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Televisão

“Toy Boy” é uma novela mexicana cheia de clichés (e personagens exageradas)

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa uma das mais recentes (e populares) séries da Netflix.
No total são 13 episódios.

Agora que estamos todos em casa a pôr finalmente em dia a leitura daquelas obras essenciais que sempre dissemos que íamos pegar quando tivéssemos tempo, gostava de aproveitar este espaço para propor alguns clássicos intemporais que são obrigatórios para qualquer apreciador de literatura. “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, é um romance dividido em sete volumes que o autor escreveu ao longo de catorze anos.

Não, agora a sério, se estão à procura de uma nova série para começar a ver na Netflix, esta crónica pode ajudar a decidir se continuam a insistir em dar uma hipótese a “Os Otomanos” — sabe Deus porquê — ou se, pelo contrário arriscam uma nova escolha. “Toy Boy” é uma das séries mais vistas da plataforma de streaming nos últimos tempos (estreou a 28 de fevereiro) e conta a história de Hugo Beltran (Jesús Mosquera), um stripper condenado por um crime que nega ter cometido.

Depois de sete anos encarcerado numa prisão em Málaga, sai em liberdade condicional, decidido a provar que a amante o incriminou pelo homicídio do marido. Podia ser a sinopse da nova novela da TVI, que teria um nome como “Justiça Despida” ou “Enchumaço Indomável”, mas não, é a sinopse de “Toy Boy”, uma série espanhola de 13 episódios.

Eu vi o primeiro capítulo e como já tinha gasto o gel desinfetante todo cá de casa, achei por bem ficar-me por aí. Se colocássemos numa Bimby os filmes “Magic Mike”, “As Cinquenta Sombras de Grey” e todas as séries policiais manhosas dos anos 90, no final saía esta trama recheada de clichês e personagens exageradas.

O primeiro surge logo no arranque do episódio, quando o grupo de stripers de que faz parte o protagonista irrompe por uma festa de quarentonas adentro, simulando que se trata de uma rusga policial. Só faltava alguém dizer: “Senhor agente, isso debaixo das suas calças é o cacetete ou está contente por me ver?” Segue-se uma cena de dança coreografada onde os Mossos d’Esquadra levam as convidadas ao rubro e terminam com o clássico arrancar de calças, que desvenda as suas cuequinhas de fio dental. Não creio que algum dia venha a ser adepto deste tipo de roupa interior, até porque não tenho rabo — peço todos os anos no Natal e nunca recebi — mas não posso deixar de pensar no jeitaço que umas calças dessas devem dar. 

Naquelas situações de aperto intestinal em que estamos fora de casa e achamos que não vamos conseguir chegar a tempo à retrete, podem muito bem fazer a diferença entre mantermos a nossa dignidade intacta ou gerarmos uma memória traumática. Para não falar em situações de intimidade, em que é sempre muito difícil um homem não parecer ridículo a despir um par de calças. Eu normalmente fico sempre ali um bocado aos saltinhos a tentar passar o pé pelo buraco, depois desequilibro-me, caio e mato por completo a réstia de clima de romance que ainda poderia existir. Desconfio que o Clark Kent, além de jornalista, era também stripper à noite, porque ninguém, por mais poderes que tenha, consegue despir-se e vestir um fato de Super-Homem numa cabine telefónica em três segundos.   

Como em todas as novelas mexicanas, em “Toy Boy” também há uma vilã, Macarena Medina, uma trintona que conduz carros de luxo e é CEO da empresa da família, uma das mais influentes da região. É Macarena quem leva Hugo a uma festa estilo “De Olhos Bem Fechados”, onde depois de muita droga e sexo descomprometido a coisa descamba e Hugo acorda no seu barco, com a camisa cheia de sangue e um cadáver decapitado a arder. Eu quando acordo de ressaca já me faz confusão sentir o cheiro a tabaco na roupa, imagino o que será acordar com a roupa cheia de nódoas de sangue e aroma a churrasco de picanha humana. Para não falar na trabalheira que dá ter de limpar dezenas de garrafas de mini que alguém acha sempre que dão um ótimo cinzeiro, enquanto tentamos perceber em que ponto da noite é que alguém se lembrou que o que seria mesmo divertido era decapitar e imolar o Zé Carlos.

Neste caso o striper já não foi a tempo de limpar nada porque a Polícia Marítima levou-o preso para a cadeia, onde acabou por ficar sete anos a cumprir pena. Mas com a ajuda de uma advogada júnior de aspeto inocente com quem claramente se vai enrolar, Hugo vai tentar provar a sua inocência e vingar-se de todos aqueles que o acusaram injustamente. 

Para ganhar dinheiro e ajudar o amigo nesta sua causa, o grupo de strippers volta a reunir-se para atuar na noite de Marbella e é assim que voltamos a ver em palco o stripper mais velho, o stripper negro, o stripper latino e o stripper mudo. Sim, um deles é mudo… e prostituto. Se isto não é incentivo suficiente para largarem já o Microsoft Teams e ligarem a Netflix, não sei o que é.