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Televisão

“The Deuce” é a melhor série que não está a ver

A terceira temporada da série que conta a história da pornografia nos EUA já estreou na HBO Portugal.
Obrigatório ver.

Desde o feito hercúleo que foi “The Wire” (a melhor série deste lado da Via Láctea), a carreira do escritor/argumentista David Simon já teve alguns pontos altos, como a mini-série “Show Me a Hero”. Mas a única que se aproxima desse nível é “The Deuce”, que estreiou na terça-feira, 10 de setembro, a sua terceira e última temporada na HBO Portugal. As semelhanças entre as duas séries são significativas, desde o elenco à equipa de guionistas. Há muito ADN partilhado aqui e o resultado acaba por ser semelhante: televisão de qualidade, um pouco mais exigente que o normal, com tendência para passar ao lado do grande público enquanto está a ser transmitida.

Enquanto que “The Wire” disseca de forma brilhante as instituições de uma cidade norte-americana moderna (Baltimore), partindo da realidade do tráfico de droga, “The Deuce” (uma alcunha para a 42nd Street, a rua que é o epicentro da história) é uma espécie de crónica do nascimento de uma indústria bilionária na Nova Iorque dos anos setenta e oitenta: a pornografia. Durante as três temporadas, programadas desde o início, acompanhamos várias personagens através dos anos. Entre chulos de cores berrantes, prostitutas, polícias, mafiosos, membros da comunidade LGBT, barmen e estudantes, há uma panóplia rica (e credível) de “New York characters” que povoa a série e nos mostra vários aspetos da cidade.

Como David Simon avisa: “Algumas coisas [da série] aconteceram realmente. Outras não aconteceram de todo. Algumas talvez tenham acontecido. Mas todas elas podem ter acontecido.” Ou seja, “The Deuce” é uma representação fiel, mas não fotográfica, da época, baseada nos relatos de quem a viveu. A ideia para a série surgiu, aliás, quando apresentaram David Simon a um homem que tinha estado envolvido nos infames salões de massagem de NY e que foi a inspiração para a personagem de Vincent Martino (James Franco).

A primeira fase da história começa em 1971, numa altura em que o negócio da prostituição ainda ocupava Times Square e a violência ligada a tráfico de droga era um problema dramático em Nova Iorque. David Simon e companhia levam o seu tempo a montar cuidadosamente as peças (porque todas importam e tudo está ligado, sempre) e a explicar as pequenas e grandes situações que possibilitaram a criação da indústria pornográfica como a conhecemos.

A segunda temporada acontece em 1977, com a popularização do negócio, que começa a render dinheiro a sério, e a rápida adaptação de algumas prostitutas, que migram para os filmes pornográficos. A terceira arrisca novamente um salto temporal e coloca-nos em 1984/85, quando as cassetes VHS — que fizeram a primeira aparição na segunda temporada, onde uma personagem profetiza que o futuro da indústria iria acontecer na privacidade do lar da audiência — já tinham morto a estrelinha da rádio e a epidemia de SIDA assombrava os EUA de Reagan.

O elenco é uniformemente fantástico, liderado pelo star power de James Franco, que faz o clássico papel de dois irmãos gémeos de personalidades radicalmente diferentes (é melhor do que soa), e Maggie Gyllenhaal, que interpreta Candy, possivelmente a personagem feminista mais interessante na televisão, que passa de prostituta independente a realizadora/atriz de filmes pornográficos com ambições artísticas. É dela uma das frases mais marcantes de “The Deuce”: no cenário de um filme, enquanto espera que a equipa técnica acabe de montar o equipamento, Candy filosofa — “Who would have thought the most boring part of this whole thing is the fucking?”. É um momento de auto-reflexão carregado de significado, como se fosse o próprio David Simon a tecer uma consideração sobre a própria série. Candy, além de ser a alma e coração da história, é também uma interpretação magnífica de Maggie Gyllenhaal e que já merece alguns prémios.

Os diálogos são do melhor que se fez nos últimos anos, muito por causa da experiência dos escritores de policiais recrutados para o efeito. A Richard Price e George Pelecanos, que tinham trabalhado em “The Wire”, juntaram-se as novelistas Megan Abbott e Lisa Lutz para dar vida às ruas de Nova Iorque. Os episódios têm subido de qualidade e fica a ideia de que Simon e companhia engrenaram realmente na segunda temporada, um pouco menos pesada e mais engraçada do que a primeira, preservando a estrutura complexa da narrativa.

Mas é nas personagens tão bem desenhadas que “The Deuce” se destaca realmente. Não há vilões nem heróis perfeitos, mas sim figuras tridimensionais e ambíguas — ninguém age de determinada forma só porque sim. A História é feita de pessoas e esta série não foge à regra: todas as personagens são peças fundamentais… e descartáveis, ao mesmo tempo, visto que a série também é uma crítica mordaz ao sistema capitalista norte-americano e à misoginia tão entranhada nele. “The Deuce” é, dessa forma, um retrato ambicioso e realista do sonho americano. Dos que exigem uma troca de lençóis na manhã seguinte e deixam um sabor acre na boca.