Cinema

Cada cena de “O Farol” é um shot de testosterona

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o filme realizado por Robert Eggers que foi nomeado para um Óscar.
Robert Pattinson e Willem Dafoe são os protagonistas.

Se é fã da saga de “Crepúsculo” e sempre imaginou o que o vampiro Edward fazia debaixo dos lençóis enquanto pensava na jovem Bella, para afastar a sua enorme tentação de emborcar uma litrosa de sangue do vizinho do lado, este pode ser um filme para si. Robert Pattinson tem uma interpretação que me impressionou pela positiva. Infelizmente, parte dela é a esgalhar o pessegueiro enquanto olha para a imagem em madeira de uma sereia… um género de PornHub do século XIX. Mas, apesar da constante tensão sexual ao longo da trama, esta não é uma histórinha de teenagers apaixonados, embora haja uma crescente — e quase cómica — dinâmica de casal entre as duas personagens. 

O novo filme de Robert Eggers, o realizador do multipremiado “A Bruxa” (2015), podia ser uma peça de teatro e seria ótima. O ambiente está todo lá: um cenário circunscrito, dois atores em confronto, um texto carregado de referências mitológicas com tom shakespeariano, um crescendo que culmina num final dramático e, sobretudo, um ritmo contemplativo. Mas “O Farol”, que pode ser visto nas salas do Espaço Nimas, em Lisboa, já a partir desta sexta-feira, 14 de fevereiro, é uma obra cinematográfica — e ainda bem.

Através de uma técnica que remete para o cinema expressionista alemão, a lente de Eggers impacta o espetador de várias formas. Desde logo pelas escolhas estéticas, como a opção de filmar a preto e branco, que embeleza a imagem e nos remete facilmente para o tempo que a história retrata, os finais do século XIX. Com uma fotografia sublime — que valeu ao filme uma nomeação para o Óscar nesta categoria —, “O Farol” conta a história de Ephraim Winslow (Robert Pattinson), quando chega a uma ilha isolada junto à costa de Nova Inglaterra (EUA), para trabalhar como ajudante de faroleiro durante quatro semanas.

Nesse período, terá de responder às ordens de Thomas Wake (Willem Dafoe), o encarregado do local, que é um estereótipo dos velhos lobos do mar, quase como a personagem do capitão de “Os Simpsons” ou, como o próprio Ephraim Winslow sugere a dado momento, uma imitação fajuta do capitão Ahab, de “Moby Dick”. Mas ao contrário destas figuras, a presença de Willem Dafoe e a sua entrega dão uma credibilidade incrível a este anti-herói que é sem dúvida um dos maiores atributos do filme.

Dafoe e Pattinson fazem uma parceria perfeita e as suas interpretações são, cada uma à sua maneira, dignas de reconhecimento, pelo que não teriam sido de todo descabidas as nomeações para os Óscares. De um lado o velho ameaçador e destruído pelo tempo que quer impor à força o seu comando; do outro, o jovem esperançoso mas desesperado por respostas e assombrado por visões do passado (e do presente, como uma sereia que o cativa com um género de canto-grito).

Este é, de resto, outro aspeto distintivo do filme: a forma como o realizador optou por tratar o som (o áudio é captado em mono) ajuda a construir todo o ambiente sombrio e misterioso daquela ilha. Há um conjunto de ruídos sempre presentes — as gaivotas, a caldeira, a sirene do farol, o relógio de parede — que são elementos pensados para criar um clima tenso e sufocante. E de facto criam.

As semanas vão passando e, ao sentir a opressão do isolamento e das violentas tempestades, os dois homens tentam passar o tempo o melhor que lhes é possível. Sendo que isto significa essencialmente fumar e beber um género de rum que aparenta ter 96 por cento de álcool, que os ajuda a esquecerem o outro e a si próprios. No meio de provocações, conflitos e algumas confidências, a sua relação vai-se deteriorando gradualmente, até ambos serem levados aos limites da insanidade.

Cada cena de “O Farol” é um shot de testosterona, onde não faltam boas doses de pancadaria, camaradagem, flatulência e vómitos. Mas é também uma história de fragilidade crua e realista, com uma tensão constante, por vezes sexual, em que ficamos com aquela expetativa de “estes dois ou se comem ou se matam”. Aproveitando um estado alterado de consciência fruto do abuso do álcool, o velho faroleiro faz uso de constantes “mind games” que deixam o jovem subordinado — e também o espectador — sem saber se o que acontece à sua volta é real ou apenas imaginação.

“O Farol” é um filme que vale a pena ver no cinema, porque se trata de uma experiência diferente dentro do género do terror e do suspense, que nos leva a refletir sobre o quão a mente humana é frágil perante a solidão e isolamento. Ou, claro, se quiserem apenas ver o Robert Pattinson nu. Qualquer que seja a sua escolha, certamente vai passar um bom momento.

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