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Rodrigo Santoro: “Todos os atores de ‘Westworld’ querem ter a minha roupa”

A NiT entrevistou o ator brasileiro que interpreta Hector na série da HBO que já tem duas temporadas.
Em "Westworld", o ator é Hector.

Já o vimos transfigurado em “300”, foi Jesus no “Ben-Hur” do século XXI, estreou-se internacionalmente em “Love Actually” e conhecemo-lo ainda por várias novelas e séries brasileiras. Mas nos últimos três anos Rodrigo Santoro tem sido sobretudo reconhecido como uma das principais estrelas de “Westworld”.

Nesta série criada em 2016, interpreta Hector, um host — que se pode traduzir como robô com inteligência artificial que parece um humano — do parque temático de Westworld, onde as pessoas pagam bilhetes caríssimos para fazerem tudo o que quiserem.

Ele é o bandido mais procurado daquela terra, um cowboy com teorias filosóficas que acredita que deve ser um predador. Na segunda temporada da série a personagem tem vindo a ganhar consciência e a humanizar-se — está muito próximo de Maeve (Thandie Newton).

A NiT entrevistou o ator brasileiro Rodrigo Santoro com um conjunto de outros jornalistas, na sequência da primeira conferência de imprensa da HBO Portugal. As duas temporadas de “Westworld” estão disponíveis nesta nova plataforma de streaming.

No que é que o Rodrigo se identifica mais com esta personagem?
É difícil comparar porque ele é um host com inteligência artificial. Mas gosto muito de andar a cavalo e o Hector também. Aí encontramo-nos [risos]. Sempre montei a cavalo, desde muito pequeno, o meu avô tinha uma fazenda. E isso foi muito divertido.

Como é que reagiu quando descobriu como era esta personagem?
Há quatro anos não tinha a intenção de ter um compromisso assim tão longo. Fiquei muito impressionado quando li o episódio piloto e tive uma conversa por Skype com os criadores, o Jonathan Nolan e a Lisa Joy. Fiquei absolutamente convencido. Assim que terminei, fiquei: uau, que presente, obrigado, Senhor. Vamos trabalhar. Naquela altura, não sabia quem fazia parte do elenco. Depois começaram a mandar-me os nomes dos atores e fiquei impressionado: e não falo dos nomes mais famosos como o Anthony Hopkins ou o Ed Harris, mas do Jeffrey Wright, por exemplo, que é um ator que já acompanho desde os primeiros filmes que ele fez. E até os atores que fazem personagens menores são todos muito bem escolhidos.

Como encarou ter de interpretar uma personagem com inteligência artificial? Foi um desafio?
Gigantesco. Especialmente de alguém que não tem consciência de si mesmo, alguém que está preso naquilo que eles chamam de looping. Não tinha muito por onde me basear. Normalmente fazes uma pesquisa: o João nasceu em Lisboa, a mãe dele é assim, o pai é assim, aconteceu isto com a vida dele, é isto que ele gostaria de fazer, está a trabalhar ou a estudar… não, não tinha nada. Absolutamente nada. Foi uma forma única de trabalhar. Nunca me tinha colocado numa personagem de forma tão direta e presente. Na segunda temporada deram-me uma humanização da personagem. Fui trabalhando nisso, mas também são nuances muito pequenas. “Westworld” é uma série que deve ser revista. Não apanhas tudo à primeira, normalmente. Se existe um exemplo é este. Existem tantas camadas, e isso interessa-me muito. É onde encontras profundidade e sais do estereótipo.

Essa dificuldade em percecionar tudo sobre “Westworld” também acontece com vocês, atores? Estão sempre cientes da narrativa rica da série ou às vezes também se confundem nos labirintos das timelines?
É muito possível que nos confundamos. Em vários momentos perguntei aos criadores da série se estava a ir para este ou para aquele lado. Eles davam-me alguma informação, não toda, para me ajudar a trabalhar. Mas questionei sempre. E nesta série questionei-me muito na minha vida pessoal. Em relação à tecnologia, à forma como vivemos. Estamos muito dependentes. Acho que, como o Frankenstein, existe uma linha muito ténue entre quem está ou não no controlo — com todos os algoritmos que temos agora. A série faz uma grande reflexão sobre o livre arbítrio e sobre a natureza humana. Se estivesse num lugar em que pudesse escolher o que quisesse fazer e não tivesse consequências sociais, quem seria? O que faria? É uma forma genial de explorar isso. E o apetite que o homem tem pela violência está ali.

A sua personagem em “Westworld”, Hector, dá uma grande força e muito valor a uma personagem feminina, a da Thandie Newton, nesta segunda temporada. Já estava nos planos ou foram vocês que deram esta força extra?
Eles têm uma missão, mas o sentimento começa a aparecer à medida que a minha personagem, o Hector, vai tendo consciência das coisas. É uma questão importante para os criadores da série. Foi uma resposta do público que gostou muito dos dois juntos e os argumentistas disseram: ok, vamos colocar esta outra camada para a segunda temporada, apesar de não ser uma história romântica como estamos habituados a ver.