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Oprah entrevistou os miúdos de “Aos Olhos da Justiça” — e está tudo na Netflix

O elenco e a realizadora Ava DuVernay falaram sobre o caso chocante. Reunimos quatro momentos fulcrais da conversa.
Tem cerca de uma hora.

Desde que estreou, a 31 de maio, que a minissérie “Aos Olhos da Justiça” tem sido um fenómeno na Netflix — e Portugal não é exceção. A produção de quatro episódios conta uma história tão real quanto chocante.

Este projeto de Ava DuVernay, a realizadora de “Selma: A Marcha da Liberdade”, centra-se no caso de 1989 que ficou conhecido como “Central Park Five”. Nesse ano, uma mulher foi atacada e violada em pleno Central Park, em Nova Iorque, nos EUA.

No ano seguinte, cinco jovens entre os 14 e os 16 anos — quatro afro-americanos e um hispânico — foram condenados pelo crime, depois de terem sido forçados a confessar o que não tinham feito. Um deles ficou na prisão até 2002, quando o verdadeiro autor do crime confessou o que tinha feito e houve um teste de ADN que provou a inocência do grupo de cinco. Foram exonerados e a cidade de Nova Iorque indemnizou-os.

O que também está disponível na Netflix — e que pode ser uma boa sugestão para todos os que gostaram da série, mesmo que seja revoltante e angustiante — é a entrevista que Oprah Winfrey fez aos condenados, ao elenco, a elementos da produção e a Ava DuVernay.

Chama-se “Oprah Winfrey Presents: When They See Us Now” e é um conteúdo de uma hora dividido em duas partes. A apresentadora de televisão fez um apelo para que aqueles homens — Korey Wise, Yusef Salaam, Antron McCray, Raymond Santana e Kevin Richardson — sejam agora conhecidos como os “Exonerated Five”, que é como quem diz “os cinco exonerados”. Eis alguns dos momentos mais importantes da conversa.

Ava DuVernay sempre quis que a série tivesse este tipo de impacto

“O objetivo sempre foi criar algo que te ficasse agarrado às entranhas e que não fosse fast food. Sempre foi criar algo que seria um catalisador para o debate”, disse a realizadora. “O entretenimento serve vários tipos de propósitos. Eu adoro terror, adoro romance, adoro ação mas queria criar algo com os meus colaboradores que iria fazer realmente as pessoas tomarem medidas, para que avaliassem o que pensam e como se comportam no mundo.”

Apesar de o título inicial ser “Central Park Five”, DuVernay quis distanciar-se desse rótulo que tinha sido colocado pela polícia e os media na altura. “Esse título tirava-lhes as caras, as famílias, os pulsos e os corações. Desumanizava-os.”

O papel de Linda Fairstein no caso

Desde que a série estreou, houve consequências sérias para a antiga procuradora, Linda Fairstein, responsável pelo caso que condenou erradamente cinco adolescentes. Debaixo de muitas críticas, Fairstein, que também se tornou escritora, abandonou vários cargos em instituições — incluindo na universidade onde dava aulas. A sua editora de livros terminou ainda o contrato que mantinha com ela.

“Penso que seria uma tragédia se esta história e a forma como a contámos resultasse numa mulher a ser castigada pelo que fez, porque isto não é sobre ela, não é mesmo”, disse DuVernay na entrevista dada a Oprah Winfrey.

“Ela faz parte de um sistema, que não está estragado. Ele foi construído para ser desta forma, para oprimir, para controlar. Foi construído para moldar a nossa cultura de uma maneira específica.”

Um dos exonerados, Raymond Santana, disse que, apesar de tudo, Fairstein é uma das culpadas pelo que aconteceu. “Enquanto procuradora, sabes que no momento em que há resultados de ADN e não são compatíveis… era uma oportunidade para ela recuar e reavaliar o caso, ver que algo que estava errado, que não batia certo. Depois descobrimos que tinham testado o ADN de 40 miúdos e que nenhum deles correspondia.”

O momento mais emotivo da entrevista

De todos os presentes, Anton McCray estava visivelmente mais emocionado durante a entrevista. Não conteve as lágrimas enquanto recordava a experiência na esquadra da polícia e a relação com o pai que morreu.

“Tenho problemas, preciso de ajuda. Eu sei disso, mas tento manter-me ocupado”, recorda McCray. “O sistema estragou muitas coisas em mim que não conseguem ser resolvidas.” Apesar de a sua mulher lhe ter aconselhado procurar o apoio de um psicólogo, McCray recusa.

O entrevistado falou ainda sobre ter perdido a mãe — que foi vítima de um cancro. “Ela foi a única que estava lá para mim naquela altura. O meu pai foi-se embora.” McCray diz que ainda não conseguiu perdoar o pai. “Ele é um cobarde. Eu tenho seis filhos, quatro rapazes e duas raparigas. Não conseguia imaginar fazer isso a um filho meu.”

Algumas revelações do elenco

Vários atores que participam na produção da Netflix também falaram sobre a experiência de fazerem esta série. Jharrel Jerome, que interpreta Korey Wise, diz que foram necessários dois meses de trabalho com um treinador de voz para conseguir ter o sotaque correto do Harlem.

“Assim que encontrei a voz… foi como se ocupasse todo o meu corpo, foi muito estranho. Foi a primeira vez que pareceu mesmo que saí do meu próprio corpo e entrei no de outra pessoa.”

Justin Cunningham, que tem o papel de Richardson, diz que com este projeto ganhou a consciência do seu grau de privilégio. “Eu quase me esqueci de que a tua liberdade pode ser tirada a qualquer momento. Conhecer o Kevin e a família dele fez-me perceber isso.”

Michael K. Williams (Bobby McCray) cresceu em Nova Iorque na mesma altura em que o caso se estava a desenrolar. O ator diz que se lembra do ambiente de medo e a preocupação que havia à sua volta para não serem generalizados ou confundidos com aqueles cinco adolescentes.

“Não me lembrei disso até chegar ao set e começar a aprofundar-me naquele contexto, daquilo que eles estavam a passar, e foi aí que me lembrei do que passei naquela altura. Eu mudei a forma de me vestir porque tinha medo que achassem que eu era um deles.”

Carregue na galeria para recordar as semelhanças e diferenças entre os atores e os verdadeiros condenados e exonerados da história contada em “Aos Olhos da Justiça”.