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“The Stranger” tinha potencial, mas tornou-se uma novela sem sentido

A minissérie de thriller britânica estreou recentemente na Netflix e tem oito episódios.
A série estreou a 30 de janeiro.
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“The Stranger” prometia. A minissérie britânica da Netflix tinha uma história com potencial, envolta em vários mistérios, com momentos de suspense e tensão — e todos estes acontecimentos bizarros se desenrolavam numa qualquer pequena cidade. 

Desde “Breaking Bad” a “Fargo”, passando por “Ozark”, entre tantas outras produções, nós, espectadores, gostamos destas histórias em que pessoas comuns, com que nos podemos facilmente identificar, dão por si envolvidas em circunstâncias extraordinárias.

É precisamente isso que também acontece em “The Stranger” — e algo que é habitual nas obras do escritor Harlan Coben, cujo livro homónimo deu origem a esta série. Coben também é um dos produtores executivos nesta adaptação televisiva. A minissérie estreou na Netflix a 30 de janeiro e tem oito episódios — cada um com cerca de 45 minutos, o que dá um total de cerca de seis horas. Pode parecer ideal para se devorar numa tarde, mas confessamos que o ritmo se torna aborrecido.

A narrativa acompanha o protagonista Adam Price (Richard Armitage, que não deve ser confundido com Daniel Oliveira, da SIC), um advogado de classe média alta e pai dedicado que vê a sua vida completamente transformada de repente. Certo dia, depois de um jogo de futebol dos miúdos — tem dois filhos que jogam no clube local — uma estranha que nunca viu na vida aborda-o inesperadamente.

Esta mulher estranha, que dá nome à história, diz-lhe que a última gravidez da sua mulher, Corrine (que aconteceu há um par de anos e que resultou num aborto espontâneo), foi totalmente falseada pela sua mulher. Adam não quer dar ouvidos àquela pessoa, mas ela dá-lhe indícios para ele explorar e conseguir comprovar as suspeitas.

Adam acaba por confrontar Corrine — inteligente, divertida e o amor da sua vida — com este facto. E a mulher nunca o nega, simplesmente remetendo explicações para mais tarde, e depois desaparecendo de forma misteriosa.

Ao longo de quase toda a minissérie, Adam tenta perceber onde está a mulher e porque é que ela desapareceu depois de ele descobrir aquela falsa gravidez. Tem muitas dúvidas sobre que caminho tomar, a quem pedir ajuda e se deve ou não colaborar com a polícia, que simplesmente podia descartar o caso como uma mulher que se quis afastar do marido.

Ao mesmo tempo, outro acontecimento bizarro passa-se naquela pequena cidade. Uma alpaca de uma quinta local aparece decapitada, vítima de um adolescente demasiado drogado depois de uma rave na floresta. É entre as árvores e junto do lago que também é encontrado um dos jovens que estavam na festa, completamente nu e ferido. Há demasiadas coincidências nisto tudo.

A polícia suspeita que os dois incidentes só podem estar relacionados — e eventualmente a investigação pelo desaparecimento de Corrine também se mistura com este caso. Tal como o único processo em que Adam está a trabalhar enquanto advogado: tentar impedir que uma demolição num antigo bairro aconteça porque há um morador resistente que não quer abandonar a sua casa de sempre. E quem é o dono da empresa que quer construir o novo empreendimento? O pai de Adam. E podíamos continuar e continuar, não fossem os spoilers.

Sim, “The Stranger” acaba por ser semelhante a uma novela — todas as personagens se conhecem umas às outras, quase todas guardam segredos, existem laços secretos entre elas, têm casas demasiado grandes e luxuosas para os seus empregos, e os resultados dos avanços e recuos no enredo são, muitas vezes, francamente desapontantes e nada lógicos. Os temas, por muito dramáticos que sejam, são tratados com leviandade na maior parte dos casos.

Desde os polícias aos miúdos na escola e passando pelo clube de futebol, cada vez que Adam dá um passo em frente na procura pela mulher, tropeça numa nova subhistória ou pista aparentemente nada relacionada que origina um novo mistério que, no fim, muitas vezes acaba por não ser minimamente relevante para a narrativa. Até ao final de “The Stranger” estamos a ser bombardeados com novos dados e mistérios para o enredo que rapidamente são revelados e muitas vezes escondem informações inúteis. E o problema é que se trata de um palheiro sem agulhas.

Mesmo a linha principal da história, e os acontecimentos diretamente relacionados com o desaparecimento de Corrine, culminam num final totalmente frouxo, sem um sentido lógico e realista — algo obrigatório para, lá está, boas séries de pessoas comuns em circunstâncias extraordinárias. Temos que valorizar, contudo, algumas boas interpretações, nomeadamente a do protagonista Richard Armitage, e a realização da série.