NiTfm live

Televisão

“This Is Us”: a felicidade está no carpe diem (e nos discos de vinil)

O novo episódio trouxe-nos Joni Mitchell, cartões de baseball e a importância de aproveitar a vida, antes que nos esqueçamos.
Na casa de Joni Mitchell.

Há tantos detalhes e significados escondidos em cada recanto de “This Is Us” que começa a parecer essencial ver a série com um bloco de notas à mão. E nem é para escrever este artigo; é mesmo para conseguir apanhar todas as nuances ou ter tempo de as interiorizar. “Clouds”, o episódio da quarta temporada que passou esta quinta-feira 27 de fevereiro na Fox Life, é um exemplo supremo disso: do mundo de detalhes que é a produção de Dan Fogelman.

As nuvens do título, para começar, são as mesmas do álbum homónimo, “Clouds”, de Joni Mitchell — e que este capítulo traz para o centro das atenções. O disco surge entre uma habitual viagem nostálgica e com destaque para o seu tema supremo, já considerado por vários meios como um dos melhores de todos os tempos — certamente um dos mais tristes — “Both Sides Now“.

Se viu o episódio e na cena da loja de discos estava a pensar que reconhecia a musica de algum lado (assumindo que não é um mega fã de Mitchell e até a sabe de cor), tem razão: entre outras obras, foi também tocado num importante momento do filme “O Amor Acontece“; onde, tal como Rebecca, a personagem de Emma Thompson tinha tido em Joni Michtell uma heroína, um guia musical para a vida — e escutava “Both Sides Now” num momento de tristeza que se tornou icónico.

Em “This Is Us”, Mitchell foi, então, uma influência marcante para Rebeca Pearson. Tão importante, que, neste “Clouds”, ela recorda-se de quando foi a Los Angeles pela primeira vez com Jack e andou à procura da casa onde a compositora viveu — e onde terá escrito o seu disco mais visceral.

Mitchell tinha 20 e poucos anos quando criou canções que marcaram gerações inteiras; Rebecca teria a mesma idade quando procurou a sua casa, talvez com esperança de conhecer o seu ídolo, sem no entanto o conseguir. No presente, enquanto esperam pelo resultado da ressonância magnética que vai dizer se a matriarca Pearson tem ou não Alzheimer, Becca partilha com o filho Kevin esta história e percebe depois que hoje em dia tudo está mais fácil: com a ajuda do ator, da inteligência artificial de Siri e do Google Maps, chegam aquela casa no instante e é um novo banho de nostalgia.

Rebecca sabe que é provável que algo se passe com o seu sistema cognitivo e que a memória lhe comece a fugir. Sente que virão tempos difíceis — as tais nuvens, do disco e do episódio —, mas por agora só quer viver, aproveitar e até esquecer. E fá-lo na melhor companhia: Kevin.

A dado ponto, explica mesmo ao filho: ele não tem de se sentir mal por supostamente ser sempre aquele da família menos sério, ou até menos confiável. E isto porque ser, e ter, essa pessoa não é só importante, é crucial: é aquele que nos sabe sempre fazer esquecer quando as coisas estão difíceis, ou quando estão prestes a ficar.

Depois, conta-lhe a história de outro tema icónico na historia da música: “Our House“, de Crosby, Stills & Nash, composto por Graham Nash naquela casa, quando lá viveu com a então namorada… Joni Mitchell. E assim nasceu, no momento temporário de felicidade perfeita do casal de músicos, o “our house; is a very, very, very fine house; with two cats in the yard; life used to be so hard; now everything is easy, cause of you”.

Neste episódio, acompanhamos o regresso a casa e à vida dos Três Grandes (Kevin, Randall e Kate) depois do fim de semana na cabana de campo dos pais. Ali foram abertas cápsulas do tempo, revelados segredos, feitas confissões, vividas catarses. Agora em suas casas — Randall em Filadelfia, Kate e Kevin em LA — há que saber o que fazer com o que foi partilhado e aprendido.

Randall aprendeu que não há cabana que o faça desligar do stress e ansiedade constantes, extrapolado pelo momento em que encontrou um ladrão em casa — e pelo stress de acompanhar a doença da mãe. Por isso, decide finalmente procurar ajuda e visitar uma terapeuta.

A hora passada entre o vereador e a sua psicóloga, ainda que intercalada constantemente com outros momentos e flashbacks, seria hilariante se não fosse tão crua e verdadeira: numa sucessão dos tais detalhes, percebemos como a mente de Randall funciona rápido, como o seu stress é absolutamente incontrolável ao ponto de questionar a própria terapeuta — e a sua sala, o que ela diz, o que não diz, o tipo de revistas que tem na sala de espera, o tempo que o fez esperar, a máquina de café que não desliga.

Randall também não desliga, é um facto, e acaba por abandonar a terapia. Mas quando chega a casa e o partilha com a mulher, percebe que também Beth está a passar por tempos difíceis depois do assalto, e que já não dá para adiar: Randall tem de tentar ficar melhor, porque não há como ser sempre a pessoa ansiosa, quando a nossa pessoa também precisa de nós.

Num dos tais detalhes percebemos, num momento colado à terapia de Randall, a partilha de Rebecca com Kevin sobre o facto de ele ser importante na sua capacidade de alegrar tudo; enquanto Randall o criticava à psicóloga por ele ser assim e cair tudo nos seus ombros. Um demasiado sério, outro demasiado leve: afinal qual será aqui defeito — e qual a qualidade. 

Quanto a Kate, o seu regresso a casa corre bem melhor do que a própria esperava: Toby reagiu tão bem ao primeiro fim de semana a solo com o bebé Jack que já parece perfeitamente enturmado na paternidade, consciente de que foi precipitado ao sentir que não seria capaz, e até cria um estúdio de música para mãe e filho ensaiarem. Kate acha tudo demasiado rápido, mas em conversa com a amiga Madison percebe que não há como estar sempre na defesa e a duvidar do marido: se ele viu a luz e quer estar e ajudar, a ajuda será bem vinda.

Já Kevin é então convidado a passar o dia com a mãe Rebecca, nas horas que antecedem o seu diagnóstico. Entre uma visita a uma loja de discos de vinil e a descoberta da tal casa de Joni Mitchell, o ator percebe que a sua mãe, auto intitulada agora de “Rebecca Carpe Diem” por estar a tentar aproveitar a vida mais do que nunca, é mais divertida do que pensava. 

Pelo meio, os constantes flashbacks de infância levam-nos à pré-adolescência dos filhos Pearson, no dia em que recebem os seus boletim escolares. E claro, às reações tão típicas de cada um: Randall irritado porque recebeu um A- ; Kate com notas boas mas mais preocupada em sentir-se insegura por causa de um namorado; Kevin a querer — não, exigir —  ser recompensado por ter duas notas boas, apesar de as outras não serem nada famosas. 

No dia dos boletins de notas.

O rapaz consegue a muito custo convencer a mãe a ir à loja de cartões de baseball para gastar o dinheiro que ela lhe prometera caso as notas subissem; Becca e filho acabam por passar uma tarde divertida daquelas de “lembrar para sempre” e ai percebemos que, já desde cedo, ele era o que a mãe diz: aquele que alegra tudo.

De volta ao presente, Kevin e Miguel juntam-se a Rebecca para os resultados dos testes. Ela tem mesmo um comprometimento cognitivo leve, provavelmente ligado a Alzheimer; e após a consulta, apenas pede ao filho que nunca a trate de maneira diferente: que não deixe de alegrá-la.

Finalmente, no flashback daquela vez de Jack e Rebecca em Los Angeles, Jack olha para a mulher enquanto ela canta o que seria a vida deles: “our house; is a very, very, very fine house; with two cats in the yard; life used to be so hard; now everything is easy, cause of you”.