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Tal como “A Rede”: “Também me roubaram a identidade no Facebook”

Em 2012, uma mulher usou as fotos pessoais da repórter da NiT, Sara Chaves, para seduzir um jogador da Seleção Nacional.
A minha foto de perfil no Facebook em 2012.

O meu WhatsApp não parou de tocar na noite desta terça-feira, 29 de janeiro. Eram as minhas amigas que, excitadíssimas, quase que exigiam que visse a reportagem “A Rede”, coordenada por Conceição Lino e que estava a passar na SIC. “Miúda, lembrei-me logo da tua história. Vais ficar incrédula.” 

As minhas amigas referiam-se à história de Nuno Ramos que foi seduzido por uma mulher que roubou as fotos de uma amiga no Facebook para criar uma personagem falsa e falar com ele sobre os pormenores mais íntimos das suas vidas ao longo de um ano. Os três episódios da reportagem da SIC revelaram como essa professora primária construiu uma rede de figuras interpretadas por si e que mantinham contactos com vários desconhecidos reais através da rede social. No final, as vítimas deste embuste descobriram a identidade verdadeira da mulher e apresentaram queixa no Ministério Público. Ela foi condenada a pagar 400€ a Cláudia Marinho, a quem roubou as fotografias do Facebook; 250€ a Nuno Ramos; e a pedir desculpas pessoais a todos os envolvidos. 

“A Rede” deixou o País em choque nos últimos dias. Para mim, foi ainda mais difícil assistir ao sofrimentos destas pessoas. Até porque já me aconteceu uma situação semelhante. 

No verão de 2012, num dia em que estavam seguramente mais de 30 graus, eu fui com as minhas amigas para a praia, em Galapos, na serra da Arrábida. A meio da manhã, dois rapazes que nenhuma de nós conhecia sentaram-se nas toalhas a poucos metros. Na altura, reparei que um deles passou o tempo todo a olhar para mim. Eu ia até à beira-mar, ele aparecia ao meu lado. Sempre em silêncio. Comecei a sentir-me sufocada. À tarde, depois de falar com as minhas amigas sobre aquele assédio, decidimos ir embora. Eu tinha apenas 22 anos, por isso, não quis dar mais importância ao assunto. Pensava que tinha sido só um caso infeliz.  

O problema é que nessa mesma noite voltei a sair com as minhas amigas à noite. Fomos à inauguração da Delmar, uma discoteca numa das praias da Costa da Caparica. Por coincidência, o rapaz da praia estava novamente lá. Sim, a olhar para mim. Sempre colado a mim. 

A certa altura senti alguém tocar-me nas costas. Era ele. Seguiu-se esta conversa surreal. 

Ele: Só podes estar a gozar comigo.
Eu: Desculpa? Acho que te enganaste na pessoa. 
Ele: Mas continuas a gozar? Passo o dia inteiro a olhar para ti para ver se vens ter comigo e finges que não me conheces. Chego a casa e vou falar contigo no Facebook, pedes-me desculpa e prometes que não vai acontecer mais. Agora encontro-me contigo aqui e fazes o mesmo? Não pode ser, Ana. Assim não dá. 
Eu: Ana? Vês como estás enganado? O meu nome é Sara. 

Quando pensava que aquele rapaz — mais tarde descobri que jogava num dos três clubes grandes do futebol português e hoje é titular da Seleção Nacional — estava apenas a confundir duas mulheres, ele pegou no telemóvel e mostrou-me o tal perfil no Facebook. As minhas fotografias pessoais estavam lá sob o nome de Ana Dominguéz Corté-Real. 

Eu não queria acreditar. O perfil era super ativo, aquela pessoa mantinha várias conversas em simultâneo no mural, publicava dezenas de fotografias minhas e da minha mãe e ainda comentava os outros perfis. 

Perante aquele cenário, e para provar a minha inocência, chamei as minhas amigas para a conversa. E mostrei-lhe o meu Cartão do Cidadão. Naquele momento senti exatamente o que a Cláudia Marinho descreveu na reportagem da SIC: estava a olhar para os olhos de um homem desiludido e que estava a recapitular mentalmente todas as conversas íntimas que mantivera nas últimas semanas. O nosso encontro acabou ali. Ele foi-se embora, agastado. 

Eu também me senti enganada, como é óbvio. Denunciei aquele perfil falso à administração do Facebook e pedi a todas as pessoas que faziam parte daquela rede para fazerem o mesmo. Pensava que o assunto tinha terminado. Mas não. 

Dois anos depois, no dia 25 de outubro, às cinco da manhã, recebo uma mensagem no meu perfil de uma rapariga que tinha trabalhado como promotora comigo há poucos meses. Ela era do Porto, eu vivia em Setúbal. 

“Sara, estás acordada? É super importante. Tens mais alguma conta de Facebook?”. Retomei a conversa na manhã seguinte, não sem antes pensar que podia vir aí história de novo. Vinha mesmo. A minha amiga tinha encontrado um perfil com o mesmo nome falso “Ana Dominguéz Corté-Real”, mas só com fotografias minhas. Mais grave ainda: “Achei por bem avisar-te porque está também a usar fotografias da tua irmã pequenina e do André [o meu namorado].” 

Pedi-lhe imediatamente o link, mas não conseguia aceder. A tal pessoa tinha-me bloqueado para que eu não pudesse encontrasse a conta. Através do Facebook dos meus colegas [na altura já era jornalista], consegui ver finalmente o seu perfil. Foi realmente assustador. A suposta Ana vivia no Porto, tinha mais de 500 amigos naquela conta, que alimentava todos os dias com publicações, comentários e fotografias minhas e de toda a minha família. Muitas delas estavam apenas no meu Instagram, uma conta privada em que tinha poucos seguidores. 

Para tornar tudo mais real, essa pessoa criou outro perfil falso no Facebook com fotos da minha mãe e usava essa conta para falar com ela em público.  Poucos dias antes, as duas personagens criadas por essa mulher anunciaram que eu estava grávida e que iria revelar mais novidades em breve. Quando li e percebi a dimensão de tudo isto, entrei em pânico.

Por isso, decidi apresentar queixa na Polícia Judiciária naquele mesmo dia. Estive lá cerca de duas horas a contar todos os pormenores que, infelizmente, eram muito poucos. O inspetor perguntou-me se desconfiava de alguém, se existia uma ou mais pessoas que me quisessem fazer mal. Disse que não. Era a realidade. Por mais que pensasse sobre isso, não conseguia chegar a nenhuma pista. 

O assunto ficou assim, pendurado. Em 2016, recebi finalmente uma carta do Ministério Público a indicar que o processo fora arquivado. Sem condenações — ou sequer suspeitos. Nunca quis ser indemnizada, nem sequer preciso de ouvir um pedido de desculpas. Só gostava mesmo de saber quem é que me fez isto.