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Oprah Winfrey: “Não queria estar no filme, tinha outros nomes na cabeça”

Só que o desejo de trabalhar com o realizador foi mais forte. Por isso, ela é a protagonista de “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, que estreia no TVCine 1 a 23 de julho.

Oprah é Deborah, filha de Henrietta Lacks.

Em 1951, quando Henrietta Lacks estava a morrer com um cancro cervical, um médico retirou-lhe tecido humano para fazer uma biópsia. A amostra começou a reproduzir-se em laboratório e deu início a uma linha imortal de células, que se mantém até hoje, conhecida como HeLa. A afro-americana revolucionou a Medicina, apesar do exame inicial nunca ter sido autorizado pela família.

A história é contada em “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, um telefilme com Oprah Winfrey que estreia este domingo, 23 de julho, às 21h30, no TVCine 1.

Ela é Deborah Lacks, a filha, uma mulher esquizofrénica e com tantos problemas de confiança e raiva que Oprah não queria mergulhar no papel. Contudo, a vontade de trabalhar com o realizador George C. Wolfe (“Um Ponto de Viragem”) acabou por vencer.

O projeto é produzido pela HBO e baseia-se no livro com o mesmo nome, escrito por Rebecca Skloot em 2010. Antes da estreia, a NiT publica em exclusivo em Portugal uma entrevista feita a Oprah Winfrey em Los Angeles, em abril, e cedida pelos canais TVCine.

Quando é que conheceu pela primeira vez a história da Henrietta Lacks?
Acho que foi em 2010, quando foi publicada. Estou sempre à procura de histórias que ofereçam perspetivas e luta e triunfo da jornada afro-americana. Queria comprar os direitos para fazer o filme e tive uma conversa pessoal com a Rebecca Skloot sobre como eu iria honrar a essência do que ela tinha escrito por causa da minha visão e do meu respeito pela santidade e o teor sagrado da escrita — é realmente uma tarefa sagrada permitirmos que a mensagem, energia e espírito de alguém perdure para a eternidade. A escrita é eterna. Muitas outras pessoas estavam a competir pelos direitos nessa altura mas ela vendeu-nos a nós. Olho sempre para isso como qualquer oportunidade para fazer uma história. Se for para mim, vai resolver-se nesse sentido. Se não, abençoo quem possa fazê-lo.

Sabia muito sobre HeLa antes de ler o livro?
Não sabia nada sobre HeLa, foi por isso que fiquei interessada em partilhar a história com outras pessoas. Vivi e trabalhei em Baltimore durante oito anos como repórter e estive, muitas vezes, nas mesmas ruas em que Henrietta Lacks andava. […] Estive lá de 1976 a 1983 e nunca ouvi o nome HeLa. Essa é parte da razão porque pensei, wow, isto é realmente algo — o facto de ter vivido, trabalhado, ter sido parte ativa da comunidade, igreja, tudo em Baltimore, e nunca ter ouvido o nome. Tornou-se parte da minha missão.

O que é que a fez realmente estar no filme, além de o fazer?
Eu não queria estar nele. Digo-lhe realmente, não queria. Não queria herdar as coisas da Deborah. Sempre pensei que fosse [papel] para outra pessoa, tinha vários outros nomes na cabeça. O Len Amato [produtor] foi a minha casa, uma tarde, e disse: “Venho aqui porque continuas a dizer que outra pessoa devia fazer este papel e isso é ridículo.” Mesmo assim, eu disse: “Bem, vou pensar nisso, depois informo-te.” Foi apenas pelo meu grande desejo de trabalhar com o George Wolfe [realizador] que o fiz.

Quais eram as suas reservas quanto ao papel da Deborah?
Quem é que quer pegar naquilo? Não conheço ninguém que queira viver naquele espaço agitado, maníaco-depressivo, esquizofrénico, paranóico, sem confiança, cheio de raiva, e às vezes esperançoso da Deborah. Mas eu fi-lo.

Como é que se interpreta uma personagem com tantos danos?
Sentei-me com a Susan Batson, a professora de representação, que me foi visitar ao Colorado, e passámos uma semana a ver linha a linha, página a página, a escavar os espaços emocionais dela e a relacioná-los com exemplos específicos ou incidentes da minha vida. Onde é que ela está agora? O que significa isto? Onde é que vai buscar aquilo? É assim que fazemos, é um processo de escavação.

Há cenas pesadas, como um exorcismo. Ensaiou muito?
Já tínhamos coreografado antes, onde precisas de estar para a câmara em certas falas para que não sejas apanhada pela parte mecânica, por exemplo. […] Nessa manhã lembro-me de pensar que não gostava da cadeira e queria uma de baloiço. Atrasámos as filmagens à espera da cadeira. E queria um certo tipo de cadeira de baloiço que tivesse almofada suficiente para balançar de volta enquanto a personagem está a passar por tudo aquilo.