Cinema

Guia prático para perceber as acusações sexuais contra Roman Polanski

O realizador polaco e francês estreia um novo filme, “J’Accuse — O Oficial e O Espião”, esta semana. Mas a polémica continua.
Polanski no centro da polémica.

Nascido em Paris, França, em 1933, Roman Polanski — nome artístico de Rajmund Roman Liebling — foi um realizador conceituado durante os anos 60 e 70. “A Faca na Água”, por exemplo, de 1962, foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Só seis anos depois é que Polanski se mudou para os Estados Unidos, no período em que fez “A Semente do Diabo”, “Chinatown” (nomeado para 11 Óscares) e “O Inquilino”, algumas das obras mais notáveis da sua carreira.

Até essa altura, a sua vida tinha sido marcada pela tragédia. Os pais eram judeus polacos que tinham vivido em França e que tinham voltado para a Polónia na pior altura possível da história: mesmo antes de a Alemanha nazi invadir o país. A família Polanski ficou encurralados, a viver no gueto de Cracóvia, e os pais do pequeno Roman acabaram por ser levados nas rusgas nazis.

Roman Polanski cresceu em casas de acolhimento, com uma identidade falsa, a tentar sobreviver aos horrores do Holocausto. Passados muitos anos, já nos EUA, em 1969, a sua mulher grávida, a atriz Sharon Tate, e alguns amigos foram assassinados em Hollywood por membros do clã de Charles Manson, num caso bizarro que se tornou imensamente famoso.

Oito anos mais tarde, um novo incidente viria a mudar a sua vida e, naturalmente, a carreira. A 11 de março desse ano, Roman Polanski foi detido e acusado num hotel em Los Angeles por vários crimes cometidos contra Samantha Gailey, que tinha apenas 13 anos na altura. O realizador franco-polaco tinha 43 e foi acusado de violação e de ter comportamentos sexuais inapropriados com a rapariga.

No dia anterior, Gailey tinha feito um trabalho de modelo para Roman Polanski durante uma sessão fotográfica para a revista “Vogue” na piscina da casa do ator Jack Nicholson. Polanski negou todas as acusações. Muitos executivos influentes da indústria do cinema vieram até defendê-lo em público contra aquela alegada mentira.

Apesar da diferença entre as duas alegações sobre o que teria acontecido naquele dia, o advogado que representava Samantha Gailey propõs um acordo ao realizador que o ilibaria da maior parte dos crimes — Polanski teria apenas de se declarar culpado de ter tido relações sexuais com uma menor à margem da lei. Ele aceitou o acordo. 

Polanski foi condenado a passar 90 dias numa instituição psiquiátrica — além dos dias que já tinha estado na prisão — e teria de ficar em liberdade condicional. No entanto, o advogado de defesa descobriu que o juiz responsável pelo caso, Laurence J. Rittenband, tinha dito a alguns amigos que pretendia descartar o acordo e tentar condenar Polanski a uma pena de 50 anos de prisão.

O advogado de Gailey e várias pessoas próximas de Polanski confirmaram essa intenção da parte do juiz. Assim, Roman Polanski decidiu não aparecer no dia da sua sentença em tribunal. No dia anterior, em janeiro de 1978, o cineasta apanhou um voo para Londres, no Reino Unido, onde tinha uma casa; e um dia mais tarde viajou para França — como tinha nacionalidade francesa, estava protegido de ser extraditado para os EUA por causa deste caso.

Samantha Geimer tinha apenas 13 anos quando o incidente aconteceu.

Polanski tem vivido e passado a grande maioria do tempo em França desde então — apesar de este caso continuar a ser falado e discutido até aos dias de hoje. Ao longo dos anos, houve vários desenvolvimentos. Em 1988, por exemplo, Samantha Gailey processou novamente Polanski. O caso envolvia agressão sexual, sedução de uma menor e a provocação intencional de stress emocional.

Cinco anos depois, o realizador aceitou resolver o tema de vez com a sua alegada vítima através de um acordo. Mas só em 1997 é que o processo ficou finalmente fechado, depois de várias negociações confidenciais. Ainda assim, o caso tem sido várias vezes ressuscitado na imprensa.

Por exemplo, em 2003, numa entrevista, Samantha (agora com o apelido Geimer, do marido) acusou as autoridades e a comunicação social de, na altura, não lhe terem dado a atenção devida. No entanto, em 2008, disse que Polanski deveria ser deixado em paz. “Não desejo que ele seja mais castigado ou que tenha mais consequências”, disse Samantha Geimer.

Seja como for, aos olhos da justiça americana, o realizador continua a ser um criminoso fugido. E é tratado como tal. Em 2009, Polanski estava na Suíça e foi detido a pedido das autoridades dos Estados Unidos. Mais uma vez, o cineasta foi defendido publicamente por várias celebridades e personalidades da indústria, que exigiram a sua libertação. Esteve dois meses detido até se mudar para a sua casa naquele país, onde ficou em prisão domiciliária a aguardar o resultado do complexo processo de extradição. Um ano depois, a Suíça recusou oficialmente o pedido dos EUA para extraditar Polanski e libertou-o.

Em 2011, Samantha Geimer voltou a acusar a comunicação social e o sistema judicial americano de causarem “muito mais danos” a ela própria e à sua família “do que qualquer coisa que o Roman Polanski tenha feito”. Disse ainda que considerava que na época do julgamento o juiz estava a tentar obter publicidade a partir daquele caso mediático e controverso.

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