NiTfm live

Televisão

“La Casa de Papel” passou no teste da difícil (e exigente) terceira temporada

A série espanhola regressou à Netflix na sexta-feira, 19 de julho, com oito novos episódios.
Monica Gaztambide é agora uma atracadora oficial.
81

Depois do sucesso que “La Casa de Papel” teve quando estreou na Netflix em dezembro de 2017 — tornou-se rapidamente na série não falada em inglês mais vista de sempre na plataforma — a fasquia estava muito alta para a terceira temporada (ou parte, como os criadores preferem dizer) da história.

Era preciso uma grande reviravolta para voltar a entrar no universo de El Profesor e dos seus súbditos — os assaltantes (ou “atracadores”) que têm nomes de códigos de cidades. Afinal, passaram dois anos desde o golpe à Casa da Moeda espanhola e eles são agora um grupo de milionários que vive de forma clandestina noutros continentes. Os amigos vivem em pares e não têm qualquer contacto uns com os outros.

O início pode ser assustador para qualquer fã da série. Todo aquele imaginário da América do Sul — em que os povos locais são retratados como completamente exóticos, fofinhos e quase não civilizados — faz lembrar de outra série ótima que se perdeu pelo caminho quando tentou reinventar a sua fórmula noutro local e ambiente: “Prison Break”.

Não foi esse, porém, o caminho que o argumentista Álex Pina e a Netflix decidiram seguir com “La Casa de Papel”. E ainda bem: não demora muito até voltarmos ao centro da ação, Madrid, a capital espanhola — e à realidade que nos fez viciar nesta história improvável.

O pretexto para tudo isto é que, mais uma vez, Tokyo se fartou da vida romântica (e aborrecida) com Rio. E Rio, claro, completamente de coração partido, comete o erro de usar um telefone por satélite que é identificado em meros segundos pela Interpol. O fugitivo acaba por ser detido pela polícia do Panamá, país onde fica a ilha paradisíaca onde tinha vivido com Tokyo ao longo daqueles dois anos. Rio é levado para um sítio incerto onde é torturado para revelar informações sobre os antigos colegas. 

El Profesor vê isto como uma declaração de guerra do estado espanhol e decide responder com um ataque: assaltar o Banco de Espanha. A diferença neste assalto é que a tecnologia é bem mais avançada, graças aos milhões de euros que os atracadores roubaram na segunda temporada. Por outro lado, existem milhares de fãs dos protagonistas que se identificam com a sua mensagem anti-sistema.

O grupo apresenta-se como a Resistência — e os macacões vermelhos e as máscaras de Salvador Dalí tornaram-se populares em todo o mundo (um pouco como na vida real). A ex-detetive Raquel Murillo passou de vez para o outro lado e está na sala de comandos com o namorado Profesor. Aliás, aquelas cenas na caravana parecem uma referência a “Breaking Bad”. Desta vez, o plano de assalto que estão a executar era uma ideia antiga de Berlin. 

Todos os elementos que nos agarraram à história desde o Natal de 2017 continuam lá. O visual dos assaltantes, o carisma de personagens como Nairobi ou Denver, a voz off de Tokyo, os diálogos com humor, a canção “Bella Ciao”, o nervosismo dos reféns, a imprevisibilidade no enredo, os avanços e recuos no golpe, o plano quase infalível, a magnitude da inteligência de El Profesor — tudo isso está lá.

Algumas das novas personagens, como Palermo (o novo Berlin) e a implacável Alicia, são boas, apesar de outras não acrescentarem assim tanto ao enredo. É o caso de Bogotá, que vem assumir quase o papel de Moscovo. A estrutura do guião, que também sempre foi um dos pontos fortes, mantém-se: vamos viajando no tempo para percebermos tudo o que está a acontecer. E Berlin aparece (e bem) em todos os episódios (no total, são oito) nas cenas de flashback, o que é um ótimo trunfo para esta continuação do projeto.

Nota-se, sobretudo na imagem e realização, o dinheiro que Hollywood investiu nesta terceira temporada — já que as primeiras duas foram produzidas pela estação espanhola Antena 3 (não confundir com a rádio portuguesa). Por outro lado, pelos vistos era preciso mais financiamento. Existem várias com product placement — o que pode ser um pouco irritante para os fãs.

Como está uma série com uma história mais megalómana, é natural que algumas coisas estejam menos realistas — seja os métodos dos assaltantes, a omnisciência de El Profesor, o poder da tecnologia ou a forma como as autoridades lidam com tudo.

Tendo em conta que repete uma fórmula — e que foi uma série que só continuou por causa do enorme (e inesperado) sucesso das primeiras temporadas —, “La Casa de Papel” conseguiu manter um bom nível, o que era difícil e exigente. Não é genial, mas tem o poder, como poucas séries, de nos prender à cadeira, ao sofá ou onde quer que estejamos. É contagiante e viciante. 

Contudo, o final, quem já lá chegou vai entender, poderá ser um pouco frustrante, mas só significa uma coisa: vem aí mais. E agora pelo menos estamos seguros em relação à qualidade das próximas partes.