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“Houve quem me dissesse que a série deu força para sair de uma relação tóxica”

A NiT entrevistou a atriz brasileira Mel Lisboa, de "Coisa Mais Linda", um dos mais recentes sucessos da Netflix.
Foto de Aline Arruda/Netflix.

Após cinco meses de castings, a atriz Mel Lisboa soube que tinha sido escolhida para “Coisa Mais Linda” — a mais recente série brasileira a fazer parte do catálogo da Netflix. Tinha a certeza de que seria uma das protagonistas mas não sabia exatamente qual delas iria interpretar. Seguiram-se testes, ensaios, experiências, sempre saltitando de personagem em personagem para perceber qual das atrizes seria mais adequada para cada papel. No final, foi aprovada para ser Thereza, uma mulher independente e bem à frente do seu tempo.

O drama de época estreou a 22 de março e acompanha o aparecimento da Bossa Nova — no final da década de 50 — através da trajetória de quatro super mulheres: Malu (Maria Casadevall), Adélia (Pathy Dejesus), Thereza (Mel Lisboa) e Lígia (Fernanda Vasconcellos).

A história começa quando Maria Luiza (Malu) deixa São Paulo e viaja para o Rio de Janeiro para morar com o marido e abrir um restaurante. Ao chegar à famosa cidade maravilhosa, descobre que o companheiro fugiu com a amante e roubou todas as economias do casal.

Numa sociedade machista e preconceituosa, cada uma das quatro protagonistas enfrenta um aspeto diferente da desigualdade de género. Malu, por exemplo, é deserdada pelo pai após decidir ficar sozinha no Rio de Janeiro e transformar o restaurante num clube de música. Deixa o filho na casa dos pais e sofre por causa da distância.

Adélia também é mãe e mora numa favela. Solteira, negra e pobre, divide-se entre o trabalho de empregada doméstica e os cuidados com a filha. A sua vida ganha um novo rumo ao tornar-se sócia de Malu. Lígia faz parte da alta sociedade carioca. Com uma voz bonita, sonha ser cantora, mas o marido não aceita a profissão.

Thereza é a única do grupo que experimenta um pouco mais da liberdade. Jornalista, viveu em Paris durante alguns anos e tem um casamento aberto. Apesar disso, na redação da revista feminina onde trabalha, é a única mulher a escrever na publicação.

Ao longo dos sete episódios da primeira temporada, a série usa o passado para refletir sobre o papel das mulheres no presente e traz para a discussão temas como machismo, racismo e relacionamento abusivo.

Como bónus para o público, “Coisa Mais Linda” tem uma fotografia incrível e uma banda sonora que faz homenagem ao samba, à bossa nova dos anos 60 e a cantores renomados como Chico Buarque e Tom Jobim.

A NiT falou com a atriz Mel Lisboa sobre a participação na série, a preparação para a personagem Thereza e a expetativa para a segunda temporada que, embora muito aguardada, ainda não foi confirmada pela Netflix.

Como é que a Mel conseguiu o papel de Thereza?
Conversei com a produtora de elenco, Renata Kalman, e com o realizador, Caito Ortiz, e fiz muitos testes. As mulheres do elenco experimentaram papéis de diferentes personagens. Por uma questão óbvia, eu não poderia fazer de Adélia, mas houve uma altura em que a Thereza podia não ter sido interpretada por mim. Na versão final aprovada pela Netflix norte-americana, fiquei com a Thereza.

Quanto tempo demorou o processo inteiro, desde os primeiros testes até à estreia de “Coisa Mais Linda”?
O primeiro teste foi em dezembro de 2017. Em abril ou maio de 2018, o elenco foi aprovado e filmamos entre junho e outubro desse ano. Quando anunciaram que a estreia estava prevista para março de 2019, fiquei surpreendida. A série é lançada em 190 países em simultâneo e há um trabalho intenso de dobragem e legendagem. A pós-produção da Netflix é complicada, mas deu tudo certo.

Em que é que a Mel se inspirou para compor a personagem?
Para construir a personagem, fiz uma manta de retalhos. Inspirei-me na Simone de Beauvoir, porque numa génese da personagem, a Thereza teria sido amiga dela em Paris. Então, ela carrega toda a filosofia da Simone, o feminismo, o liberalismo e o existencialismo. Também tem algumas caraterísticas da escritora Clarice Lispector, pelo facto de ser escritora e de ter trabalhado numa revista. Para perceber melhor o que era ser mulher na década de 50, também conversei com minha avó. O meu avô tinha uma outra família, ela sabia e manteve o casamento mesmo assim. Além disso, vi filmes, documentários e procurei informações em livros.