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Ninguém está a saber lidar com o novo episódio de “This is Us”

"After the Fire" mostra-nos como teria sido a vida se Jack tivesse sobrevivido ao fogo. De duas maneiras, ainda por cima.
"After the Fire".

Era um dos episódios mais antecipados de sempre de “This is Us” e também um dos que mais debate está a levantar. Numa série que trabalha diretamente com emoções como a nostalgia e que claramente vinca que tudo o que nos acontece nos molda, ninguém estava preparado para ver como a vida dos Pearson teria sido se, naquele dia fatídico do incêndio, Jack não tivesse regressado a casa para buscar o cão — e sobrevivesse ao fogo. E é isso mesmo que o penúltimo episódio da quarta temporada, que por cá passou esta quinta-feira, 19 de março (Fox Life), nos fez: de duas maneiras, ainda por cima.

É particularmente irónico que o tão antecipado “After the Fire” tenha passado por cá no Dia do Pai. É uma perfeita coincidência, já que nos EUA onde a série é produzida, os episódios estreiam à terça-feira —  e a data nem sequer se assinala no mesmo dia.

Mas aqui calhou assim: termos acesso à vida de uma família cuja sua grande tragédia e vazio, foi a perda inesperada de um marido e pai quase perfeito nas suas imperfeições; mas à versão de como ela teria sido, se esse pai estivesse presente.

E há várias lições a tirar, todas incrivelmente bem explicadas no episódio. Lição 1: de que, por mais que queiramos, não controlamos tudo na nossa vida, controlamos aliás muito menos do que pensamos. Também algo que é particularmente pertinente, neste momento surreal de pandemia generalizada que o mundo vive.

Lição 2: aquelas coisas que metemos na cabeça que podíamos ter mudado se tivéssemos feito isto, ou aquilo: é só uma ilusão. Provavelmente não teria mudado nada, ou não necessariamente para melhor. Esta lição no fundo tem a ver com a anterior da falta de controlo, mas merece ser especificada.

Lição 3: há sempre motivos psicológicos, na maioria dos casos até relativamente fáceis de descortinar, para as nossas obsessões e teimosias. E, lição 4: muitos deles têm a ver com as nossas mães.

Voltando então ao episódio e a como a equipa de “This is Us” ousou, para adoração de muitos e repúdio de outros, mostrar o indemonstrável: a vida com Jack. O contexto para a conhecermos é simples: no último episódio, Randall acabara por confessar a Kevin que a vida toda tinha vivido obcecado com a ideia de que, se tivesse gritado ao pai na noite do incêndio que o proibia de voltar a casa em chamas para resgatar o cão, ele teria cumprido — e vivido. Recorde-se que o pai Pearson morreu não do incêndio propriamente dito mas de um ataque cardíaco, já no hospital, como consequência da inalação de fumos, precisamente motivada por esse regresso à casa. Os miúdos tinham 17 anos.

Nessa conversa, Randall confessara então que esta ideia, e o complementar “e se?” o atormentavam desde então — todos os dias. E que era também por isso que estava a insistir tanto em que a mãe de ambos fizesse um tratamento experiencial de Alzheimer que poderia prolongar a sua vida com qualidade.

No novo episódio, Randall conta tudo isto à sua terapeuta e, incentivado por ela, explica então como acha que teria sido a vida com o pai. E nós, público, assistimos a tudo, o que não é fácil de ver. Porque lá está, todos sofremos com os “e ses”, com aqueles momentos que mudam vidas e poderiam ter sido diferentes por um segundo; e não é necessariamente bom ou fácil lidar com o desenrolar hipotético da vida se em vez de viramos à esquerda, tivéssemos ido para a direita.

Mas os produtores mostram-nos mesmo a vida com Jack, na mente de Randall claro, e é tudo perfeito. O pai acede ao pedido do filho, voltam para casa de Miguel, agradecem a todas as entidades divinas estarem vivos ainda que sem teto, e é quando Rebecca tem uma epifania: a vida é curta, não há tempo para mentiras e desperdícios, por isso neste cenário conta a Jack que conheceu o pai biológico de Randall, na noite em que ele nasceu, e que guarda o segredo há 17 anos.

Jack fica irritado e chocado mas passa rápido, contam a Randall que quer imediatamente conhecer o pai William; fazem-no e partir dai a vida é perfeita: o rapaz fica com dois pais, William passa a ser presente, o jovem conhece na mesma Beth porque decide ficar na faculdade onde a viria a encontrar — não para estar perto da mãe como aconteceu na realidade mas para estar perto de William; até ajuda a descobrir o cancro de estômago do pai biológico a tempo e vivem felizes para sempre.

Na vida real e tempo presente a terapeuta confronta Randall com o óbvio: que é tudo perfeitamente incrível mas pouco provável de acontecer, pelo menos de forma tão perfeita. E qual o maior medo dele, se tivesse corrido menos bem?

Temos então direito, embora ainda não saibamos se o queremos, a uma segunda versão da vida como teria sido com Jack. Parece um pouco o Conto de Natal de Scrooge, é verdade. Aqui tudo corre ao contrário: Rebecca decide na mesma contar a verdade a Jack e Randall sobre William; mas ambos ficam terrivelmente zangados, para toda a vida aliás.

E ainda por cima, William renega Randall quando o conhece e finge não ter um filho. O rapaz vai para outra faculdade, torna-se um desportista arrogante e depois professor, não conhece Beth, salta de relação fútil em relação fútil, tem uma péssima ligação com os irmãos e ainda pior com a mãe e só no final, quando o ainda vivo pai Jack lhe diz ter descoberto o Alzheimer de Rebecca, faz as pazes com ela.

A análise da psicóloga é simples: Randall cresceu sem conhecer William e sem ter Jack por perto e o seu desejo óbvio era ter os pais presentes (no primeiro cenário) mas o seu temor era ser rejeitado (no segundo). E depois elabora nas tais lições que já referimos, sobretudo a de que não controlamos grande coisa na vida. Ela também aponta que os dois cenários tinham muito mais a ver com Randall a perdoar Rebecca sobre o segredo de William do que propriamente com Jack.

Randall chega então a uma conclusão bastante simples, se formos a ver — ela já lá estava quando, na estreia do filme de Kevin, ele se sentira impelido a confessar a sua obsessão por este gigante “e se” minutos depois de a mãe ter rejeitado o tal tratamento experimental.

E a conclusão é que ele tentou salvar o pai e não conseguiu, o pai biológico e não conseguiu, mas não desistirá de salvar a mãe ou não conseguirá viver com isso. Já em casa telefona a Rebecca e explica-lhe tudo isto, fazendo um pedido como nunca lhe fez na vida: que faça o tratamento, ainda que implique esforço, afastamento da família, meses envolvida nele sem garantias. Que tem sido um bom filho a vida toda e só disto precisa, só isto lhe pede.

Rebecca aceita, sem o público conseguir perceber bem se ela está feliz ou profundamente infeliz com a decisão, muito menos antecipar se será uma boa ou terrível escolha. É difícil perceber qualquer coisa neste momento: ainda estamos a processar o possível Jack envelhecido, a possível Rebecca abandonada, os “e ses” da vida, tudo o que não pensámos que iríamos ver na série — e nem sabíamos, ou continuamos sem saber bem, se queríamos ver.