Cinema

Bill Bailey: “Gostava de incluir fado no espetáculo que vou apresentar”

A NiT entrevistou o humorista britânico que é conhecido como mestre da comédia musical. Atua em Portugal em março.
O comediante vai atuar a 13 de março.

É um dos génios do humor mais famosos do Reino Unido. Bill Bailey é conhecido como “o mestre da comédia musical” e vem a Portugal para um espetáculo. “Larks in Transit” vai ser apresentado no Salão Preto e Prata do Casino Estoril a 13 de março, uma sexta-feira.

Nesta performance, que faz parte da 12.ª digressão mundial de Bailey, o inglês cria música de forma hilariante enquanto aborda grandes temas da humanidade — como questões filosóficas ou históricas — mas também pormenores do dia a dia. O grande foco são também as suas histórias pessoais e episódios que aconteceram em viagens.

Os bilhetes para “Larks in Transit”, que arranca às 21h30, estão à venda online. Os preços variam entre os 18€ e os 35€. Leia a entrevista da NiT com Bill Bailey como forma de antecipar o espetáculo.

Vai atuar pela primeira vez em Portugal a 13 de março. Vai ser a sua primeira vez no nosso País?
Não, já estive em Portugal. Até fiquei perto de Cascais, ali na zona do Estoril, na casa do meu primo, que é um trompetista e toca na orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. E gostei muito e estou entusiasmado por atuar aí, nem acredito que vai ser a primeira vez. Espero que seja a primeira de muitas.

Há algo específico que goste de fazer quando viaja?
Gosto de descobrir… acho que uma das melhores coisas da comédia é que fez com que eu viajasse pelo mundo. Tenho estado em partes da Europa onde nunca pensei que iria atuar, países da antiga União Soviética, como a Lituânia, Letónia e a Estónia. Enfim, tenho tido muitos carimbos no meu passaporte. Acho que é muito pelo YouTube, acho que muitas pessoas consomem comédia online. E querem ver uma performance ao vivo depois daquilo que viram. Todos precisamos de rir, não é?

Nestas tours, também tem tempo para visitar os países e cidades por onde passa?
Sim, tento sempre ter tempo para isso, porque quando estou em tour no Reino Unido, há atuações todas as noites e vou simplesmente de uma para a outra. Quando estou no resto da Europa, tento ter mais um dia ou outro para poder explorar um pouco. E espero conseguir ter isso em Lisboa.

E este espetáculo, “Larks in Transit”, também reúne muitas histórias inspiradas ou que aconteceram mesmo em viagens ou em tour, não é?
Exato, o espetáculo está sempre a crescer, em cada viagem, cada digressão, há sempre uma nova ideia e há muitos tipos de piadas. Tenho estado a fazer tours há vários anos e quis juntar essas histórias num espetáculo, envolver o público, gosto de cantar músicas com a plateia, e o espetáculo está realmente sempre a mudar e a evoluir. A última vez que o apresentei foi no ano passado em Amesterdão, na Holanda, e estou sempre impressionado com o conhecimento que as pessoas têm do Reino Unido. 

Há piadas com referências mais locais que não resultam tão bem em países estrangeiros?
Acho que não, eu já o apresentei em 15 ou 20 países e acho que é uma comédia universal, já o fiz na Nova Zelândia e na Noruega e existem as mesmas reações em todo o lado. É um espetáculo internacional e, mesmo que não sejas britânico, consegues apreciá-lo. Mesmo que o inglês não seja a tua primeira língua, mas também não é muito complicado de entender, e há muita música. É para todas as idades, os miúdos podem vir, as avós também, toda a gente. 

Este espetáculo é tanto sobre comédia como sobre música. É uma grande vantagem conseguir fundir estas artes?
Sim, acho que sim. A música é universal, é uma linguagem universal. Quando toco uma música, como um tema de “Star Wars”, toda a gente conhece. Se tocar canções populares antigas, temos uma linguagem familiar de conhecimento partilhado. Isso faz com que as pessoas se envolvam com a comédia de uma forma ainda melhor, porque ficam sintonizadas com a minha forma de pensar. Não esperaria que as pessoas soubessem assim tanto do Reino Unido ou da cultura britânica, mas as pessoas sabem. Somos muito mais internacionais agora, a Internet tem sido uma forma de internacionalizar a nossa comédia. As pessoas veem as minhas coisas online e já têm uma ideia do que vão ver. Encontro muitos paralelismos no humor de todos os países europeus, e acho que na Europa temos uma perspetiva diferente sobre o mundo. Olha para Portugal: é um país antigo, de grandes exploradores do mundo. Era um império e há traços da ancestralidade portuguesa em todo o mundo. Lá está, acho que é diferente atuar aqui do que atuar na América. Com a América nós temos a língua, sim, mas a atitude é bastante diferente. Eles olham muito para eles próprios e focam-se nisso. Acho que os europeus têm uma perspetiva mais mundial.

“Larks in Transit” também é muito inspirado nas suas próprias vivências, não é?
Sim, é mesmo. Alguém descreveu este espetáculo como uma viagem pela minha mente.

Há uma piada no espetáculo sobre um encontro que teve com o Paul McCartney, dos The Beatles.
Sim, é verdade [risos]. Basicamente, não correu bem. Estava um pouco extasiado. Eu tinha este discurso incrível que ia dizer — que tinha escrito antes de o conhecer. Pensei que devia dizer algo inteligente, poético, e o que aconteceu é que misturei tudo, o meu discurso não fez qualquer sentido. Totalmente nonsense. Acho que ele olhou para mim com uma cara de “o quê?” E depois eu tentei explicar, ele dizia “o quê?”, e foi um desastre, um desastre mesmo. 

Qual era o contexto?
Eu tinha acabado de o ver tocar ao vivo num evento, e havia umas festas de backstage. Estávamos lá, eu talvez tivesse bebido demasiados copos de vinho [risos].

Também há uma parte com death metal, não é?
Gosto de pôr todos os estilos de música no espetáculo. Música clássica, rock, jazz, pop, eletrónica e metal, porque adoro. Uma das minhas bandas favoritas são os Mastodon, e depois há os clássicos, como os Metallica. É uma das grandes formas musicais para tocar ao vivo. É entusiasmante: alto, rápido e gosto de tocar canções pop ao estilo death metal. Desafiar o público: “Vocês dão-me uma canção e eu vou tocá-la ao estilo death metal, vai soar melhor”. O meu espetáculo acaba por ser único porque cruzo comédia e música desta forma. É sobre tornar a música divertida, sobre identificar estilos e tocar canções de vários géneros. Mas também há muitas histórias sobre a minha vida pessoal, os meus programas de televisão, coisas que correram bem, coisas que correram mal…

Antes de subir ao palco, há sempre algo que faça?
O que gosto de fazer na maioria dos casos é sentar-me no auditório para perceber o feeling do espetáculo. Se for um sítio onde nunca atuei, sento-me em vários dos lugares e imagino-me como parte do público. Visualizo a performance e acho que isso realmente funciona, ajuda-me a imaginar o espetáculo de uma perspetiva diferente. 

Obviamente tem muita experiência em fazer espetáculos ao vivo. Ainda fica nervoso antes das atuações?
Sim, claro que acontece, seja por ter uma coisa nova ou o que for. Mas sobretudo sinto a adrenalina, o que é necessário para chegar a um certo nível de intensidade durante a performance. 

O Reino Unido está numa fase de mudanças com o Brexit. Vai ser bom para a comédia por poder suscitar muito material? Ou não o vê dessa forma?
Sim, sem dúvida, isso acontece. Já o estamos a ver, uma quase desconexão entre a realidade e fantasia. Esta coisa nostálgica da Great Britain é um bocado uma fantasia. Hoje vi um tweet de alguém que estava no aeroporto de Amesterdão e estava na fila para poder passar [porque os britânicos não estavam a circular simplesmente como cidadãos da União Europeia] e a dizer: “Não foi nisto que votei!” Bem, mas foi nisso que votaste. Há uma diferença entre aquilo que as pessoas pensaram que o Brexit ia ser, e aquilo que realmente é. E é aí que a comédia entra, apesar de também ser trágico [risos]. É uma linha ténue.

Na sua vida pessoal, está sempre a criar e a contar piadas, ou tenta não o estar sempre a fazer?
Às vezes, quando não estou em tours, tento não o fazer — mas não dá para evitar. Se fazes comédia, tu vês comédia em todo o lado. Vês ideias cómicas a acontecer a toda a hora. Estou sempre a escrever, a tomar notas, sempre a pensar em ideias que possam ser engraçadas. E quando estou em tour é igual. Às vezes há coisas que acontecem no dia do espetáculo, e eu falo sobre isso. Também há uma parte do espetáculo que pode ser improvisada. 

Tem alguém com quem gosta de testar as suas piadas?
Sim. Testo com o meu filho, ele tem 16 anos, gosta muito de comédia mas é um crítico muito duro. Se o fizer rir, também vai resultar no palco. 

Acha que ele também vai ter uma carreira nesta área, ou nem por isso?
Não sei, talvez o convença a fazer este espetáculo e assim eu possa ficar em casa [risos]. 

Quais são as suas fórmulas para estimular a sua criatividade?
O que costumo fazer é ler muito, muitos livros, notícias e também muito sobre ciência e história. Adoro incorporar factos, figuras históricas e coisas no espetáculo. Por isso leio muito. Gosto de saber sobre cultura, de saber que tipo de música é popular em cada sítio, de que tipo de televisão é de que gostam, porque gosto da cultura pop. É aí que eu entro.

Há algo sobre Portugal que já sabe que vai incluir no espetáculo?
Sim, gostava de incluir algum fado no espetáculo, canções prolongadas e tristes [risos].

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