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Vimos o primeiro episódio da série sobre Maddie: isto é o que pode esperar

“The Disappearance of Madeleine McCann” estreou esta sexta-feira, 15 de março. É uma produção documental de oito capítulos.
A série tem oito episódios.

Apesar do que vários jornais tinham avançado, o documentário sobre o caso do desaparecimento de Madeleine McCann na Netflix é, na verdade, uma série dividida em oito partes e não um filme. A NiT já assistiu ao primeiro capítulo — todos os episódios de “The Disappearance of Madeleine McCann” estão disponíveis na plataforma de streaming desde esta sexta-feira, 15 de março.

A primeira parte foca-se sobretudo nas primeiras 24 horas depois do desaparecimento da criança inglesa de três anos. Tudo aconteceu em maio de 2007 na Praia da Luz, no Algarve. A maior parte dos portugueses lembrar-se-á das manchetes nos jornais e das reportagens na televisão.

Os pais, Gerry e Kate McCann, jantavam com amigos no restaurante Tapas do aldeamento Ocean Club, enquanto Maddie e os irmãos gémeos mais novos dormiam no quarto — ficava a apenas 50 ou 60 metros do espaço de restauração. Os pais e os amigos faziam rondas a cada 20 ou 30 minutos para irem espreitar se estava tudo bem com as crianças — até que, quando chegou a vez de Kate, Maddie não estava na sua cama e a janela do quarto estava aberta.

Como é sabido, a menina inglesa (que hoje teria ou terá 15 anos) nunca foi encontrada. O caso tornou-se mediático em Portugal e no estrangeiro. E “The Disappearance of Madeleine McCann” tem depoimentos que apontam no sentido de que Maddie ainda pode estar viva e que poderá ter sido raptada por uma organização criminosa de tráfico humano, que a levou para outro país.

Os pais de Maddie recusaram-se a ter qualquer papel no documentário, alegando que a investigação policial ainda está em curso. 12 anos e mais de 12 milhões de euros depois, a busca pelo paradeiro da criança transformou-se numa das mais longas, dispendiosas e famosas da história. Neste momento, Gerry e Kate aguardam resposta das autoridades ao seu pedido de mais fundos para continuarem as buscas.

A julgar pelo primeiro episódio, “The Disappearance of Madeleine McCann” vai explicar meticulosamente tudo o que aconteceu no caso de desaparecimento e oferecer diferentes perspetivas e informações de contexto.

Os pais não aceitaram dar entrevistas, mas há várias declarações suas, feitas aos meios de comunicação social na altura, que estão incluídas nesta série documental. Neste primeiro capítulo há ainda um depoimento importante de outro turista britânico que conheceu os McCann nas atividades de férias no Ocean Club, Neil Berry, que ajuda a contextualizar o dia a dia da família naquele aldeamento. E há imagens inéditas dos McCann a embarcarem no avião rumo a Portugal.

Vários residentes da Praia da Luz também falam no documentário — todos eles britânicos ou pelo menos de origem britânica. Ajudam a explicar a história daquela aldeia piscatória algarvia — que começou por se chamar Nossa Senhora da Luz — que, ao longo das últimas décadas do século XX, foi vendida aos ingleses como um destino paradisíaco de férias (assim como outras regiões do Algarve, na verdade).

No primeiro episódio de “The Disappearance of Madeleine McCann” não há quaisquer alegações sobre o que poderá ter acontecido à criança mas fica no ar que o Algarve era uma zona com algum crime (e violento). A série explica que há bastante tráfico de droga por a região estar apenas a uma viagem de pouco mais de duas horas de Marrocos, o maior centro de produção de determinados estupefacientes que chegam à Europa. O próprio Gonçalo Amaral, o principal investigador na primeira fase do caso, é entrevistado e diz que 80% das apreensões de canábis e haxixe em Portugal são no Algarve. Amaral é o único que fala em português neste capítulo.

A zona mais a sul do País é ainda caracterizada como tendo uma série de gangs internacionais — seja da Europa de leste, dos Balcãs, de França, Reino Unido ou Alemanha — a ter lá operações fixas. Um inglês que vive na Praia da Luz aumenta o misticismo quando diz que aquele é um sítio que atrai pessoas estranhas.

No episódio de estreia é ainda dado destaque aos primeiros jornalistas a chegar ao local. Um deles foi um freelancer inglês que estava a fazer cobertura para vários jornais, entre os quais o “The Sun” e o “The Mirror”. Outra delas é a portuguesa Sandra Felgueiras, enviada especial da RTP, que foi para o Algarve a pensar que seria uma reportagem de dois dias e que Maddie iria aparecer nas horas seguintes.

Sandra Felgueiras descreve que o ambiente era pesado junto do Ocean Club e que a declaração de Gerry e Kate McCann à noite, 24 horas depois do desaparecimento, foi bastante emocional para os repórteres no local.

A série mostra ainda como a comunidade e os turistas se organizaram para fazer algumas buscas nos terrenos e campos da Praia da Luz. Foram distribuídos vários panfletos com uma fotografia da criança. A par disso, a GNR fazia buscas com cães.

No primeiro episódio, Gonçalo Amaral explica que a GNR deveria ter sido chamada mais cedo e que quando chegou, mesmo tarde, teve uma atuação “inadequada” — apesar de negar que tenham agido mal. Amaral diz que houve uma certa leviandade na forma como a GNR lidou com o caso, mas também explica que de acordo com a lei portuguesa um desaparecimento por si só não é um crime, se não existirem provas de rapto. E que por isso não é possível usar todos os procedimentos e técnicas de investigação. O jornalista do jornal “Expresso”, Rui Gustavo, também faz um curto depoimento para explicar e credibilizar a inteligência e talento de Gonçalo Amaral.

O ex-investigador da Polícia Judiciária diz que, quando chegaram ao local do crime, tudo estava virado do avesso e desarrumado — afinal, os McCann e os amigos com quem estavam de férias tinham estado à procura de Maddie por todo o apartamento. Isso fez com que o local fosse completamente contaminado e que se tornasse difícil obter provas. O freelancer britânico explica que, quando chegou ao local, havia uma fita da GNR que avisava as pessoas para não entrarem — mas que não seria difícil de conseguir fazê-lo. Há ainda testemunhos antigos de José Dias, do Turismo do Algarve, que acusa os pais de alguma negligência; e do autarca da altura, Júlio Barroso.

A maior suspeita que vemos neste primeiro episódio tem a ver com um testemunho de uma das amigas dos McCann, a também britânica Jane Tanner, que quando fez uma ronda para espreitar os próprios miúdos terá visto um homem a sair do Ocean Club com uma criança ao colo a dormir, que teria a idade de Madeleine e o cabelo loiro. Poucas ruas depois, um casal de turistas irlandeses terá visto o mesmo homem e deu a mesma descrição à polícia — mas ninguém lhe tinha visto bem a cara.

Também é no primeiro episódio que é contado o início da relação difícil entre os McCann e as autoridades portuguesas. “É a sua primeira vez em Portugal?”, questionou um polícia a Kate. “Sim, mas vai ser a última”, respondeu.

A série documental teve vários portugueses envolvidos na produção e existem reconstituições subtis e bem executadas que ajudam a ilustrar a narração da história. Os oito episódios variam entre os 43 e os 64 minutos, mas a maioria ronda os 50 e poucos minutos.