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Falámos com o criador de “O Pioneiro” — e ele explica a importância de Futre

A série que retrata a história do antigo presidente do Atlético de Madrid, Jesús Gil, estreou a 14 de julho em Portugal.
A NiT entrevistou o realizador.

Jesús Gil foi presidente do Atlético de Madrid e da Câmara Municipal de Marbella, em Espanha. Agora, 15 anos após a sua morte (a 14 de maio de 2004), a série documental “O Pioneiro” retrata a vida controversa do dirigente. A estreia em Portugal aconteceu a 14 de julho, na HBO.

A NiT teve acesso ao primeiro de quatro episódios de uma hora. Na primeira cena veem-se imagens de Marbella, como a cidade é hoje. Hotéis à beira-mar, palmeiras e água azul turquesa.

A narrativa intercala depois várias épocas: as eleições da cidade (1991) e a tomada de posse de Jesús Gil, a morte de 60 pessoas que estavam num restaurante seu sem licenças de construção (1971) que o levou à prisão, a infância nos anos 30 e a tomada de posse como presidente do Atlético de Madrid (1987), além da contratação do seu primeiro grande jogador, o futebolista português Paulo Futre.

O projeto foi pensado no início de 2016 mas só em junho de 2017 é que começou a ser produzido. Atualmente, Jesús Gil é comparado a Donald Trump. No documentário são várias as pessoas que participam, desde a família aos seus opositores, além de, claro, Paulo Futre. A NiT entrevistou Enric Bach, realizador de “O Pioneiro”. Leia a entrevista.

Porquê fazer uma série sobre Jesús Gil? O que o motivou a criar este projeto?
O que me motivou foi a história. Porque conta muitas coisas sobre o mundo em que vivemos. E pode ajudar bastante a perceber o presente. Porque, obviamente, ele era um pioneiro em muitas coisas, mas especialmente na política. Criou novas maneiras de fazer política, e populismo. Há muitos “Jesús Gil” pelo mundo. E, hoje em dia, ligam a história dele à de Donald Trump mas quando começámos o projeto há quatro anos, o Donald Trump ainda não era presidente dos EUA. Mas nós já sabíamos nessa altura que estavam a surgir vários líderes como o Jesús, em vários países europeus: forasteiros políticos, homens de negócios que saltaram para a política por várias razões de interesse próprio. Por isso, tentámos contar a história de forma contemporânea.

Pensa que as pessoas fora de Espanha terão o mesmo interesse em conhecer a história deste homem?
Sim, definitivamente. Acho que todas as pessoas dos países europeus onde a série vai passar vão gostar. Não só pela história dele, mas também porque ela se vai relacionar com as suas próprias realidades.

Foi fácil ter a família a falar na série e a dar-vos material de arquivo para trabalharem?
Foi mais fácil do que esperava, o que foi muito bom. Provavelmente por causa da nossa abordagem. Deixámos claro que, por um lado, não queríamos destruir a história do Jesús Gil, mas também não queríamos fazer uma homenagem, claro. Somos jornalistas e queríamos fazer um trabalho honesto. Levei muito a sério a sua história, porque sempre achei que havia muito mais por detrás da personagem que ele criava para os média. Por isso, a família abriu-nos as portas e têm sido sempre muito simpáticos. E, mais importante, respeitaram sempre a minha independência. Não puseram nenhum tipo de condições e, por isso, sou muito grato.

O que foi mais desafiante nesta produção?
O maior desafio foi manter o equilíbrio entre o fascínio que muitas pessoas tinham pelo Jesús e, ao mesmo tempo, a reação oposta que ele provocava em certas ocasiões. Ele era temido e sabia-se que havia muito por detrás do que ele mostrava. Ele não respeitava nenhuma lei. Era temido e admirado, ao mesmo tempo. Isso, para mim, foi o mais difícil. Manter ao longo da série esta sensação de contradição constante. Tu, enquanto espectador, acabas por pensar: porque é que gosto deste tipo quando sei como ele é e o que ele faz? E isso faz-te pensar muito. Não te dá respostas mas faz-te pensar e questionar.

Encontrou alguma coisa, um segredo, por exemplo, que desconhecia sobre o Jesús Gil antes de fazer a série?
Encontrei algumas coisas mas que não conseguia verificar completamente ou arranjar o contraditório e ficaram de fora. É possível escrever 20 livros sobre ele ou fazer uma série de 15 episódios porque a sua história é extraordinariamente longa e complexa. Mas tentei manter tudo simples e chegar à essência da coisa. E penso que quatro episódios de uma hora cada é perfeito.

Como a história é controversa, foi fácil conseguir todos os depoimentos?
Sim, foi. Demorou algum tempo mas não foi particularmente difícil. É uma questão de tempo para conhecê-los pessoalmente, alguns duas ou três vezes, antes de lhes colocar uma câmara à frente. E acho que se sente isso nas entrevistas, que os intervenientes se sentem confortáveis e confiantes. É preciso tempo para trabalhar essas relações. E, também, há 20 anos que eu e o Justin Webster (diretor da empresa de produção) fazemos documentários, as pessoas já sabiam que éramos sérios e fiáveis.

Quando filmou o ex-jogador português Paulo Futre, veio a Portugal ou ele foi a Espanha?
Fizemos a entrevista na casa dele, em Madrid. Porque ele vive metade da semana em Lisboa e metade da semana em Madrid. Eu moro em Barcelona, então começámos a falar e combinámos um primeiro encontro em Madrid, quando ele lá estava, para lhe apresentar a minha visão para o projeto. Para mim, ele é o jogador mais icónico da era do Jesús Gil e era como um filho para ele. E, pessoalmente, é o jogador de futebol que sempre admirei. Foi muito bom tê-lo na série.

A família do Jesús Gil já viu a série documental?
Sim, vimos juntos há um par de semanas. E claro que a reação deles foi ambígua. Houve coisas de que eles gostaram muito, mas outras não. O que é perfeitamente normal, uma vez que o Jesús Gil era muito controverso e a série trouxe-lhes memórias antigas. Muita gente sofreu por causa dele mas a família também, especialmente no final dos anos 90, início dos anos 2000. Mas a nossa relação mantém-se boa.

E já alguém da indústria do futebol a viu?
Acho que não. A série vai estrear no domingo [7 de julho], em Espanha. Em Portugal será a 14 de julho e mal posso esperar por ouvir as opiniões dos espectadores. Não só da indústria do futebol mas de todos. É para eles que fazemos a série.

Gosta de futebol?
Gosto mas já não vejo muito futebol na televisão. Também fui jogador, amador, e por isso claro que gosto mas já não sigo muito.