Cinema

Crítica: “The Beatles: Eight Days a Week” faz renascer a lenda (nem que seja só por 1h30)

Ron Howard foca-se nos anos de tournée da banda e dá-nos histórias inacreditáveis, imagens de bastidores e desconstrói a “Beatlemania”.

— Qual deles é você?
— Sou o Eric.
— Estamos aqui com o Eric [fala para a câmara de televisão]. Eric, o que acha…
— Eu sou o John [Lennon]. Era uma piada.

Os jornalistas podiam não saber quem eram The Beatles, quando eles aterraram pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1964 — mas o público já lhes fazia esperas à porta dos hotéis, perseguia o carro em que seguiam e esgotavam concertos atrás de concertos.

“The Beatles: Eight Days a Week” é o novo documentário sobre a banda — que chega aos cinemas portugueses esta quinta-feira, 15 de setembro — e que se foca nos anos de tournée, entre 1962 e 1966.

Ron Howard (“Uma Mente Brilhante”, “Anjos e Demónios”) dirige um filme repleto de áudios e imagens de bastidores, gravações em Abbey Road e recordações de dois homens que se revelam cativantes contadores de histórias, Paul McCartney e Ringo Starr.
Há um vazio que nos recorda constantemente a falta de John Lennon e George Harrison, mas há excertos de antigas entrevistas que aliviam a ausência.

Vamos esquecer a velha história de ter sido Yoko Ono a responsável pelo fim dos Beatles. Uma junção de fatores acabou demasiado cedo com um fenómeno sem precedentes, que podia ter sido bem maior, e o início do fim está explicado neste filme, que tem 1h37 mas podia perfeitamente ter cinco horas, tal é a facilidade com que a narrativa flui.

Já ouvi chamarem-lhes boyband, letristas sem qualidade, não interessa. Ainda não houve ninguém capaz de igualar o que eles fizeram em muitos aspetos, não só na música. As primeiras letras tinham pouca profundidade? É verdade, os próprios reconhecem isso. Ao mesmo tempo eles só queriam divertir-se e tocar, se a melodia e a letra soavam bem, iam em frente. Essa abordagem despretensiosa foi uma das chaves do seu sucesso. Adoravam o que faziam e isso passava para o público e entranhava-se como uma epidemia. O problema foi quando deixou de passar.

Em pouco tempo passaram de um bar com meia dúzia de pessoas, para estádios com mais de 50 mil (a maioria mulheres) a desmaiarem e aos gritos. A “Beatlemania”, como lhe chamaram, foi o reconhecimento de uma marca na história, de um sucesso inigualável, mas também a destruição daquilo que eles queriam. “As pessoas não iam para ouvir a nossa música, aquilo era um circo”, diz John Lennon no excerto de um áudio incorporado no documentário.

Tinham um contrato tão miserável que quase nada lucravam com os discos, que tinham de lançar de seis em seis meses

Nem os fãs ouviam, nem eles próprios. Em 1966, no Shea Stadium de Nova Iorque, Ringo Starr só conseguia acompanhar os outros ao seguir os pés e os rabos de Lennon e McCartney, que lhe indicavam o ponto da música.

Essa tournée criou também uma nova tendência, os concertos nos estádios. Mas não foi uma ideia brilhante que surgiu da cabeça de um visionário qualquer, foi simplesmente porque eles não podiam tocar mais em espaços pequenos. Teriam 5 mil pessoas lá dentro e 50 mil lá fora, à porta, a gerarem o caos.

Por essa altura dezenas dos singles da banda tinham chegado a número 1 dos tops, os discos vendiam milhões. No entanto, os Beatles tinham um contrato tão miserável que quase nada lucravam com isso — e ainda tinham a obrigatoriedade de lançar singles de três em três meses e álbuns de seis em seis. Eram os concertos que lhes davam dinheiro mas tudo se tornou um negócio tão grande, que nenhum deles já retirava prazer disso. Era simplesmente demasiada pressão, demasiada exposição, demasiado escrutínio. Eles não aguentaram e, sinceramente, quem aguentaria?

No início eram quatro miúdos, verdadeiramente amigos, que contavam piadas em entrevistas, convidavam jornalistas para viajar com eles e adoravam conviver com os fãs. Depois vieram os histerismos, os infames comentários de John Lennon, que considerou o sucesso dos Beatles maior do que Jesus, e a gigantesca onda de boicote que isso desencadeou nos Estados Unidos. Foi especialmente duro e visível, até na cara de Lennon, que passou de despreocupado a um homem sisudo e pouco acessível.

“The Beatles: Eight Days a Week” faz-nos sorrir muitas vezes, assim que ouvimos os primeiros acordes de temas como “Don’t Let Me Down”, “Help!” ou “I Saw Her Standing There”. Ao mesmo tempo somos invadidos pela tristeza extrema de não termos presenciado este fenómeno cultural que acabou demasiado cedo. No meu caso, posso dizer que vi um quarto da lenda, aqui mesmo, na Expo 98, quando Ringo Starr encerrou um dos dias. Não me perguntem o que tocou, mas sei que tinha uma energia inacreditável mesmo atrás de uma bateria.

A 30 de janeiro de 1969, os Beatles subiram ao telhado dos estúdios da Apple Corps, em Londres, para uma atuação improvisada. No entanto, o seu último verdadeiro concerto aconteceu três anos antes, em São Francisco. Quem lá esteve passou provavelmente o tempo todo a gritar, não dando a mínima importância ao que estava a assistir. Percebe-se um bocadinho desse fenómeno com 30 minutos do espetáculo no Shea Stadium, exibido nos cinemas logos depois do documentário.

A terrível verdade é que nunca será possível voltar atrás no tempo e estar ali mesmo no centro de tudo, a dar-lhes a atenção que mereciam, mas Ron Howard faz os Beatles renascerem durante mais de hora e meia. E só temos de lhe agradecer por isso.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT