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Crítica: “The Leftovers” é a série mais alucinada e brilhante dos últimos anos (e você está a ignorá-la)

O elenco merecia prémios já, a banda sonora é tão frenética quanto a história e tudo faz estranhamente sentido. A NiT explica-lhe porque vale a pena ver o projeto, que terminou após três temporadas.

Carrie Coon e Justin Theroux são os protagonistas

“The Leftovers” será um dia para os anos 2010 o que “Twin Peaks” foi para a década de 90: uma série de nicho, alucinada, deprimente e que nos deixa muitas vezes o cérebro à beira do colpaso. Contudo, não é preciso ter uma bola de cristal para prever o futuro para lhe dizer que, já no presente, “The Leftovers” consegue ser superior a “Twin Peaks” e a qualquer outra série da atualidade. É o melhor projeto que passou pela televisão nos últimos anos e o mais certo é que você esteja a ignorá-lo — a história conseguiu uma base de fãs fiéis mas ficou longe de números estrondosos de audiências.

Criada por Damon Lindelof (“Lost”) e Tom Perrotta, a partir do livro deste último, a história começa com o desaparecimento em simultâneo de 2% da população do mundo inteiro. O mais óbvio seria perguntar para onde foram essas pessoas. Mas aqui o que interessa saber é o que acontece a quem fica para trás. Como se supera, como se responde, como se aceita algo impossível de controlar?

A primeira temporada, de 2014, nem sempre consegue concretizar as ideias que quer apresentar. Alguns episódios são difíceis de atravessar e é preciso ter paciência (às vezes muita) para perceber o que raio se está a passar. A história começa por ser incrivelmente triste e pesada com um luto que se arrasta e nos consome até a nós, espectadores. Afinal, é assim tão absurdo imaginarmo-nos num cenário destes? Não é e isso é que torna tudo assustador e próximo. As respostas podem ser científicas ou religiosas, pode não haver resposta. “The Leftovers” apresenta todas essas possibilidades com personagens que tentam seguir em frente da forma mais normal possível (como Kevin Garvey, o polícia), aqueles que têm formas muito pouco ortodoxas de aliviar a dor (Nora Durst) ou os que se juntam numa espécie de seita (Laurie e os Guilty Remnant).

Lembra-se de “Lost”? As premissas non-sense são as mesmas mas aqui as coisas são bem feitas

No final desse ano, os criadores perceberam que nem tudo estava a funcionar. Os erros foram reconhecidos pelos próprios e corrigidos na segunda temporada — e da forma mais inesperada possível. A narrativa muda-se dos subúrbios de Nova Iorque para o Texas, há personagens relevantes da primeira temporada que deixam de o ser e aparecem novas (com o incrível contributo de Regina King e Kevin Carroll), a banda sonora muda e até o genérico deixa de ser tão deprimente, os diálogos com humor negro tornam-se mais apurados e o protagonista, Garvey (Justin Theroux), atravessa uma série de fenómenos inexplicáveis que o matam e ressuscitam várias vezes e o atiram para uma realidade paralela onde é um assassino profissional a tentar escapar do purgatório que é um hotel onde se canta karaoke. Como? É isso mesmo. Está a ver “Lost”? As premissas non-sense são as mesmas mas aqui as coisas são bem feitas. E quando “The Leftovers” é boa, meu Deus, não se limita a ser boa, é brilhante. Tudo, mesmo o mais absurdo, se encaixa e faz sentido.

A mudança de direção foi arriscada, podia ter sido um falhanço gigantesco, mas conseguiu abordar temas como a morte, os sentimentos de perda e pertença e até a sanidade mental de forma incrivelmente clara no meio do seu turbilhão de loucura.

Damon Lindelof e Tom Perrotta decidiram que a história devia terminar no final da terceira temporada e voltaram a dar a todos uma lição de como se fecha uma narrativa nem sempre explicável deixando questões no ar mas dando aos espectadores as respostas necessárias nos pontos certos.

“The Leftovers” (em Portugal transmitida pelo TVSéries) voltou a reinventar-se e mudou-se para a Austrália, muitas personagens ficaram novamente para trás e o loucurómetro subiu ainda mais. Na terceira temporada, o reverendo Matt Jamison (Christopher Eccleston) está convencido de que Kevin é uma espécie de Jesus imortal, Kevin Garvey senior (Scott Glenn) acha que há cânticos capazes de evitar o fim do mundo e Nora Durst (Carrie Coon) anda atrás de umas cientistas que juram ter uma máquina que transporta as pessoas para o local onde estão todos aqueles que desapareceram anos antes. Mais não podemos contar mas podemos garantir-lhe que, depois de todos os acontecimentos frenéticos e tresloucados, a série consegue acabar com uma recompensa que certamente poucos acreditavam possível. A história termina muitos anos depois (não sabemos exatamente quantos) com uma sequência de cenas visualmente perfeitas e apaziguadoras, diálogos tristes e poéticos ao mesmo tempo. Nora e Kevin têm uma última oportunidade de acreditarem um no outro — e nós de acreditarmos em tudo o que vimos.

nota NiT: 86%