retrata os anos depois de Al Capone sair da prisão (onde esteve condenado por evasão fiscal), na década de 1940, em liberdade condicional. Atormentado pelo passado violento e pela sífilis — doença que lhe afetava o sistema nervoso — viveu os seus últimos anos numa mansão na Flórida, tornando-se cada vez mais demente (e incontinente)

Esta é a história que “Capone” conta — e o filme tem sido arrasado pela crítica especializada. No Rotten Tomatoes, site que aglomera as classificações das principais publicações, só tem 42 por cento de textos favoráveis.

Os maiores problemas apontados não têm a ver com a veracidade da narrativa, mas num filme como este é curioso perceber o que é verdadeiro e o que foi inventado para efeitos dramáticos — como habitual, o enredo não corresponde exatamente à realidade, até porque há pormenores sobre a vida privada deste mafioso que não são conhecidos.

Josh Trank admite que fez um “filme impressionista” deste “ícone do século XX” — vários elementos da narrativa foram criados para tornar a história mais envolvente. O elenco inclui ainda Linda Cardellini, Matt Dillon, Al Sapienza, Noel Fisher e Kyle MacLachlan, entre outros.

Al Capone passou os últimos anos de vida numa mansão na Flórida?

Sim, o mafioso nascido em Nova Iorque mas que se tornou conhecido em Chicago passou os seus últimos anos de vida numa mansão luxuosa na Flórida, depois de oito anos na prisão. Ele comprou a sua propriedade em Palm Beach em 1928, e a autoridade tributária nunca conseguiu ficar com ela.

As gravações do filme aconteceram numa casa semelhante em Covington, no estado do Louisiana — mas a retratar de forma parecida a habitação real de Capone.

A sífilis deteriorou daquela forma a saúde de Al Capone?

Al Capone tinha sífilis, doença com que foi diagnosticado na prisão. No filme, os agentes do FBI questionam-se se o criminoso não estará a exagerar nos seus sintomas para conseguir sair mais cedo da prisão. Tom Hardy, que usa uma maquilhagem complexa e densa (que demorou horas a fazer no início de cada dia de gravações), tem cicatrizes e uma palidez que são sintomas da sífilis.

“Tentámos ser verdadeiros quanto às cicatrizes da sífilis”, disse ao jornal “USA Today” o realizador e argumentista, Josh Trank. “Mas não há provas fotográficas de todas as fases do seu último ano.”

No filme, Capone tem alucinações regulares — alimentadas pela culpa dos seus atos violentos ao longo dos anos — e é demonstrado como o mafioso perde capacidades mentais de forma progressiva. Não é fácil confirmar o quão preciso foi o retrato feito da sua doença no filme, mas um autor que escreveu sobre a vida de Al Capone, Jonathan Eig, disse à mesma publicação americana que “há entrevistas com pessoas que descrevem o seu comportamento como infantil” nesta fase da sua vida.

O sotaque que Tom Hardy faz é correto?

O sotaque quase gutural de Tom Hardy, e as suas alternâncias entre o inglês, o italiano e os murmúrios indecifráveis são um dos elementos mais característicos de “Capone”. Na realidade, não há quaisquer registos de áudio públicos de Al Capone, um homem que nunca falou para as câmaras.

Josh Trank inspirou-se no sotaque do comediante ítalo-americano Jimmy Durante para construir a pronúncia que Tom Hardy usa no filme. “É uma interpretação. Quando alguém é assim tão famoso, todos temos a nossa ideia de como poderá ter sido aquela pessoa. Com base no meu conhecimento e pesquisa, estou confiante de que escrevi como ele era na altura”, disse Josh Trank em relação à personalidade da personagem.

Havia uma fortuna perdida de 10 milhões de dólares?

Um dos subtemas do filme é a fortuna de 10 milhões de dólares que Al Capone tem escondida — só que, como está demente, o mafioso não se recorda de onde a tem guardada. O FBI tem a sua casa sob escuta e sempre tentou apreender essa fortuna.

Na vida real, o tesouro escondido de Al Capone tornou-se um mito — mas não há qualquer registo de existir um número exato de milhões de dólares nem a questão de o mafioso não se lembrar de onde tinha guardado o dinheiro. Muitos investigadores e autores, como Jonathan Eig, teorizam que Al Capone simplesmente gastou o dinheiro que tinha ao longo dos anos e que quase não sobrou nada, não havendo um mistério real por detrás da sua fortuna.

Capone tinha um filho ilegítimo?

Outra das narrativas menores dentro da história de “Capone” é sobre o filho ilegítimo do mafioso, que lhe liga com alguma regularidade e que Capone nunca reconheceu. Na vida real há várias pessoas que alegaram ser filhas do mafioso (além do filho legítimo, Albert Francis, que morreu em 2004), mas nenhuma dessas ligações familiares foram provadas.

“Não sinto remorsos de incluir isso no filme”, disse Josh Trank, que acredita que seria uma situação provável “para um homem na sua posição e no seu tipo de trabalho”. 

O médico de Capone trocou o seu charuto por uma cenoura?

Um dos elementos mais característicos deste filme é quando Al Capone, a sofrer de problemas de saúde, é aconselhado pelo seu médico (que é um informador do FBI e que na verdade nunca existiu) a trocar o charuto — que estava quase sempre a fumar — por uma mais saudável cenoura. Esta parte foi totalmente inventada.

“1000% culpado de ter inventado isso”, assume Trank. A cenoura acabou por se tornar uma piada privada entre o realizador e Tom Hardy. “Sempre que comunicava com o Tom, enviava-lhe uma cenoura. Tornou-se a nossa coisa.”

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