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“Pesadelo na Cozinha”: Ljubomir tentou fazer as pazes com a família de Fátima

A NiT esteve na Casa das Francesinhas, em Viseu, para perceber o que aconteceu durante as gravações do programa da TVI.
(Fotografia: João Sousa)

Para Fátima, as transformações do “Pesadelo na Cozinha” não passavam de imagens de um programa que ia assistindo pela televisão, lá longe, muito longe do restaurante que gere em Viseu. O sonho de um dia trocar ideias com Ljubomir Stanisic era apenas isso mesmo: um sonho inatingível. Pelo menos até que o telefone da Casa das Francesinhas tocou. Um par de meses depois, são a estrela do último episódio do programa da TVI, transmitido no domingo, 12 de janeiro.

O convite para participar no reality show surgiu de forma surpreendente e Fátima não hesitou em dizer que sim. “Achei que não tínhamos nada a perder, pensámos no assunto e decidimos aceitar”, conta à NiT. A determinação da produção em fazer um programa em Viseu — e a rejeição das outras casas convidadas a participar no programa — abriu o caminho para a concretização de um dos sonhos de Fátima Rodrigues: conhecer e aprender tudo o que puder com o chef.

De voz meiga e acolhedora, aos 41 anos, Fátima conta com muitos anos de trabalho duro na cozinha. Aos oito já ajudava a mãe no Pátio Beirão, o restaurante de família em Almargem. Sempre como cozinheira, há cerca de cinco anos tornou-se pela primeira vez proprietária de um espaço, a Casa das Francesinhas.

Não quis mudar o nome, as francesinhas mantiveram-se e deu o seu toque pessoal à carta. Cozinha portuguesa regional, tradicional e sem grandes invenções, num espaço onde quase todos se conhecem, donos, empregados e clientes, poucos, mas quase todos habituais.

A vida não é fácil no espaço de Fátima e do marido, Zé Carlos, que assume os comandos da sala com uma simpatia contida — um cuidado que esconde a confusão que por vezes se vive na cozinha, como se viu durante as gravações. Longe das ruas mais movimentadas do centro histórico, é na época da famosa Feira de São Mateus, que acontece a poucos metros da porta, que o restaurante faz mais dinheiro, ao contrário dos outros meses, quase todos de luta para conseguir enfrentar todas as despesas do negócio.

“O turismo vai todo para o centro de Viseu e nesses dois ou três meses fazemos algum dinheiro que depois temos que segurar para pagar as contas do resto do ano”, confessa.

Em contraste com outros participantes, desta e de temporadas anteriores, Fátima esboçou um sorriso rápido assim que tocámos no nome de Ljubomir. Os nervos do primeiro encontro foram suavizados por um primeiro almoço com algumas críticas, mas sem o dramatismo de outros programas. Desta vez, Stanisic conseguiu pôr a concorrente em lágrimas, embora por motivos e causas bem diferentes.

Um momento de lágrimas e emoções

Foi impossível conter as lágrimas quando a conversa saiu da cozinha e se virou para o passado de Fátima. Embora a relação atribulada com Zé Carlos tenha dominado a conversa — revelou que era sobre ela que recaía a maior parte do trabalho e que pouco tempo sobrava para gozar a vida —, foi quando falou do passado que os nervos de ferro cederam.

A cozinheira confessou ao chef que os seus pais biológicos nunca quiseram saber dela e que, mesmo morando por perto, nunca se deram ao trabalho de visitar. Acabou por ser adotada por outro casal que a criou “como se fosse uma filha”, conta à NiT. Tornaram-se numa presença essencial na vida da proprietária do espaço. Só que a última visita à Casa das Francesinhas foi atribulada e acabou numa zanga entre o pai e Zé Carlos.

“Vieram ajudar-nos no verão, durante a Feira de São Mateus, que é sempre uma altura de muito movimento. Houve uma confusão qualquer, não percebi, mas foram-se embora. Saíram um bocado chateados e eu nem percebi qual foi o problema”, confessou, emocionada.

A comoção era visível na cara de Fátima, sempre que o tema vinha à conversa e as lágrimas teimavam em não deixar contar a história que a produção procurou resolver. “Esta situação perturba-me muito”, explicou ao chef. É que Zé Carlos, depois de saber que os pais estariam presentes na abertura do Miminhos da Fátima, chegou mesmo a dizer que se eles entrassem no restaurante, ele saía pela porta fora — uma atitude que colocou o casal em momentos de alguma tensão. Este foi, para Fátima, um dos momentos mais difíceis do programa. A produção fez várias tentativas para cessar as divergências entre o companheiro e o pai de Fátima.

Fátima e o marido José Carlos (Fotografia: João Sousa)

“Eles acabaram por convidar os meus pais para estarem presentes na inauguração, o Ljubomir falou com eles e comigo e pôs-me logo a chorar. É complicado, quando estes problemas envolvem a família. Eu sou muito forte, mas nisto…”, explica.

Sem que tudo tenha ficado resolvido de forma perfeita, Fátima explica à NiT que a intervenção do chef ajudou a atenuar a tensão que se mantinha desde o verão. Apesar da insistência, a cozinheira não quis revelar o que provocou a zanga entre o pai adotivo e o marido. 

As lições do chef

O tão temido primeiro almoço acabou por não ser um pesadelo, segundo Fátima. E tudo poderia ter corrido ainda melhor, confessa, não fossem os nervos trair a cozinheira. O chef chegou, sentou-se e pediu uma dezena de pratos. Na cozinha, o rebuliço “atrapalhou tudo”.

“Queremos fazer o nosso melhor mas com os nervos, a coisa não corre sempre bem. Pediu logo os pratos todos e eu pensei que ele ia provar tudo de uma vez. Afinal, quis comer um de cada vez, só que já estava tudo confecionado e foram ficando frios. Depois, quando se come, nunca é a mesma coisa”.

Costuma dizer-se que nunca devemos conhecer os nossos ídolos e a admiração de Fátima por Ljubomir é notória. Para sua sorte, não houve espaço para gritos e críticas? Nada disso. “Foi tudo muito pacífico”, conta. Acima de tudo, confessa que o chef lhe passou “métodos de trabalho” que a própria sentia que faziam falta.

“Acho que o mau feitio dele tem a ver com o que ele encontra em cada casa, com as pessoas, se há ou não higiene. O que eu queria mesmo era recebê-lo para poder aprender, porque ele é uma pessoa que sabe”.

A primeira dica foi bem recebida: acabaram-se os cogumelos em lata, usados para fazer o tão corriqueiro prato de bifinhos com cogumelos, agora riscado da ementa. A partir da visita do chef, na cozinha de Fátima só passaram a entrar cogumelos frescos — e logo num prato que o chef fez questão de batizar em honra da cozinheira. “Criou os lombinhos de porco à mania da Fátima, isto porque dizia que eu era teimosa (risos).”

A habitual inspeção do chef não provocou calafrios. Nem aí houve espaço para confusões e gritarias, apenas para lições bem aprendidas: a habitual acumulação de pratos sujos foi resolvida com uma técnica simples. Entretanto foi contratada uma ajudante para lavar a loiça, para que Fátima consiga dar mais formação a Nélson; e Ljubomir teve tempo para ensinar a aproveitar os restos para fazer um caldo. “Explicou-nos como usar as aparas da carne e as cascas, aquilo a que chamamos lixo, para fazer um caldo que nos ajuda a fazer um molho rápido, se for preciso”, revela.

O registo imaculado ia ficando manchado por uma pequena e inocente ameijoa encontrada pelo chef no congelador e que afirmou que estava cozinhada. Não estava. Fátima desafiou o chef e saiu por cima: “Ele disse ‘tens a certeza que isto abre na água?’. Eu disse-lhe que sim, fiz a experiência e ele verificou que estava a dizer a verdade”.

Sobraram poucos dos pratos que existiam na carta e muito menos as opções do dia, sempre feitas em quantidades pequenas para evitar o desperdício. “Podemos ter uns três ou quatro pratos, mas estimamos sempre quantos clientes vamos ter. Quando acabam, recorremos aos grelhados. Até é mais saudável para o cliente e melhor para nós, que evitamos ter uns 50 pratos já confecionados”.

Fátima tem bem presente o único momento em que estremeceu com a reação do chef. Estavam ambos na cozinha, chegou o pedido de uma entrada de camarões e no momento de cozinhar, o chef interrompeu-a, antes de colocar os camarões congelados no óleo. “É assim que vais cozinhar os camarões?”, perguntou, enquanto batia com um pobre camarão na bancada. A irritação foi breve e Fátima, boa aluna, tomou nota da lição — a única que a fez ceder perante o ar intimidatório do chef.

Dois dias é manifestamente pouco para operar uma revolução completa, embora Fátima admita que parte do problema está, por vezes, nos concorrentes e não no chef. “Esteve cá pouco tempo, mas acho que se as pessoas têm vontade e querem aprender, o tempo que ele está cá, serve. Não diria que é suficiente. É bem-vindo porque todos conseguimos aprender alguma coisa. Depois aplicamos as dicas que nos dá e ao pormos em prática percebemos que isso é bom para nós”, conclui. Lição aprendida.

Francesinhas, uma casa e muitos miminhos

A primeira grande mudança: a morte da Casa das Francesinhas. O nome da casa era algo que já preocupava Fátima, que chegou a ponderar fazer a troca, mas nunca se decidiu. “Tinha receio que os nossos clientes deixassem de vir cá porque não tinha o mesmo nome. Acabei por perceber que é precisamente o contrário. Desde que colocámos o novo nome que nos procuram mais, mesmo não tendo qualquer menção às francesinhas”, explica.

No painel exterior lê-se agora Miminhos da Fátima, elogio à chef e proprietária, que está feliz com as pequenas mudanças no espaço feitas pela produção. Na verdade, o lifting foi minimalista: mantiveram-se as bizarras luzes laranja sob a porta, onde os vidros escuros não permitem que os clientes vejam o ambiente do restaurante da rua. Para ver como é a sala do Miminhos da Fátima, só mesmo entrando porta dentro.

Foi na sala principal que se deram as maiores alterações — e as mudanças ajudaram a tirar o primeiro impacto negativo, pelo menos aos olhos da dona. “Quando entrava aqui de manhã só via vitrines, nem parecia um restaurante. Agora está muito mais giro”, confessa com um sorriso. 

Mais polido, cumpre a tradição das transformações à “Pesadelo na Cozinha”. Sem mudanças de fundo, o resultado é quase sempre uma decoração a meio caminho. Permanecem arcas e vitrines ao bom estilo de café, que convivem com um teto bem arranjado, traves de madeira cruzadas com lâmpadas grandes de estilo retro. É, por vezes, um estilo confuso, mas que é claramente uma enorme melhoria na decoração. O chão de mármore que por pouco não congelou o chef manteve-se.

O espaço está mais acolhedor (Fotografia: João Sousa)

Os clientes já notam a diferença. “É um impacto diferente, para melhor. Mesmo os clientes dizem que está muito mais giro, mais aconchegante. Gostei de tudo”.

Na ementa, as recomendações foram seguidas, mas nem todas à risca. A chanfana de javali criada pelo chef e acrescentada desde novembro ainda não chegou às mesas — culpa da produção, que havia prometido deixar o contacto de um fornecedor, que nunca chegou. Fátima acabou por encontrar alternativa e no dia da visita da NiT, ele já estava a marinar. “Tiveram azar, mais um dia e podiam provar a chanfana”. Até aqui, optou-se por uma chanfana de cabra.

As francesinhas, essas mantiveram-se, até porque o chef não fez qualquer reparo à qualidade da especialidade portuense servida em Viseu. Da lista desenhada por Ljubomir, mantém-se muita coisa, das novas pataniscas de bacalhau ao cordon bleu com molho de míscaros que se tornou num sucesso. Mas também houve flops: foi o caso dos torresmos. “As pessoas aqui não gostam, ninguém procura isso”, explica Fátima.

As mudanças não terminaram por aqui. Com os típicos sucessos de sobremesas fora da carta, os pedidos insistentes dos clientes obrigaram fazer regressar o leite creme e o arroz doce, entre outros clássicos bem portugueses. E os cortes não devem ficar por aqui. É que a carta ficou “demasiado grande” e Fátima só tem duas mãos.

Na cozinha desde pequenina

“Comecei com as pequenas tarefas e fui aprendendo”, explica. Aos 20 anos já acumulava tanta ou mais experiência do que os pares mais velhos, mas quando se apresentava ao trabalho, provocava olhares desconfiados.

“As pessoas ficavam surpreendidas. Com 20 anos na cozinha? Mas que experiência tem ela, pensavam eles. Nem lhes dizia que os meus pais tinham um restaurante, para não questionarem”, recorda.

Com um currículo preenchido de trabalho, chegou a passar pela cozinha do restaurante da Pensão Rossio, no centro de Viseu, e pelo conhecido Casa Arouquesa, nos arredores da cidade. Foi aí que, diz, “vestiu a camisola”.

“Nunca fui chef de ficar dentro da cozinha, gosto de cozinhar — até porque se for eu a fazer as coisas, sinto-me segura de que está tudo bom para ir para a mesa —, mas também de ir às mesas, receber as pessoas e ouvir as sugestões que têm para nós, se as coisas estão boas ou não. Aprendemos muito com eles”, explica.

A dedicação ajudou a não estranhar a mudança de estatuto de empregada a proprietária, quando foi convidada pelos antigos donos a tomar conta do espaço. Cinco anos depois, continua a fazer turnos longos e horas extraordinárias.

“Já nos outros espaços trabalhava como se aquilo fosse meu. Saía sempre depois da hora, por vezes com salários em atraso. Às vezes já estava sem a farda, entrava gente para comer e eu voltava a equipar-me para os servir. Aqui é igual”.

Nem os vizinhos esperavam que a Casa das Francesinhas aguentasse tanto tempo. “Diziam que nenhum negócio ficava aqui por muito tempo”. Agora que a velha casa se reformou, começa o novo caminho do Miminhos da Fátima, com nova carta, espaço e as mãos de sempre entre os tachos. A dedicação, garante, é igual. “Tentamos sempre fazer uma boa gestão do dinheiro. A nossa vida é entre casa e o trabalho. Vivemos para isto e isso também nos permite poupar e ter as contas em dia”. Da experiência do “Pesadelo na Cozinha”, tem apenas uma coisa a dizer: “Foi espetacular”.