Cinema

Crítica: Uma dança romântica entre Annette Bening e Ed Harris

“A Face do Amor” promete um desafio que não chega a cumprir, mas, ainda assim, compele-nos no início. O filme estreia esta quinta feira em Portugal.

Não há nada mais importante que a escrita. A credibilidade do enredo e das personagens dependem das palavras – e quando elas falham, isso nota-se. Todos sabemos que Annette Bening é uma estrela – a sua prestação em “Beleza Americana” e em “Os Miúdos Estão Bem” não deixou dúvidas a esse respeito. Então porque é que há momentos em “A Face do Amor” em que esta talentosa atriz não consegue escapar de um cerco de mediocridade? Por causa do argumento. O filme chega quinta feira às salas portuguesas.

Nikki (Bening) é viúva há cinco anos e ainda não conseguiu ultrapassar a perda do marido. No entanto, entre os dias repletos de melancolia e saudade, vem um em que Nikki se cruza com alguém idêntico a Garret (Ed Harris). Tom (também Ed Harris) é um artista plástico e professor de artes visuais – e é neste encontro que a história começa.

No início, o enredo consegue entreter enquanto nos mostra a forma como a protagonista lida com a imagem de um marido que já não tem. E durante a primeira parte, onde assistimos à dança romântica entre Bening e Harris, motivada com interações engraçadas levadas a cabo por uma realização competente, está tudo bem, dentro da simplicidade e coesão de um argumento bastante linear. O problema vem depois, quando os argumentistas Matthew McDuffie e Arie Posin começam a tentar brincar com conceitos de elevada psicologia

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Quando chegamos ao desenlace perguntamo-nos: “Porquê?”

Mas isso nem é o mais grave, pois, como a crítica Manhola Dargis do New York Times refere na sua análise: “Se há alguma razão para o regresso dual do Sr. Harris, a produção decidiu não revelá-la”. A verdade é que, chegando ao desenlace, a pergunta que impera é: “Porquê?” Não há propriamente um ciclo fechado, uma questão respondida, ou um final aberto. À medida que a história progride fica a sensação de que Nikki começa a perder a noção da realidade, mas ninguém se dedica a uma devida construção dessa viragem que, por alguma razão, depois perde relevância. Tal como acontece com a ingrata presença de Robin Williams, que faz o papel do vizinho apaixonado mas demasiado “estranho” para ser interessante.

Há coisas boas e bem feitas neste drama psicológico, mas os buracos do argumento acabam por vir ao de cima. Como já foi dito, a chave está na escrita – e Quentin Tarantino que o diga. As suas histórias estão centradas nas suas personagens e, como tal, os atores têm um papel importante. A cenas são tão ricas que é quase fácil dizermos que “ele escolhe bons atores”, e esquecermo-nos da qualidade dos seus argumentos. Na altura em que John Travolta brilhou em “Pulp Fiction”, todos diziam que era “o regresso de John Travolta”, mas a verdade é que esse regresso estagnou no momento em que Tarantino deixou de lhe escrever papéis.

Da mesma forma, com “A Face do Amor”, fica a sensação de que se não fosse a qualidade natural dos dois protagonistas, este romance perdia-se pela sua redundância e falta de identidade

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