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“Leaving Neverland”: estes são os miúdos que dizem ter sido abusados por Michael Jackson

Quando tudo começou, Wade Robson tinha sete anos e Jimmy Safechuck novo. O documentário com a história deles está na HBO.
Wade Robson tinha cinco anos quando conheceu Michael Jackson

1993: Jordan Chandler, de 13 anos, acusa Michael Jackson de abusos sexuais. O caso acaba por ser encerrado com um acordo extrajudicial de milhares de euros. 2003: Michael Jackson é detido depois de outro miúdo de 13 anos, Gavin Arvizo, relatar à polícia uma experiência semelhante. A história avança para julgamento mas o cantor é ilibado de todos os crimes. Wade Robson e Jimmy Safechuck podiam ter garantido que a maior estrela da pop dos anos 90 ficava presa durante muitos anos (talvez para sempre) mas, sempre que foram chamados a depor, negaram qualquer tipo de envolvimento impróprio.

Contudo, tanto um como o outro dizem agora que foram vítimas do músico durante anos. As respetivas histórias são contadas em “Leaving Neverland”, o documentário dividido em duas partes disponível na HBO Portugal desde 8 de março.

Cada capítulo tem cerca de duas horas e explica detalhadamente a relação que cada um tinha com Michael Jackson. Como se conheceram, como se tornaram amigos, como começaram os alegados abusos sexuais e porque, só recentemente, é que ambos decidiram mudar a sua versão dos factos.

Wade Robson era um australiano de cinco anos quando conheceu o ídolo. Já Jimmy Safechuck, da Califórnia, não era fã da música mas contracenou com ele numa campanha publicitaria da Pepsi quando tinha nove anos. A partir daí, os relatos são semelhantes: Michael Jackson criava uma relação de amizade com os miúdos mas também com as famílias, depois ia separando cada vez mais as crianças dos pais, introduzia atos sexuais — de masturbação a sexo anal — como se fossem um segredo (mas uma coisa natural) e fazia questão de deixar bem claro que, se fossem descobertos, a vida deles acabaria.

“Leaving Neverland” expõe apenas o lado das vítimas — não há entrevistas da família ou dos advogados de Michael Jackson — mas é difícil não acreditar nos relatos de Safechuck, agora com 41 anos, e Robson, de 36. O documentário é tão convincente que várias estações de rádio já decidiram que não voltarão a passar temas do cantor e até os produtores de “Os Simpsons” anunciaram que vão retirar o episódio no qual surge o músico de “Thriller” da lista da série. 

Antes de assistir a “Leaving Neverland”, perceba como é que Wade Robson e Jimmy Safechuck se cruzaram com Michael Jackson, como é que as relações evoluíram e em que fase é que o trauma dos abusos sexuais se manifestou.

De onde apareceram estes miúdos

Wade Robson
Era o mais novo de três irmãos, numa família de classe média de Brisbane, na Austrália. Wade Robson não tinha muitos amigos da idade dele e começou a ficar fascinado por aquela que era a maior estrela dos anos 90, Michael Jackson. Vestia-se como ele, dançava como ele e foi exatamente através de um concurso de dança que conseguiu conhecer o ídolo nos bastidores de um concerto da digressão australiana. Tinha cinco anos.

James “Jimmy” Safechuck
Jimmy, como sempre foi tratado pela família e amigos, vivia com os pais na Califórnia. Estava inscrito numa agência de modelos e em dezembro de 1986 foi escolhido para fazer um anúncio da Pepsi com Michael Jackson. A primeira vez que viu o cantor foi exatamente durante as filmagens, para que as câmaras pudessem apanhar uma expressão genuína. Ele tinha nove anos, Michael Jackson tinha 28.

Como se tornaram amigos

Wade Robson
Começou a ter aulas numa escola de dança e, quando o grupo foi convidado para ir a Los Angeles, a mãe de Wade Robson fez tudo para entrar em contacto com Michael Jackson. Ele aceitou encontrar-se com o fã e acabaria por convidar toda a família (irmãos e avós incluídos) para passarem uns dias em Neverland.

Jimmy Safechuck
Uns tempos depois da campanha publicitária, Michael Jackson começou a telefonar para casa dos Safechuck. Acabou por convidar Jimmy e os pais para um jantar em casa dele. Houve chefs a prepararem pratos e, na visita guiada à mansão, o cantor ofereceu ao miúdo o casaco usado no videoclipe de “Thriller” e um envelope cheio de dinheiro. A partir daí, Jackson começou também a passar muitas noites em casa dos novos amigos. Andava de pijama por todo o lado, via filmes, dormia no sofá. Ele comportava-se como uma criança, os Safechuck tratavam-no como filho.

O início dos abusos

Wade Robson
Assim que a família entrou no rancho de Neverland, sentiu que estava a viver um sonho. Havia animais exóticos, carrosséis e estações de comboio. As casas para os hóspedes eram separadas da mansão principal. Wade e a irmã, Chantal, estavam numa excitação tão grande que pediram aos pais para dormir no quarto de Michael Jackson. Além da cama principal, havia mais colchões numa mezzanine. Os miúdos iam ver filmes e fazer lutas de almofadas, parecia uma espécie de festa do pijama. E foi mais ou menos isso na primeira noite. Depois, a família Robson seguiu para uns dias no Grand Canyon. Wade ficou em Neverland. Michael Jackson prometera ensinar-lhe a dançar. O contacto físico começou logo no primeiro dia, com festas nas pernas e abraços.

“De todas as crianças do mundo, escolheu-me para ser amigo dele”, lembra-se Wade de pensar naquela altura.

As carícias passaram rapidamente para a zona genital do miúdo, primeiro por cima das calças e depois por dentro da roupa. Wade Robson tinha sete anos.

Jimmy Safechuck
A primeira viagem que os Safechuck fizeram com Michael Jackson foi ao Havai. Foram tratados como vedetas. Aos dez anos, Jimmy começou a acompanhar o músico em tournée. No tema “Bad”, entrava em palco para dançar. Os pais tinham-no deixado juntar-se à digressão durante as férias escolares e iam ter com ele sempre que podiam. Por essa altura, o filho já ficava no quarto do cantor. A mãe, Stephanie, achou estranho o facto de o quarto deles estar cada vez mais longe da suite de Jackson mas chegou a ir escutar à porta e só ouvia brincadeiras de miúdos. Contudo, do outro lado, a realidade era outra.

“Em Paris, ele [Michael Jackson] introduziu-me à masturbação e foi assim que começou”, conta Jimmy Safechuck em “Leaving Neverland”.

Em casa dos Safechuck, em 1988.

Um pedófilo durante a noite, uma criança durante o dia

Wade Robson
Durante o dia era como se nada se passasse, Michael Jackson era afável com toda a gente, um autêntico miúdo entusiasmado com tudo à sua volta. Por outro lado, assim que ficava a sós com as crianças no quarto, os abusos aconteciam todas as noites. Wade Robson era tão novo que não percebia bem o que estava a acontecer e, por isso mesmo, também não tinha noção do quão errado era.

“Não tive medo, não houve nada de agressivo. Não parecia assim tão estranho”, recorda no documentário. Ele idolatrava o cantor e, mais do que isso, confiava nele, nem lhe passava pela cabeça que Michael Jackson lhe pudesse fazer mal.

Tomavam banho juntos, havia beijos com língua, o músico pedia à criança para lhe apertar os mamilos. Havia sexo oral e Michael Jackson masturbava-se a olhar para Wade. Ao mesmo tempo, fazia uma espécie de lavagem cerebral ao miúdo. “Eu e tu fomos juntos por Deus. É assim que mostramos o nosso amor”, explicava-lhe. Além disso, dizia-lhe que não devia confiar em ninguém, sobretudo nas mulheres, e que, se alguém descobrisse, seriam separados e passariam o resto da vida na prisão. Em Los Angeles, também comprava Wade com presentes. “Em todas as lojas, podia levar tudo o que quisesse. Enchia carrinhos.”

Jimmy Safechuck
Jimmy Safechuck também conta que Michael Jackson “gostava que lhe acariciasse os mamilos” e dizia constantemente ao miúdo que, se alguém descobrisse o que se passava, a vida dos dois acabaria.

Havia beijos com língua, carícias nas partes genitais, sexo oral na piscina. Michael Jackson tentava ainda afastar Jimmy de toda a gente e, quando os pais do miúdo estavam em Neverland e discutiam, o cantor e o miúdo ouviam tudo às escondidas. Jackson fazia questão de referir que as mulheres eram “maldosas”.

De acordo com Jimmy, chegou a acontecer uma cerimónia (uma espécie de casamento) no quarto. Houve votos e a criança recebeu um anel com diamantes. Aliás, em “Leaving Neverland” Jimmy mostra, com as mãos a tremer, uma caixa repleta de jóias com as quais o cantor o recompensava.

O momento em que Wade conheceu o ídolo.

O fim do interesse

Wade Robson
A família de Wade Robson foi literalmente destruída por causa do fascínio que todos tinham por Michael Jackson. O músico queria que o miúdo passasse a viver cm ele nos Estados Unidos. A mãe de Wade, que era também agente, não permitiu mas decidiu deixar o marido na Austrália — que tinha recentemente sido diagnosticado com bipolaridade — e mudar-se para Los Angeles com Wade e Chantal. Shane, o filho mais velho, também ficou para trás. O problema é que assim que chegaram, a relação com Michael Jackson mudou. Ele tinha prometido fazer de Wade uma estrela mas, por essa altura, já estava fascinado por outra criança: Macaulay Culkin, que entrava no videoclip de “Black or White”.

No primeiro ano em Los Angeles, Wade viu Michael Jackson entre quatro e seis vezes. Porém, sempre que estavam juntos, repetiam-se os atos sexuais.

Jimmy Safechuck
Segundo Jimmy, foi através de Michael Jackson que soube o que era pornografia e álcool. Em setembro de 1992 os encontros abrandaram porque tinha aparecido outro miúdo, Brett Barnes.

Michael Jackson e Jimmy pareciam miúdos da mesma idade.

O primeiro caso em tribunal

Wade Robson
Em 1993, surgiu a primeira acusação de abusos sexuais. Jordan Chandler, de 13 anos, denunciava uma relação de quatro meses com detalhes muito semelhantes às experiências de Wade e Jimmy. A polícia apareceu em casa de Wade e perguntou-lhe se alguma coisa lhe tinha acontecido. Ele negou tudo.

“A primeira coisa em que pensei foi no que Michael me tinha dito. Que seríamos presos”, recorda.

Jurou em tribunal que nunca tinha acontecido nada — desmentindo uma empregada que tinha contado que os tinha visto a tomar banho juntos e que Jackson tinha um armário cheio de vídeos com crianças. Com a história de Jordy descredibilizada, o caso acabou por ser abafado um acordo extrajudicial, que terá custado ao cantor entre quatro e 22 milhões de euros.

A partir daí, Wade via Michael Jackson duas ou três vezes por ano. Aos 14 anos, num hotel, o cantor tentou penetrá-lo. O ato foi travado por ser demasiado doloroso e os dois voltaram “à rotina habitual”. No dia seguinte, o músico entrou em pânico. “O que fizeste com a roupa interior? Pode ter algum sangue, tens de te ver livre dela”, terá dito ao adolescente. Foi a última vez que houve contacto sexual entre os dois.

Jimmy Safechuck
A comunicação foi retomada porque Michael Jackson queria que Jimmy testemunhasse a seu favor. O miúdo encontrou-se com os advogados — um deles, Johnnie Cochran, também defendeu O.J. Simpson — e treinou tudo o que tinha de dizer em tribunal. Defendeu o cantor e mais ou menos na mesma altura Jackson perdoou uma dívida aos Safechuck — tinha emprestado dinheiro para a compra de uma casa. Quando fez 16 anos, recebeu um carro e o cantor financiava também curtas-metragens que Jimmy fazia.

O último contacto com Michael Jackson

Wade Robson
Começou a dar aulas numa escola de dança e transformou-se rapidamente num coreógrafo conceituado. Trabalhava com os *NSYNC e com Britney Spears. Em 2003 surgiram novas alegações sexuais contra Michael Jackson e houve buscas em Neverland. Wade não queria depor no novo julgamento mas a mãe, Joy, convenceu-o. Afinal, havia outra vez pessoas a quererem o dinheiro do cantor e Wade tinha de defender o amigo. Em tribunal, voltou a negar tudo porque continuava a achar que a sua vida acabaria se aquele segredo fosse descoberto.

“Gostávamos um do outro, só isso. Achava que não tinha sido afetado por aquilo.” Michael Jackson foi ilibado de todas as acusações.

Cinco anos depois, encontraram-se em Las Vegas. Wade e a mulher, Amanda, foram jantar a casa do cantor. Estavam lá os três filhos de Michael Jackson e, a dada altura, Jackson disse que ia ao andar de cima mas não voltou a descer. Os miúdos nem estranharam, parecia ser um comportamento habitual. Foi a última vez que se viram.

Jimmy Safechuck
Jimmy Safechuck recusou-se a depor no julgamento de 2003. Disse à mãe que Michael Jackson “não era boa pessoa” e ela percebeu rapidamente o que também tinha acontecido ao filho. Ainda assim, não o forçou a falar. O cantor ligava constantemente à família, “ficou zangado e ameaçou com os advogados” por Jimmy não querer voltar a defendê-lo. Ele teve finalmente coragem para lhe dizer para não voltar a telefonar. Desde aí, nunca mais falaram.

Com a família de Wade Robson, em 1990.

O aparecimento do trauma

Wade Robson
Michael Jackson morreu em 2009, aos 50 anos, após uma paragem cardíaca. Wade ficou genuinamente triste e chorou mais no funeral dele do que tinha chorado no do pai — que se suicidara uns anos antes. Não foi nessa altura que o trauma se manifestou, mas sim depois de ele próprio ser pai. Ficava deitado oito ou nove horas mas não dormia, desaparecia sem dizer para onde ia, não falava com ninguém, teve um esgotamento.

“Os sintomas de abusos intensificam-se quando temos filhos, o facto de vermos como eles são inocentes”, explica em “Leaving Neverland”.

Tinha sentimentos violentos, raiva, nojo e soube que estava na altura de consultar um terapeuta. Foi abusado entre os sete e os 14 anos e tornou a sua história pública num programa televisivo em maio de 2013. Foi ao ver essa emissão que Jimmy Falchuck percebeu o que também ele estava a passar.

Jimmy Safechuck
Quando Michael Jackson morreu, a mãe de Jimmy dançou para celebrar. “Pelo menos já não poderia magoar mais nenhum miúdo”, explica.

Também Jimmy entrou em colapso quando foi pai. Não participava nas tarefas, começou a beber e a sair à noite.

“A raiva que temos, não a pomos nele, pomo-la em nós. Pensamos que contar pode arruinar a nossa vida.”

No entanto, ao ver o depoimento de Wade Robson, reconheceu a sua própria história e resolveu contar à mulher, Laura. Ainda assim, admite: “Continuo a sentir vergonha, que foi culpa minha.”