Cinema

“Hamilton”: afinal, qual é o segredo do musical que todo o mundo quer ver?

Alguns bilhetes custavam milhares de euros e poucos puderam vê-lo ao vivo. O filme chega finalmente no dia 3 de julho.
Já não vai ter que vender a casa para ver o musical.

Numa noite de fevereiro em 2015, 299 pessoas lotaram a pequena sala Newman do The Public Theater, em Nova Iorque, para ver um novo musical chamado “Hamilton”. Longe das grandes salas da Broadway, a obra estreava naquela a que chamam Off-Broadway, as pequenas salas com capacidade abaixo dos 500 espectadores. Poucos perceberam que, no final do espetáculo, tinham presenciado um marco na história da cultura pop.

Um ano depois, “Hamilton” tinha se transformado no maior hit da Broadway — e vendido mais de 60 milhões em bilhetes. Hoje, o valor chega perto dos 100 milhões anuais e continua a não ser fácil, nem barato, reservar um lugar na plateia. Correu os palcos da América do Norte, passou por Porto Rico, Londres e fala-se de possíveis viagens até à Austrália ou Alemanha.

A versão musical da pouco conhecida vida do fundador dos Estados Unidos, Alexander Hamilton, não se ficou pelos teatros. Um acordo recorde de mais de 60 milhões de euros foi o suficiente para levar “Hamilton” aos ecrãs de cinema. A versão de 160 minutos, gravada em 2016 com recurso a várias câmaras, tem estreia marcada para 3 de julho, na plataforma Disney+.

Descobrir o segredo da fórmula do sucesso de “Hamilton” não é difícil. Replicá-la é que talvez possa ser mais complicado. Entre o comentário político e uma análise velada do cenário atual, Lin-Manuel Miranda aproveita para desvendar a atribulada vida do estadista norte-americano, através de canções meticulosamente construídas ao som do hip-hop e do R&B, interpretadas por um elenco de todas as raças e etnias. Miranda fez, aliás, algo que ninguém esperava: inverteu o tão mal-afamado blackface e colocou atores negros a interpretarem personagens brancas, sem pinturas, claro está. Mas não se trata de uma equação assim tão simples.

O musical de uma geração

Não ganhou um, não dois, mas onze Tony Awards, os prémios mais prestigiados do teatro norte-americano. À extensa lista acrescentou também um Pulitzer para melhor drama e um Grammy para melhor álbum de um musical.

Todos os nova-iorquinos queriam poder dizer que já tinham visto “Hamilton”, feito que se tornou numa espécie de medalha cultural — a lotação estava sempre esgotada e, quando os bilhetes eram postos à venda, duravam apenas poucos segundos. Entradas que custavam, note-se bem, acima de 200€ — por vezes mais.

A procura era tanta que criou um mercado paralelo de revendas ilegais, onde os valores facilmente atingiam os 700€. Houve mesmo quem pagasse mais de quatro mil euros para poder ver o musical. 

Mais recordes: em novembro de 2016, a peça inscreveu um novo recorde na Broadway, ao bater a barreira dos 2,9 milhões de euros numa semana.

“Hesito em dizer às pessoas para hipotecarem a casa e alugarem os seus filhos para que possam comprar bilhetes para o hit da Broadway. Mas ‘Hamilton’ pode mesmo valer a pena”, dizia à época da estreia o “The New York Times” sobre o musical. Apenas um entre centenas de elogios espalhados pela imprensa especializada. E este não foi um dos casos em que a crítica adorou e o público detestou. Desta vez, todos estavam de acordo com o brilhantismo da obra de Miranda.

Uma história controversa

As elites acotovelavam-se para garantir um lugar na plateia. O vice-presidente Mike Pence não precisou de muito esforço para reservar uma cadeira em seu nome — mas pagou outro preço. Ao saberem que o vice de Donald Trump iria vê-los atuar nessa noite, o elenco escreveu um comunicado conjunto, que deveria ser lido antes do início da peça.

“Somos uma América diversificada que está alarmada e ansiosa de que a sua administração não nos proteja, ao nosso planeta, às nossas crianças, aos pais, que não defenda e garanta os nossos direitos inalienáveis. Esperamos que este este espetáculo o inspire a defender os valores americanos e a trabalhar por todos nós”, atirou um dos atores do elenco composto por diversas minorias étnicas, depois de acalmar os apupos ao vice. 

Pence não se mostrou ofendido. Já Trump, ao seu estilo, enraiveceu-se com a atitude e acusou a equipa de “Hamilton” de “assediar o vice-presidente à frente das câmaras”. A crítica deu origem a uma campanha para boicotar o musical. Sem grande sucesso.

O comentário político é uma das armas do musical que conseguiu tornar a história do país numa coisa cool, à boleia de músicas que vão buscar referências a artistas como Notorious BIG e Busta Rhymes, ou a filmes como “8 Mile”, de Eminem.

A vida de Alexander Hamilton é relatada por Lin-Manuel Miranda como a de tantos outros imigrantes chegados aos EUA. Nascido órfão nas Índias Ocidentais Britânicas — a região espalhada pelas Caraíbas e Atlântico Norte —, tornou-se num prematuro caso do sonho americano.

Ascendeu à elite do país que ajudou a fundar. Foi braço direito do pai fundador George Washington, o primeiro secretário do tesouro e pioneiro de muitas ideias que ajudaram a estruturar a economia dos Estados Unidos. E, ainda assim, foi sempre uma figura secundária nos livros de história.

O mito deste self made immigrant é revelado por Miranda como o símbolo da força do país, construído à base da força imigrante, sob princípios de igualdade. E o tema era tão atual à época como o foi na estreia e ainda o é, agora talvez mais do que nunca.

É certo que a precisão histórica foi a primeira vítima de um espetáculo que se quer entusiasmante. Vários historiadores apontaram que Lin-Manuel Miranda deixou de fora alguns pequenos pormenores que contrariam a tese exposta em palco, particularmente o papel de Hamilton no genocídio de nativos e na escravatura.

Visto por outro prisma: não será Miranda a verdadeira estrela de “Hamilton”? Afinal, o homem que trabalhou na obra durante seis anos escreveu as letras e compôs as músicas — e é um dos atores do elenco.

Lin-Manuel, um homem musical

Cinco anos antes de dar o sinal de abertura à peça, o norte-americano de 40 anos sentava-se à secretária e colocava no YouTube o vídeo que haveria de atormentar milhares de noivos por todo o mundo. Durante cinco minutos, assistimos à surpresa criada por Lin-Manuel Miranda para a sua mulher Vanessa. De repente, o palco do copo de água enche-se de música, temas coreografados, como se fosse feito por profissionais. E foi. Bastou o génio de Miranda.

Antes de ganhar, em nome próprio, três prémios Tony, três Grammy e um Emmy, o nova-iorquino de família de origens porto-riquenhas deu aulas de inglês e foi professor substituto.

O talento para os musicais começou a surgir quando ainda era adolescente, altura em que finalizou a primeira versão do seu musical de estreia, “In The Heights” — uma peça que incluía já alguns dos elementos musicais que tornaram “Hamilton” num sucesso”. “In The Heights” tornou-se num êxito à parte. Também correu o mundo e conquistou vários prémios Tony. E foi na ressaca desse hit que Miranda, começou a desenhar aquela que seria e que é, até ver, a sua obra máxima. Só precisou de uns dias de férias e de um livro.

A autobiografia de Alexander Hamilton, escrita por Ron Chernow, serviu de base ao guião do musical, cuja primeira cena foi apresentada pela primeira vez na Casa Branca, com Barack e Michelle Obama na plateia.

Nomeado para um Óscar pela música composta para o filme “Moana”, em 2016, o génio irreverente de Lin-Manuel Miranda não pára e já tem um novo alvo, longe dos palcos: será ele a compor os temas do novo filme de “A Pequena Sereia”. Já a versão de “Hamilton” feita para os cinemas tem estreia marcada para as plataformas de streaming. Chega à Disney+ a 3 de julho.

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