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“Narcos” já não é a mesma coisa, mas continua muito, muito bom

Já pode ver a nova temporada na Netflix. A história muda-se para o México e os protagonistas são Diego Luna e Michael Peña. Leia a crítica da NiT aos primeiros episódios.

NARCOS: MEXICO
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Não é bem uma quarta temporada, nem propriamente uma nova série, é como se fosse um novo capítulo de uma antologia original da Netflix que conta a história dos grandes narcotraficantes da América latina. De qualquer forma, “Narcos: México” é apresentada como uma nova série que está na primeira temporada. Os dez episódios podem ser vistos na plataforma de streaming a partir desta sexta-feira, 16 de novembro.

Muita coisa mudou em “Narcos”, é certo. As cores da Colômbia deram lugar aos tons áridos e poeirentos do México, as culturas de ambos os países são diferentes, a cobiçada cocaína já não é o que se planta aqui — no México, o mercado é todo sobre a marijuana.

E, claro, perdemos todas aquelas personagens que adorávamos. De Pablo Escobar (Wagner Moura) a Javier Peña (Pedro Pascal), passando pelos sicários, os traficantes do cartel de Cali ou Jorge Salcedo (Matias Varela), o herói da difícil terceira temporada.

Não tenho dúvidas de que nunca haverá na série nenhuma personagem tão carismática como Pablo Escobar, mas houve, ainda assim, uma terceira temporada de qualidade sem ele. “Narcos: México” é todo um novo mundo — e arrisco dizer que é quase tão empolgante como a história tem sido até aqui.

Estamos nos anos 80 e os traficantes do México estão divididos em “plazas” (territórios com um comandante próprio). Vivem numa selvajaria de rivalidade em que os lugares de topo são conquistados à força, com armas e sangue. O narrador, que contextualiza esta “drug war”, explica que nos últimos 30 anos morreram 500 mil pessoas no México em incidentes relacionados com o tráfico de droga.

É aí que entram as duas novas personagens principais. Miguel Ángel Félix Gallardo, ou simplesmente Félix (Diego Luna), é um ex-polícia de Sinaloa — uma zona desvalorizada no resto do México — que tem um sonho: unir os traficantes e construir um império a partir de Guadalajara. “Fazer uma OPEP da marijuana”, como uma personagem diz na série. Para isso vai ser preciso resolver as diferenças entre todos, criadas ao longo de décadas de conflitos, e não será nada fácil. Ao contrário de Escobar, Félix é mais frágil e amistoso, não sendo no início uma figura consensual dentro do meio dos traficantes, apesar de ser extremamente inteligente.

Ele conta com a ajuda de Rafa, um prodígio na agricultura de marijuana que encontrou uma variação da espécie que será muito mais rentável — com um único (e gigante) campo de plantação, será possível alimentar o mercado americano durante um ano inteiro. A construção do cartel e o facto de todos trabalharem para o mesmo faz com que a violência baixe, o preço da erva suba e haja mais estabilidade — só precisam é de ter a polícia do lado deles.

Esqueça a cocaína. Aqui é sobre a marijuana.

Tal como na Colômbia, a corrupção está profundamente enraizada na sociedade e aqui os maiores líderes das agências da autoridade — sobretudo a DFS — são bem mais ativos e determinantes no comando das grandes organizações de tráfico de droga.

Pelo contrário, os americanos têm menos poder. Se a DEA de Javier Peña e Steve Murphy (Boyd Holbrook) tinha algum poder de ação e decisão — mesmo que fosse necessário contornar as burocracias do sistema colombiano — aqui tudo funciona de forma ainda pior. Os polícias no México não querem mexer uma bala para mudar as coisas (quase só agem em força quando os grandes líderes corruptos o exigem) e os próprios americanos a trabalhar naquele país são preguiçosos e estão satisfeitos com o pouco que têm. Por isso, não querem intervir muito.

Quem vem mudar as coisas é Kiki Camarena (Michael Peña), um agente americano de origem mexicana que é transferido para Guadalajara. Teimoso, persistente e inconformado com o estado das coisas, vai tentar fazer uma revolução naquele departamento — embora enfrente bastante resistência — e tentar capturar o recém-criado poderoso cartel com os poucos meios que tem.

Algumas das características que tornaram “Narcos” um sucesso continuam presentes: a direção de fotografia, a banda sonora com música local (viva os mariachis), a inclusão de elementos da cultura daquele país e, claro, o tão carismático castelhano, cada vez mais em voga na indústria mundial das séries de televisão. A única personagem que faz a ponte entre “Narcos” e “Narcos: México” é Amado Carrillo Fuentes (José María Yazpik), o piloto e traficante mexicano que era amigo de Pacho (Alberto Ammann) na terceira temporada de “Narcos”, e que aqui aparece mais novo e com menos poder.

Ainda não vi a temporada completa de “Narcos: México”, mas os primeiros episódios prometem manter a qualidade das histórias passadas na Colômbia, com cenários incríveis, reviravoltas chocantes, personagens intrigantes e muito bem interpretadas, diálogos ótimos, referências importantes e o romantismo à volta dos “maus” que conseguem, a partir do nada, construir um império de milhões e milhões de dólares. Assim que termina um episódio, só nos apetece devorar outro logo de seguida. Está encontrada, muito provavelmente, uma das melhores séries do ano — e não era uma tarefa fácil manter a fasquia.