Cinema

Ana de Armas, a latina que não gosta da fama mas que está a conquistar Hollywood

Tem 32 anos, viveu em Madrid e é namorada de Ben Affleck. Vai ser a próxima Bond girl e tem um papel em “Wasp Network”.
Tem 32 anos e desde os 12 que quer ser atriz.

Quando era pequena e estava a crescer em Cuba, Ana de Armas quase só tinha acesso a filmes e programas de televisão locais. De vez em quando conseguia ver produções de Hollywood na casa dos vizinhos, e tinha um grupo de amigas com quem cantava as músicas das Spice Girls — apesar de nenhuma delas entender o que significavam as letras.

Apesar dos racionamentos de comida, dos cortes frequentes de eletricidade e da falta de recursos no geral, a atual atriz de 32 anos descreve a sua infância como “feliz”. Hoje, é um dos principais nomes que estão a conquistar Hollywood. Subiu a pulso, com uma grande determinação, e agora tem uma enorme (e promissora) carreira pela frente.

O pai trabalhou como bancário, professor e numa câmara municipal. A mãe estava no departamento de recursos humanos no ministério da educação cubano. E Ana de Armas tem um irmão mais velho, Javier, que é um fotógrafo que atualmente trabalha em Nova Iorque. Aos 12 anos, já sabia que queria ser atriz — e correu atrás desse sonho sem nunca se desviar do seu caminho.

Apenas dois anos depois, foi aceite no curso de representação do Teatro Nacional de Cuba, em Havana, que duraria quatro anos. Ana de Armas apanhava boleias na estrada para chegar até à escola ou fazia a viagem de autocarro. O curso era exigente mas correu bem e, a meio, quando tinha 16 anos, estreou-se com um papel em “Una Rosa de Francia”, que chegou aos cinemas em 2006.

Acabaria por participar noutras produções enquanto adolescente, antes de se mudar para Espanha, no ano em que celebrou 18 anos — algo que só conseguiu fazer porque os avós têm nacionalidade espanhola. Queria seguir a carreira de atriz e bastaram-lhe as poupanças de 200€ para se mudar para Madrid (onde já tinha estado a promover o seu primeiro filme).

Apenas duas semanas depois de ter chegado, conheceu o diretor de castings Luis San Narciso, que tinha visto o seu papel em “Una Rosa de Francia”. Imediatamente, San Narciso conseguiu-lhe um papel numa série adolescente que iria ser um tremendo sucesso em Espanha, “El Internado”.

Ana de Armas participou em seis temporadas do projeto, entre 2007 e 2010. Rapidamente se tornou uma figura conhecida no nosso país vizinho. Apesar do sucesso, a atriz só estava a receber propostas para fazer papéis idênticos e sentiu que estava presa àquele tipo de personagem adolescente. Por isso mesmo, pediu aos criadores do projeto que escrevessem a história para que a sua personagem saísse na penúltima temporada.

Por volta de 2011, foi para Nova Iorque, nos EUA, para aprender inglês. Queria internacionalizar-se e trabalhar na grande indústria mundial. Mas os convites continuaram a aparecer em Espanha e voltou a Madrid para participar em projetos como “Hispania, La Leyenda”, “El Callejón”, “Anabel” ou “Por Un Puñado de Besos”. Nessa fase esteve casada com o ator espanhol Marc Clotet, durante dois anos — divorciaram-se em 2013.

Ana de Armas com os colegas em “El Internado”.

Continuou a participar em workshops profissionais de representação e teve a fase “mais ansiosa” da sua carreira — sentia que não estava a ir por onde queria, que não tinha alcançado ainda os seus objetivos. Felizmente, conseguiu um agente em Los Angeles, e rapidamente se mudou para a cidade da indústria de Hollywood.

Quando chegou à Califórnia em 2014, foi como se tivesse começado a carreira do zero. Falava muito pouco inglês e na maioria dos primeiros castings que fez nem sequer sabia exatamente o que é que estava a dizer. Passou quatro meses a aprender inglês durante o dia inteiro — até dominar a língua.

No entanto, nos primeiros papéis que fez decorou as falas pelos sons das palavras — ou seja, não conseguia quase manter uma conversa com os outros atores e produtores, e se o texto fosse alterado durante as gravações seria um problema. Um desses casos foi na sua estreia em Hollywood, “Knock Knock”, um thriller erótico protagonizado por Keanu Reeves. De qualquer forma, Reeves gostou do seu trabalho e convidou-a para um papel para outro filme protagonizado e produzido por si, “Anjos e Sombras”, que estreou no ano seguinte, em 2016.

Outros dos filmes que fez nessa fase foram “Os Traficantes”, de Todd Phillips; ou “Hands of Stone”, de Jonathan Jakubowicz. O papel que a iria lançar seria o da namorada de inteligência artificial da personagem de Ryan Gosling em “Blade Runner 2049”, mas o filme acabou por não ter o sucesso comercial desejado. Ana de Armas foi elogiada pelos críticos, mas não se tornou propriamente muito conhecida do grande público.

Ainda assim, estava a conseguir construir uma carreira. Ana de Armas comprou nesse ano uma casa em Cuba, onde vive a sua família e grande parte dos seus amigos. É lá que continua a passar grande parte do tempo livre, sempre que pode. É amiga de muitos atores cubanos, que a têm como a grande referência. Apesar disso, os seus pais nunca conseguiram ir à estreia de um dos seus filmes ou sequer ver o seu trabalho em boas condições. Veem o seu trabalho “mais tarde, através de uma cópia má ou assim”, como descreveu em entrevista à “Vanity Fair” no início deste ano.

Quando vai a Cuba, Ana de Armas diz que leva a bagagem cheia de roupa, medicamentos ou outros mantimentos que oferece às pessoas do seu país — as malas voltam vazias, já que a atriz nem leva praticamente roupa ou objetos pessoais para Havana.

Diz que Hollywood não é a sua vida, mas antes a sua “realidade”. “Fiz grandes amigos, e aconteceram-me coisas incríveis aqui, mas o estilo de vida e a exposição pública e as constantes situações de negócio não são para mim. Gosto de falar sobre a vida, sobre arte, bebés ou animais de estimação. Representar é o que adoro fazer, mas não consigo estar sempre a falar disso”, contou no mesmo artigo da “Vanity Fair”.

Em 2019, sim, conseguiu o papel que a catapultou para o estrelato. Com um elenco de verdadeiras estrelas — desde Daniel Craig a Chris Evans, passando por Jamie Lee Curtis e Christopher Plummer — foi Ana de Armas quem mais se destacou em “Knives Out: Todos São Suspeitos”. Foi nomeada para o Globo de Ouro de Melhor Atriz numa Comédia ou Musical.

Quase esteve para não aceitar o papel, cuja descrição inicial (e de forma muito básica) dizia apenas que seria o de uma “auxiliar bonita”. Ana de Armas tem-se declarado veementemente contra os estereótipos no cinema para os atores latinos. “Às vezes diz: ‘sexy com um mau feitio’. E é quem nós somos. Não tem nada de mal, desde que não seja só isso. Com isso é que tenho um problema.” No entanto, nesta história acaba por ter um papel bem mais complexo, e até de protagonista.

Apesar de todas as circunstâncias, 2020 promete ser um grande ano para Ana de Armas, com vários passos importantes no seu percurso. Participou no drama político “Sergio”, da Netflix, e no thriller “O Rececionista”. Esta quinta-feira, 9 de julho, estreia em Portugal “Wasp Network: Rede de Espiões”

A narrativa baseia-se na história real dos cinco de Cuba — agentes secretos que foram detidos no estado da Flórida nos anos 90 e mais tarde condenados por espionagem e outros crimes. O enredo acompanha sobretudo René González, um piloto cubano que deixa a sua mulher e filha para começar uma nova vida em Miami.

Depois de se juntar a um grupo de compatriotas exilados, conhecido como a Wasp Network, torna-se parte de uma célula de espionagem que tem como missão vigiar e infiltrar organizações cubanas e americanas que queiram derrubar Fidel Castro. O filme foi escrito e realizado por Olivier Assayas. O guião foi construído a partir do livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, do jornalista e autor brasileiro Fernando Morais. 

Além de Ana de Armas, há uma série de estrelas latinas que entram nesta produção — entre as quais Penélope Cruz, Wagner Moura, Gael García Bernal e Edgar Ramírez.

Contudo, o seu ano não fica por aqui. Se queria quebrar estereótipos, a maior prova que o está a conseguir fazer é que vai interpretar Marilyn Monroe no filme biográfico (mas também fantasiado) “Blonde”, com estreia prevista para 2021. É uma produção realizada por Andrew Dominik.

“Só tive de fazer o casting uma vez e o Andrew disse: és tu. Interpretar a Marilyn foi algo novo. Uma cubana a interpretar Marilyn Monroe. Queria tanto.”

No filme, o próprio cão de Ana de Armas, Elvis, interpreta o cão de Monroe — que se chamava Mafia e que tinha sido um presente de Frank Sinatra.

Outro grande projeto em que vai participar é o próximo filme de 007, “Sem Tempo Para Morrer”, que irá estrear a 26 de novembro. O realizador, Cary Joji Fukunaga, é um fã da atriz há vários anos e escreveu este papel (em conjunto com Phoebe Waller-Bridge) especificamente para Ana de Armas. Ela pode ser a “bond girl” deste filme, mas o objetivo nunca será objetificar a mulher.

“Obviamente estava a saltar e muito entusiasmada [quando recebeu o convite]. Mas tinha de garantir que não ia prejudicar todo o trabalho que tinha feito até então, que não ia estragar tudo. E as mulheres de Bond, pelo menos para mim, nunca me consegui identificar com elas.”

Ana de Armas vai interpretar uma mulher que acaba de começar a trabalhar para a CIA, por isso tem pouco treino quando conhece James Bond (a personagem de Daniel Craig, com quem já trabalhou em “Knives Out: Todos São Suspeitos”). A expetativa é a de que ela não será a agente mais prolífica, mas a personagem acabará por surpreender.

Nos últimos meses antes da pandemia, filmou ainda “Deep Water”, um thriller previsto para o final do ano realizado por Adrian Lyne sobre um marido que deixa a sua mulher ter relações fora do casamento para a manter feliz e evitar um divórcio — só que se torna o suspeito principal no desaparecimento dos seus amantes.

Ben Affleck será o marido, Ana de Armas a mulher. Na vida real, o par juntou-se e estão a namorar — o que já provocou uma onda de interesse dos paparazzi e da imprensa cor-de-rosa americana. Recentemente, Ana de Armas levou Affleck a conhecer a família em Havana.

Ana de Armas é uma estrela em ascensão em Hollywood, mesmo que prefira viver a sua vida tranquila e pacata com a família e os amigos em Havana. Tal como a sua personagem em “Knives Out: Todos São Suspeitos”, parece que vai acabar por ser a mulher que, mesmo que não quisesse propriamente, foi arrastada para um jogo que acabou por ganhar.

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