Televisão

Crítica: “The Bastard Executioner” – uma ficção histórica perdida em Westeros

A nova série de Kurt Sutter (o criador de “Sons of Anarchy”), que passou esta terça-feira no FX, nos EUA, não sabe o que quer ser.

O enredo decorre no século XIV, após a morte de Edward Longshanks, Rei Edward I de Inglaterra, e incide no caos que divide ingleses e galeses, que lutam pela independência. Há pancadaria, sangue, intriga política muito mal contada, a sombra do catolicismo romano e um toque de magia protagonizado por uma Melisandre um pouco mais velha que Carice Van Houten e de cabelo prateado. “The Bastard Executioner” vive uma crise de identidade, e estreou esta terça-feira, nos EUA, no canal FX.

Na primeira hora e meia da nova narrativa do mestre por detrás de “Sons of Anarchy” pode contar com tortura explícita, mulheres esfaqueadas, crianças degoladas, uma adaga a entrar pela nuca e a sair pela boca e uma grávida estripada. Não é de estranhar que a visão gore de Kurt Sutter se adapte tão bem à crueza medieval do século XIV – o problema é quando isso se torna, apenas, puro entretenimento.

Kurt Sutter parece ter recebido ordens para criar algo parecido com “A Guerra dos Tronos”, mas também com “Spartacus”

Depois do boom de “A Guerra dos Tronos”, tem sido comum assistir-se a uma tentativa de reprodução do formato que trouxe tanto sucesso e prestígio ao hit da HBO. É impossível apontar com máxima precisão o que faz do universo de George R. R. Martin um sucesso universal. Acredito que seja uma conjugação de elementos, todos escritos e contados com extrema complexidade, densidade e qualidade, que, juntos, geram algo único. As personagens, o enredo, a filosofia, a intriga política, a magia e a crueza de uma sociedade dividida entre fogo e gelo, guiada pelos costumes e mentalidade da era medieval. Não é fácil agregar tudo isto, com qualidade e coesão, em quase 5 mil páginas que em breve se tornarão 6 mil – o que explica o facto de tantas tentativas de reproduzir este formato resultem em falhanços, como é o caso de “Public Morals” e de “Tut”.

O caso de “The Bastard Executioner” não é muito diferente, porque, como refere Willa Paskin, da Slate, “Kurt Sutter não percebe o que faz de “A Guerra dos Tronos” uma boa série”. Mais do que longas sequências de carnificina desmedida, com ocasionais espasmos de magia e jogos políticos contados aos soluços, deviam ter-se concentrado em construir personagens fortes num enredo bem organizado – isto se o objetivo do FX era criar um concorrente ao impacto da rival HBO.

Wilkin tem uma visão de um anjo que lhe “diz” para deixar a guerra, e, como tal, dedica-se à agricultura

Esta história parece um levantamento de factos tortuosos sobre a brutalidade da época medieval, tudo levado a cabo por inúmeras personagens num argumento sem direção. Wilkin Brattle (Lee Jones) é um protagonista desinspirado, sem personalidade e sem a capacidade de tomar decisões pela sua própria cabeça. Começou por ser um cavaleiro que lutava pelos valores do rei Edward Longshanks, até ser traído pelo barão Ventris (Brían) e ter amuado. Pelo meio, Wilkin tem uma visão de um anjo que lhe “diz” para deixar a guerra, e, como tal, dedica-se à agricultura, ao lado dos galeses. Depois, a sua aldeia é atacada – jura vingança e volta a pegar numa espada. Como é que este homem, que mais parece uma ovelha à procura do rebanho, inspira liderança?

muitas personagens, mas nenhuma parece bem trabalhada. São todas bastante quadradas, levadas por uma intuição quase mecânica, perdidas no caos da tortura, religião, nobreza e politiquices medievalistas. Isto reflete a desorientação do criador, que parece ter recebido ordens para criar algo parecido com “A Guerra dos Tronos”, mas também com “Spartacus” – três sequências de combate cheio de gore ao som de heavy metal provam isto mesmo.

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