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Televisão

Vi o “24 Horas de Vida” e fiquei com vontade de vos abraçar a todos

O humorista Miguel Lambertini analisa o novo programa da SIC, que é apresentado por Bárbara Guimarães.
João foi o segundo convidado de Bárbara Guimarães.

Bárbara Guimarães regressou ao ecrã da SIC com um programa que é perfeito para o período de quarentena em que estamos. Agora que todos estamos resguardados em casa — pelo menos aqueles de nós que pudemos aderir ao teletrabalho ou que não somos imbecis — nada como ver 45 minutos de abraços, beijos e gestos de ternura entre seres humanos para nos relembrar que, quando a merda atinge a ventoinha (isto soa melhor em inglês), a única coisa que importa são as pessoas de quem gostamos. 

E se tivesse apenas 24 horas de vida? É a pergunta que Bárbara faz aos seus convidados e que deu o título ao novo formato “24 Horas de Vida”, um programa que me pareceu ter dois objetivos: o primeiro é celebrar a vida; o segundo, não menos importante, é fazer chorar. O convidado, os espectadores, os técnicos, as pessoas que estejam a passar naquele momento na rua, a própria rua, enfim, é aquele toque de magia do diretor de programas da SIC. “Daniel Oliveira, a fazer chorar desde 1981.” O Daniel Oliveira gosta mais de fazer chorar pessoas do que um torturador nos filmes do James Bond. 

Curiosamente, quem até aguenta bastante bem a emoção é a própria Bárbara, que certamente hoje tem mais razões para rir do que para chorar, por isso sempre que pode dá uma gargalhada sonante — e que a partir de agora é o novo alarme do meu telemóvel. 

Como já tinha batido palmas no sábado, 14 de março, à janela, achei que este domingo cantar o hino era demais. A intenção é meritória mas, se a coisa pega, temo que mais dois ou três dias e estamos todos a cantar a “Macarena” ou o “YMCA” para apoiar as forças de segurança (e os índios), por isso optei antes por ficar no sofá a ver este programa da SIC.

João Baião foi o segundo protagonista de “24 Horas de Vida”, embora o convidado que todos gostávamos de ver contar os minutos que lhe restam era o Covid-19, mas infelizmente não há maneira de morrer, sacana do bicho.

Baião recebeu a apresentadora em sua casa, onde vive rodeado de dezenas de cães, mas também lamas, póneis, galinhas e perus. Não querendo estar a criar boatos, quase que ia jurar que vi também o macaco Adriano lá atrás, a fazer uma máquina de lençóis.

Quando Bárbara explicou ao apresentador que tinha 24 horas de vida, João Baião emocionou-se e… começou a chorar. Daniel 1 – João 0. A partir daqui fomos acompanhando as escolhas de João Baião para aproveitar ao máximo as suas últimas horas de vida. “Abraçar as pessoas é onde um homem quiser” diz, enquanto espera pelo irmão no seu local de trabalho.

O irmão chega, abraçam-se e João… chora. Depois liga para a sua irmã gémea (não pude deixar de imaginar um João Baião com cabelo comprido e seios) e explica que tudo o que alcançou foi por causa do apoio da irmã e, enquanto fala, João… chora. Depois, encontra-se com Tânia Ribas de Oliveira, a sua parceira dos tempos da RTP, trocam palavras de carinho e João… chora. Daniel 3 – João 0. Mas tal como chora, no segundo seguinte João já está a rir ou a fazer rir e, para cada momento novo, há sempre uma música que entoa divertido. O homem é uma jukebox humana — ou um Spotify ambulante, para quem nasceu depois do ano 2000.  

Bárbara conduz João Baião até ao Teatro Politeama, onde o ator começou a sua carreira profissional e sentou-o na plateia, para uma surpresa. Foi aí que apareceu em palco Filipe La Féria, que com o seu timbre de tia da Lapa que fuma três maços de SG Lights por dia, conta como conheceu João Baião e como o contratou nessa mesma noite. La Féria é daqueles que dizem “Báião” com acento no “a”, e Rónaldo e já deve estar a preparar o musical “Maldita Bácteria” (eu sei que o Covid é uma doença).

João quis ainda encontrar-se com a atriz e amiga Mané Ribeiro, a quem deixou uma mensagem de apreço e… chorou. Depois encheu-se de coragem e foi enfrentar um dos seus maiores medos, mas como o Iran Costa não estava disponível para cantar “O Bicho”, João teve de enfrentar, em alternativa, o seu medo das alturas, com uma visita ao topo da Ponte 25 de Abril. Ao final do dia, Bárbara levou-o até ao campo, onde à volta de uma fogueira o esperavam Ana Brito Cunha, Alexandra e Maria Rueff, que não se cansaram de tecer elogios ao amigo… que chorou. Daniel 6 – João 0.

“Se o menino Jesus nascesse hoje era o João”, disse Ana Brito e Cunha. Já estou a imaginar João Baião a pregar a Boa Nova: “Dona Almerinda, vá lá fazer um xixizinho rápido que já a seguir eu vou fazer o milagre da multiplicação dos cães, aqui em direto! E já sabe, se quiser ganhar um lugar no reino dos céus só tem de ligar o 760 20 30 20! É ritmo, é animação, é liturgia em movimento, no seu ‘Big Show Jesus’!” Depois de se ter despedido das amigas, não sem antes chorar mais um pouco, Bárbara desafiou João Baião a dormir ao ar livre, numa tenda. Quer dizer, aquilo não era bem uma tenda. Era um hotel em forma de tenda onde cabiam os cães todos do João e mais três ou quatro lamas.

De manhã, Bárbara foi ter com ele e tomaram o pequeno-almoço, que foi preparado de surpresa pela D. Alzira. “E quem é D. Alzira?”, pergunta Bárbara Guimarães. Dona Alzira é uma velhota muito simpática, amiga de longa data e que aproveitou o momento para dar um puxão de orelhas ao menino João: “Tens-te esquecido de me telefonar, por isso tive de te procurar”. Toma lá que já pequeno-almoçaste.

A poucas horas de terminar o dia, Baião quis visitar a sobrinha Cláudia, que está grávida e, vai-se lá saber porquê, estava a fazer uma ecografia em casa. João olha para o ecrã e diz que não percebe nada do que está a ver. Bem-vindo ao clube, João, eu tenho dois filhos, por isso já assisti a várias ecografias e posso confirmar que houve alturas em que a médica explicava: “Está a ver, aqui é a bexiga do bebé, e aqui estão os pulmões”. Eu sentia que estava num museu a olhar para um quadro do Pollock, mas acenava que sim com a cabeça para não parecer completamente idiota. 

João quis completar as suas últimas 24 horas com um passeio de bicicleta junto do mar e, quando menos esperava, apareceu por trás o seu querido sobrinho Luís Carlos. E, claro, nesse momento o João… deu-lhe um calduço e disse “isto são horas para estar na rua, já para casa!” Mentira, o João abraçou-o e… chorou. Daniel 9 – João 0. Depois, em jeito de epílogo, deixou uma mensagem: “Não deixem nunca de abraçar as pessoas que são importantes na vossa vida.”

Quando a gravou, João Baião não imaginava seguramente o momento de isolamento forçado que aí viria, mas é curioso como hoje uma frase tão simples tem um significado tão relevante. E completou: “Termino como dizia o grande mestre Raul Solnado: façam o favor de ser felizes.”

Eu acrescento: e fiquem em casa, porra! Porque quanto mais cedo vencermos este momento difícil, mais cedo poderemos dar “aquele” abraço forte, que já todos começamos a sentir falta. Que o resultado final seja Daniel/João/Portugal 10 – Covid 0.