Cinema

Crítica: “A Rapariga no Comboio” devia ter parado em vários semáforos vermelhos

O livro de Paula Hawkins foi o mais vendido de 2015. O filme estreia esta quarta-feira, 5 de outubro, mas está longe de ser tão obscuro, sinistro e surpreendente.

O pior erro que podemos cometer — mea culpa — é ir ver “A Rapariga no Comboio” poucas semanas depois de lermos o livro de Paula Hawkins. Uma coisa é termos a perfeita noção de que quando gostámos muito de uma obra, será difícil não ficarmos desiludidos com a adaptação. Outra coisa é termos os eventos tão presentes na memória que a cada segundo ouvimos na nossa cabeça: “Isto não era assim no original.”

“A Rapariga no Comboio” foi o livro mais vendido de 2015 e a história foi transformada em filme em tempo record — pouco mais de um ano e meio separam o lançamento da versão original e a estreia nos cinemas, que em Portugal acontece esta quarta-feira, 5 de outubro. Contudo, não é realista esperarmos a repetição do que aconteceu em 2014 com “Em Parte Incerta”. Primeiro, o thriller de Paula Hawkins não é sinistro e retorcido ao nível da obra de Gillian Flynn. Segundo, apesar de Tate Taylor ser um ótimo realizador (basta ver “As Serviçais”), também não tem o lado negro e misterioso de David Fincher. Terceiro, Hawkins não quis estar envolvida na adaptação e, se calhar, devia.

O argumento ficou a cargo de Erin Cressida Wilson (“A Secretária”), que transportou a história dos subúrbios de Londres para os arredores de Nova Iorque. Percebemos a ideia — cativar o mercado e os espectadores norte-americanos — mas perder o céu cinzento de Inglaterra e as casas estreitas em banda para casas enormes com jardins cheios de árvores e flores corta metade do suspense que devia ter passado para o ecrã. Se este comboio falhou algum semáforo vermelho na linha, este foi o primeiro.

Isto leva-nos a Emily Blunt, a protagonista e único vestígio britânico (já que mantém o sotaque) no filme. Ela é Rachel Watson, uma mulher alcoólica que perdeu o marido, a vida que tinha e o emprego, mas que continua a apanhar o comboio para Nova Iorque diariamente. Pela janela da carruagem observa as casas, as pessoas e imagina as suas vidas. Um dia vê algo fora do comum, que não devia ter acontecido, que vai arrastá-la para uma série de acontecimentos que a ligam a outras tantas personagens.

Paula Hawkins não quis estar envolvida na adaptação e, se calhar, devia.

A escolha de Blunt para o papel foi criticada inúmeras vezes. É verdade que não tem excesso de peso como a personagem e que o facto de ter a cara cheia de manchas não faz dela menos bonita. Contudo, a atriz já mostrou que é capaz de carregar personagens cómicas (“O Diabo Veste Prada”) mas também muito mais sérias e consistentes (“Sicário — Infiltrado”). Aqui consegue transmitir o desespero desta mulher sozinha e sem nada, que ao mesmo tempo é capaz de atos incompreensíveis — que não nos levam, ainda assim, a deixar de sentir empatia por ela. O momento em que, na casa de banho de um bar, coloca em palavras aquilo que realmente sente e o que era capaz de fazer é assustador, intenso e, ao mesmo tempo, uma espécie de catarse.

Megan (Haley Bennett) e Anna (Rebecca Ferguson) são as duas outras mulheres centrais da história. Ambas loiras e com pele de porcelana, parecem perfeitas e a cópia uma da outra. Mas não são, pelo contrário — nenhuma das protagonistas femininas inventadas por Paula Hawkins é. As duas atrizes não têm tanta voz como no livro mas conseguem mostrar o essencial com o pouco tempo que lhes é dado. Laura Prepon é Cathy, a colega de casa de Rachel que lhe atura todas as bebedeiras, todas as ressacas e obsessões. Aqui nem é feita justiça à personagem, importantíssima na obra de Hawkins, nem a Prepon, cujas três ou quatro frases lhe dão nenhuma oportunidade de mostrar o que vale. O comboio passou por aqui a alta velocidade e falhou mais um sinal vermelho.

É preciso falar de Allison Janney e Lisa Kudrow. Com duas personagens subvalorizadas, conseguem aproveitar todos os segundos de filme em que aparecem. Um bom ator consegue mostrar aquilo que vale em duas horas ou em dois minutos.

Os papéis masculinos foram entregues a nomes igualmente mediáticos, Justin Theroux e Luke Evans. As suas características parecem ter-se perdido do livro para o filme. Interesse? Zero. Diálogos? Zero. Edgar Ramírez completa este trio. Ele é o terapeuta de Megan, o doutor Kamal Abdic. As palavras Kamal e Abdic sugerem tudo menos origens hispânicas, certo? Pois, mas é esse o sotaque que Ramírez mantém na história. Terceiro semáforo vermelho e a viagem devia parar por aqui.

Para quem leu a obra de Paula Hawkins há pouco tempo é impossível julgar se os twists do filme vão realmente surpreender os espectadores. Contudo, Tate Taylor consegue esconder algumas pistas com a sua realização. Fazer a viagem com “A Rapariga no Comboio” é mesmo obrigatório, mas talvez seja melhor começar pela versão em papel.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT