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“Tu”, a série que toda a gente anda a ver é perturbadora — mas super viciante

É um thriller psicológico com traços de “Dexter” e “Em Parte Incerta”. A primeira temporada está na Netflix.
A primeira temporada tem 10 episódios.

Estreou em setembro nos Estados Unidos mas só no início do ano é que se começou a falar de “Tu” um pouco por todo o mundo. O motivo está no facto de a Netflix, detentora dos direitos internacionais de transmissão, ter disponibilizado a primeira temporada na plataforma a 26 de dezembro.

À medida que iam avançado na história, os espectadores foram multiplicando as reações online. Muitos deles descreveram-na como a “série mais estranha de sempre”. Ao mesmo tempo torna-se tão viciante que é impossível largá-la antes de terminar os dez episódios.

Há motivos para isso: o argumento parece feito de propósito para os fãs da mente retorcida e da luta entre o bem e o mal de “Dexter”, para aqueles que adoraram o ambiente sinistro de “Em Parte Incerta” e para quem prefere conteúdos light ou dramas adolescentes, como “Gossip Girl”.

Quem já está rendido, é provável que nem tenha conseguido adormecer bem esta segunda-feira, 7 de janeiro. “Este título não está disponível para ver instantaneamente. Por favor, tente ver outro título” foi a mensagem que invadiu todos os ecrãs desde segunda à noite. Não interessava mudar de utilizador, conta ou dispositivo, a anomalia era sempre a mesma e apenas existente neste conteúdo. O problema era da parte da Netflix e a plataforma resolveu-o em menos de 24 horas, o que significa que “Tu” já pode novamente ser devorada de uma ponta à outra sem interrupções.

Comecemos pela história. Joe Goldberg (Penn Badgley) é gerente de uma livraria em Nova Iorque. Quando Guinevere Beck (Elizabeth Lail) entra na loja pela primeira vez, ele apaixona-se imediatamente. Apaixonar não é bem o verbo mais correto porque Joe, descobrimos logo na estreia, é um psicopata. É o que ele é, sem rodeios, por mais que nos esqueçamos disso de vez em quando. Joe até parece um tipo porreiro — pelo menos nos momentos de interação com o miúdo vizinho, Paco, negligenciado pela mãe e mal tratado pelo padrasto.

Afeiçoamo-nos à personagem, embora tenhamos à nossa frente escarrapachados todos os comportamentos doentios. Até esses vamos tolerando porque vão aparecendo também explicações do passado para aquilo que ele é agora. Tudo isto faz de Joe um protagonista tão rico e complexo (e Badgley é muito convincente naquilo que transmite), que queremos odiar mas que nos fascina ao mesmo tempo. Só era escusada tanta narração em voz off.

A sequela, “Hidden Bodies”, vai dar origem à segunda temporada

Beck (é assim que ela pede para ser tratada) quer ser escritora, de poesia sobretudo. Foi para Nova Iorque para “alcançar algo” mas anda um bocado perdida e acaba por ter uma vida de faz de conta, com amigas que nada têm a ver com ela e demasiado tempo perdido nas redes sociais.

Entra em cena o príncipe encantado Joe — ou pelo menos é assim que ele se vê. Claramente não sabe a diferença entre amor e obsessão e rapidamente descobre o que deve e não deve sobre Beck.

Tudo começa com uma simples pesquisa online a partir do nome dela. Joe já deve ter prática a vasculhar vidas alheias porque em pouco tempo sabe mais sobre a vida da rapariga do que ela própria. Vigia-a, segue-a constantemente (e basta um boné para se disfarçar), vasculha-lhe a casa, leva roupa interior dela, invade-lhe o computador e rouba-lhe o telemóvel.

“Tu” tem muitas imperfeições. Arrisca-se várias vezes a ser aquilo que já vimos dezenas de vezes em séries de jovens adultos (a protagonista estagnada na vida e numa espécie de relação amorosa sem futuro, o homem novo que chega para dar-lhe o valor que ela merece, as amigas fúteis que só pensam em copos) mas a verdade é que nunca deixa de ser empolgante. É impossível desistir a meio e não ter uma vontade quase tão doentia como a de Joe de saber o que se passa na cabeça dele ou que vai fazer a seguir. Além disso, a produção consegue ter momentos de comédia que fazem todo o sentido, como através do pateta Benji (Lou Taylor Pucci), um riquinho que acha que descobriu o negócio do século com a ideia de comercializar refrigerantes artesanais.

O thriller psicológico baseia-se no livro com o mesmo nome de Caroline Kepnes e há uma sequela, “Hidden Bodies”, que vai dar origem à já confirmada segunda temporada. A série não é originalmente da Netflix, mas sim do canal Lifetime. Adaptada por Sera Gamble (produtora de “Sobrenatural” e “Aquarius”) e Greg Berlanti (“Riverdale”, “The Flash”), a ideia começou a ser desenvolvida para televisão logo depois da publicação da obra.

Em 2014, Kepnes (que até aí tinha sido jornalista de cultura pop na revista “Entertainment Weekly” e guionista na série “7th Heaven”, com Jessica Biel ainda adolescente) assinou contrato com uma editora para escrever dois livros. Logo nessa altura foi publicado “You” (“Tu”). Foi finalista do CWA New Blood Award e mereceu comentários de Stephen King que o descreveram como “hipnótico”. “Hidden Bodies” chegou em 2016 e “Providence” em junho de 2018. Nenhum deles está traduzido em português.

A história de “Tu” cumpre os principais objetivos: entreter, questionar, entusiasmar. No fundo, é só isso que é preciso para fazer boa televisão.

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