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Quem matou as crianças de Atlanta? Chegou o aterrador documentário da “HBO”

Eram quase todas crianças negras de bairros pobres. Apesar de haver um suspeito, a maioria dos crimes ficou por resolver.
Estreia a 6 de abril na "HBO"

Verão de 1979. Atlanta, Estado da Geórgia. Foi durante os meses quentes que os corpos de dois adolescentes negros dados como desaparecidos há vários dias foram encontrados, mas o que poderia significar o início de um estado de alerta geral na capital estadual passou quase despercebido.

O corpo de um deles só chegou a ser identificado ao fim de mais de um ano. Ao longo dos dois anos seguintes, pelo menos 30 pessoas foram assassinadas ou dadas como desaparecidas — na sua maioria crianças e adolescentes. Apenas um culpado foi encontrado e acusado de dois dos homicídios. Embora lhe sejam imputados mais alguns dos crimes, nunca chegou a ser acusado. As mães das vítimas continuam a pedir justiça num caso que foi ignorado por demasiado tempo — e assustadoramente pintado com nuances racistas.

“Atlanta’s Missing and Murdered: The Lost Children” é a nova série documental da “HBO” que regressa ao verão quente que fechou os anos 70 no estado sulista dos Estados Unidos. Dividido em cinco partes, a produção realizada por Sam Pollard, Maro Chermayeff, Jeff Dupre e Hoshua Bennett usa imagens de arquivo para contar novamente um dos episódios mais negros da cidade e do país; e que manchou a credibilidade da polícia, criticados pela lentidão excessiva no momento de procurar o autor dos crimes, mas também pela rapidez com que tentou encerrar o caso.

O caso não ficou enfiado numa gaveta num arquivo poeirento. Em 2019, a presidente da câmara de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, anunciou que as autoridades se preparavam para reabrir as investigações e voltar a analisar algumas das provas com recurso a tecnologia de ADN, indisponível à época dos homicídios.

A reabertura coincidiu com a segunda temporada de “Mindhunter”, a série de David Fincher inspirada em factos verídicos e que acompanha a equipa do FBI responsável pela criação do termo assassino em série. É precisamente na série televisiva que os protagonistas voltam a dar atenção a um caso que parecia já esquecido — e que agora volta a despertar a curiosidade de todos.

O protótipo do serial killer

Numa altura em que o conceito de assassino em série era ainda desconhecido, a polícia de Atlanta teve dificuldades em agir e fazer as ligações corretas, embora o perfil das vítimas fosse perfeitamente claro. Dizia-se, a propósito desta aparente inércia, que “a polícia de Atlanta não era sequer capaz de apanhar uma gripe”.

Edward Smith, 14, e Alfred Evans, 13, foram as duas primeiras vítimas. A polícia “menosprezou os homicídios e ligou as a crimes relacionados com tráfico de droga”, escreveu o jornal americano “The Washington Post” sobre o caso em 1981.

Os crimes aterrorizaram a comunidade afro-americana

Noventa por cento das vítimas eram crianças negras, rapazes entre os 7 e os 12 anos de famílias pobres, apanhados quase sempre sozinhos pelas ruas. O modus operandi também pouco mudava: depois de estrangulados, violados ou esfaqueados, os corpos eram espalhados por diferentes pontos abandonados e remotos da cidade.

Durante os meses que se seguiram, foram surgindo cada vez mais corpos de rapazes e raparigas. Muitos dos corpos chegaram a ser encontrados a poucas centenas de metros das suas casas e muitos deles tinham ligações de amizade. Um cocktail de medo, incompetência e calculismo político fez com que só ao fim de muito tempo, a possibilidade de existir um assassino na cidade fosse tornada pública.

Ninguém quer saber de Atlanta

Só quase ao fim de um ano, em 1980, é que a investigação se tornou realmente séria. O medo dos responsáveis políticos de que o escândalo pudesse manchar o nome da cidade foi perdendo força — e a pressão da comunidade afro-americana também fez a sua parte.

Uma das responsáveis pela pressão exercida foi Camille Bell, mãe de Yusuf Bell, cujo corpo foi descoberto 18 dias depois do desaparecimento. O rapaz de nove anos foi mais uma das vítimas. O desespero levou-a a criar o Committee to Stop Children’s Murders, que reuniu as mães e familiares das crianças desaparecidas e assassinadas.

As mães das vítimas pressionaram políticos e autoridades

A intervenção do FBI chegou mais tarde, apenas porque um dos desaparecimentos terá ocorrido para lá da linha do estado da Geórgia — e, portanto, merecedor da intervenção da autoridade federal.

À medida que o assunto começou a ser notícia por todo o país, também os esforços se concentraram na procura do culpado. As crianças deixaram de ir à escola, a cidade decretou um recolher obrigatório; e as celebridades e políticos ofereceram recompensas por pistas que levassem à conclusão da investigação. Ronald Reagan, então presidente, canalizou dois milhões de dólares para a investigação do FBI.

Dezenas de crimes, um suspeito

No trailer de “Atlanta’s Missing and Murdered: The Lost Children”, é retratada uma sessão de vigilância numa das muitas pontes da cidade, até que se ouve algo a cair dentro de água. Seria mais um corpo? A verdade é que a intervenção dos especialistas do FBI ajudou a organizar a investigação.

Para trás foram ficando muitas das ideias iniciais de que se trataria de um assassino branco, ligado a organizações racistas como o Klu Klux Klan. Também o modus operandi do suposto homicida mudou — os corpos passaram a ser atirados para os rios numa tentativa, julgam as autoridades, de tentar eliminar provas e despistar o FBI.

Williams foi condenado por dois dos crimes

Foi durante uma dessas vigílias que a polícia se cruzou com Wayne Williams, afro-americano de 23 anos que haveria de subir ao topo da lista de suspeitos. O promotor musical foi apanhado em várias mentiras e as provas recolhidas no carro e na casa dos pais, onde vivia, serviram para ligar o homem a algumas das vítimas.

Apesar das provas e embora as autoridades lhe atribuam os restantes homicídios e desaparecimentos, Williams foi condenado apenas pela morte de Jimy Ray Payne, 21, e Nathaniel Cater, 27. Oficialmente, ninguém foi condenado pelo assassinato de qualquer uma das crianças.

Duas penas perpétuas garantiram que passaria o resto da vida na prisão — apesar de garantir que está inocente.