Cinema

Fantasporto: “Tiveram de ir chamar os médicos ao festival porque já faziam falta nas urgências”

A 37.ª edição arranca esta sexta-feira, 24 de fevereiro. A NiT falou com uma das fundadoras, Beatriz Pacheco Pereira, sobre a história do mais fantástico festival de cinema português.

"Age Of Shadows" abre o festival esta sexta-feira às 21 horas

Tal como todos os projetos, no início começou como um sonho. Neste caso, de três pessoas: Beatriz Pacheco Pereira, Mário Dorminsky e José Manuel Pereira. Os primeiros dois já organizavam ciclos de cinema e escreviam para a revista “Cinema Novo”. O terceiro era um pintor à procura de espaço para divulgar a sua arte. A ideia surgiu à mesa do Café Luso, na Praça de Carlos Alberto, no Porto, depois de uma visita a um festival de cinema espanhol.

Juntos, criaram em 1981 o Fantasporto — ou o Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto, como se chamava na altura — precisamente no Auditório Carlos Alberto, naquela praça da cidade. Esta sexta-feira, 24 de fevereiro, arranca oficialmente a 37.ª edição do evento, agora no Teatro Rivoli, onde está desde o fim dos anos 90. E ainda se mantêm as exposições de pintura na programação.

Beatriz Pacheco Pereira diz que é um festival onde existe “proximidade” entre o público, a organização os convidados especiais. Aqui não interessa o glamour e as “passadeiras vermelhas”. Apesar de tudo, o Fantasporto é muitas vezes associado aos filmes gore, mais pesados e negros, que Beatriz Pacheco Pereira diz ser a procura do “sensacionalismo” pela comunicação social. “Como são filmes mais vistosos, falam mais desses e ignoram todos os outros que temos.” De qualquer forma, tornou-se um festival de culto para muitos.

“Há um grupo de dez pessoas — nove, às vezes um deles falha — [na casa dos 60 anos] que vem desde a primeira edição, há 37 anos. E veem os filmes quase todos. Isso também mostra o sucesso desta organização.”

A organizadora, que escreveu sobre cinema em jornais e revistas, além de ter vários livros publicados, recorda os anos 80 como um “ambiente mais caótico”, onde os meios não eram tantos e a operação era mais pequena. “Imensa gente tentava entrar sem pagar, havia muita candonga [mercado negro de venda de bilhetes]. Pessoas que se fechavam no quarto de banho para depois conseguirem ver mais filmes.”

O sucesso e a curiosidade pelo cinema fantástico — hoje em dia, tem uma programação mais generalista — até causaram problemas maiores na cidade, já que o Auditório Nacional Carlos Alberto fica junto do Hospital da Ordem do Carmo.

“No fim dos anos 80 — por volta de 1986 ou 1987 —, o entusiasmo era tanto que tiveram de ir ao festival pedir aos médicos curiosos que lá estavam para que voltassem, porque já havia falta deles nas urgências do hospital e estavam a descurar o trabalho.”

A ideia de apostar no cinema fantástico fazia sentido pelo conjunto das circunstâncias, explica. Por um lado, “havia imensos filmes vindos do leste da Europa, da China e de outros países asiáticos que tinham sido proibidos pela Censura” até ao 25 de Abril. Por outro, “o cinema fantástico estava na moda na altura, foi em 1977 que foi lançado o primeiro ‘Star Wars’.”

Entre outros, o Fantasporto teve em antestreia europeia “Blade Runner” (1982), ou filmes de realizadores que na altura completos eram desconhecidos. Falamos de nomes como Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar, Brian de Palma, John Carpenter, os irmãos Joel e Ethan Coen, David Lynch, Lars Von Trier ou Danny Boyle — que, segundo Beatriz Pacheco Pereira, estava a trabalhar no guião de “Quem Quer Ser Bilionário?” na última vez que esteve no Fantasporto.

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