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“La Casa de Papel”: a vida louca e provocatória da Inspetora Sierra

Aos 48 anos, a atriz Najwa Nimri compõe, canta e é protagonista de duas das maiores séries espanholas do momento.
Najwa Nimri é tudo menos aborrecida.

Costuma dizer-se que um ator é tão melhor quanto a capacidade de se transfigurar, deixar para trás a própria essência e encarnar numa personagem distinta. Não é bem esse o caso da atriz jordano-espanhola que é uma das novas estrelas da “La Casa de Papel”. O mais estranho é que parece que ninguém sabe muito bem onde fica a linha que delimita a pessoa da atriz, que confessa que nem sempre está tudo bem consigo.

A peruca que muitas vezes leva para o palco — a sua carreira musical é tão longa quanto a cinematográfica — escondia um problema. “Sofria de tricotilomania [um transtorno psicológico que provoca o impulso de arrancar o próprio cabelo]. O nosso cabelo reflete o nosso estado mental”, revelava em 2018.

Os 48 anos não deixariam adivinhar que ela é uma das vilãs mais energéticas e mais queridas do cinema e da televisão espanhola. Antes de embarcar naquela que é, provavelmente, a mais bem-sucedida produção nacional — Najwa Nimri é Alicia Sierra, a implacável detetive encarregue de caçar o bando do Professor —, rebentou explosivos, apunhalou reclusas e incendiou prisões em “Vis a Vis”. Um papel que lhe encaixa na perfeição. “Sou uma atriz muito física, entranho-me nas personagens de fora para dentro. Primeiro transformo o corpo para que depois entrem na minha cabeça”, explica ao jornal “El País”

Não é surpreendente que explique que sempre teve um fascínio pelos vilões da televisão. “Não me inspirei em ninguém em particular [para o papel de Zulema Zahir em “Vis a Vis”], mas confesso que me apaixonei por Walter White de ‘Breaking Bad’. No Twitter fazem muitas composições comigo e com ele, até porque ambos usamos um fato-macaco amarelo”, contava em 2015. 

30 anos a cantar, seduzir e aterrorizar

O perfil de Najwa é cheio de contradições. Nasceu em Pamplona, mas tem nome árabe. É filha de pai jordano e mãe basca. O apelido árabe é Nimri, embora a sua família pertença à minoria cristã do país de origem do pai. O último nome é tradicionalmente basco: Urrutikoetxea.

A estreia aconteceu em 1998, logo como protagonista de “Salto no Vazio”. Sem surpresas, Najwa é Alex, uma jovem de 20 anos, cabelo rapado, olhos violentos, traficante de armas. A única mulher do grupo de criminosos. Em cerca de 30 anos de carreira, fez mais de 30 filmes, quase sempre personagens com perfis semelhantes, de desvairada a femme fatale.

“Em ‘Abre Los Ojos’ [com argumento de Alejandro Amenábar, que daria origem ao filme de culto ‘Vanilla Sky’] faço de mulher que se suicida dentro de um carro. Em ‘El Método’ fazia de uma mulher de negócios implacável. Talvez o papel mais normal tenha sido em ‘Mataharis’, sem dúvida o que mais me custou trabalhar. Os papéis que escolho têm sempre a ver com algo mais inacessível do que eu gosto de imaginar”, conta.

Apesar de algumas mudanças no estilo das personagens, as “mulheres de ação que lutam num plano mais físico” são as que mais lhe agradam. “Essas costumam ser também muito emotivas, têm uma ideia muito clara da sua individualidade e lutam por ela. São as que mais gosto e que sempre interpretei desde muito pequena, só que antigamente não eram tão populares quanto o são hoje”, confessa

Embora tenha tentado fugir aos lugares comuns, acabou por cair num. Casou com Daniel Calparsoro, realizador do seu primeiro filme. A relação terminou em 2000.

A relativa loucura com que encara o cinema e a televisão é a mesma com que aborda o seu outro lado criativo e musical. Para Najwa, a componente visual é quase tão importante quanto a auditiva, com atuações visualmente fortes e sons que andam entre a pop e a eletrónica.

Chegou a fazer parte de um coro de soul e ensaiou uma passagem pelo jazz, antes de se juntar a Carlos Jean e formar os Najwajean, com quem editou sete discos, alguns deles das bandas sonoras dos próprios filmes. A carreira a solo começou logo em 2001 e tem sido frenética: já tem oito álbuns de originais editados, dois deles lançados no último ano.

Faltava mais uma etapa obrigatória na vida de uma agente provocadora: despir-se para a capa de uma revista, até para celebrar a entrada na casa dos 40. A escolhida foi a célebre “Interviú”, extinta em 2018, mas que em 2014 deu honras a Najwa. Mais provocatória do que a nudez foi a tirada da atriz: “Os gajos são uns porcos — e eu adoro isso”. 

“Pagaram-me e ainda deixaram levar o meu próprio fotógrafo”, recordava em 2018 ao “El País”. A sessão fotográfica foi o pretexto para abordar a sexualidade, tudo menos um tabu para Najwa.

A capa de Nimri na “Interviú”

“Falei de como um realizador observa e especificamente do ‘Asfalto’, realizado pelo meu marido à época [Daniel Calparsoro], onde eu me enrolava com outros tipos à frente dele. Houve um momento de brincadeira, porque eu não me despia completamente, mas houve uma altura em que surgiram peitos eretos, um pau e o meu marido ali a rondar. Já me senti pior com mulheres e com homens que parecia que tinham um olhar benevolente e doce perante a sexualidade. Os que menos me têm assustado até são aqueles que hipoteticamente são mais sujos e obscuros”, recordou ao “El País”.

Separada de Calparsoro e mãe de um filho de 10 anos, entre filmes e discos, Najwa achou que estava na altura de parar, até porque algumas coisas começaram a escapar-lhe das mãos. Além de destemida, a atriz é pouco dada a contas. Chegou mesmo a descobrir que praticamente não sobrava dinheiro na conta bancária, até porque ainda estava a pagar as faturas de Internet de todas as casas onde viveu.

“Nunca verificava a conta, nunca poupei dinheiro e um dia dei por mim metida num grave problema. As novas gerações são mais conscientes, envolvem-se na espiral da fama sabendo que um dia tudo vai acabar”, confessa

Voltar para ganhar

Qual é o preço da fama? “Acabas por dar conta de que a tua carreira está a correr bem quando começas a perder amigos, companheiros. Quanto melhor corre o trabalho, pior vai a tua vida pessoal”, explica em entrevista ao jornal espanhol “ABC”

Chegados a 2018, Najwa contava já quase seis anos sem aparecer no ecrã. A pausa para retomar a vida e educar o filho estava a dar cabo de si. “Comecei a sentir-me aborrecida e voltei a envolver-me na música. Não tinha dado conta do tempo que já tinha passado”.

Dos seis anos, guarda boas recordações, até porque explica que todo o sucesso profissional teve um custo que teve que pagar, e que esses anos serviram para isso mesmo. “Quanto mais consegues a nível profissional, mais se ressente tudo o resto. Foi uma fase magnífica da minha vida”, conclui.

Não foi preciso esperar muito até que a espanhola regressasse aos sets de rodagem. E quando o fez, fê-lo da melhor maneira com a primeira participação numa série de televisão — e logo no papel que a tornou ainda mais conhecida de um público mais jovem. “Quando me ofereceram o papel em ‘Vis a Vis’, aceitei imediatamente”.

No papel de Zulema em “Vis a Vis”

A reclusa tresloucada acabou por tornar Nimri numa espécie de anti-heroína de uma geração. De tal forma que há relatos de fãs que tatuaram a cara da atriz, que a própria considera um “ato de amor”. “Eu também tatuei um nome no corpo por amor. É o máximo que podes fazer por amor”, revela em entrevista

Com ou sem tatuagens, a verdade é que a série espanhola nascida em 2015 — e que conta com a participação de Alba Flores, Nairobi de “La Casa de Papel” — conquistou vários prémios e até distinções individuais pela prestação da atriz.

Além de ser a imagem de marca do criador francês Cristian Lacroix, é uma provocadora das redes sociais. O seu perfil está repleto de fotografias arriscadas e uma delas chegou mesmo a ser apagada por violar as normas da rede. Nela, Najwa recriava a Vénus de Botticelli. E porque a espanhola não se deixa ficar, um ano depois voltou a desafiar a rede com nova foto.

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#entrenaromorir …#selfuck #maszorraqtu

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Aos 48 anos, uma das atrizes da moda em Espanha atinge uma espécie de ponto alto da carreira. Num ano, não só edita mais um disco, mas também vê a estreia da quarta temporada de “Vis a Vis” e, diretamente para todo o mundo, torna-se numa das caras do êxito “La Casa de Papel”.

Cinco vezes nomeada para os Goya, os prémios da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Espanha — duas como compositora e três como atriz —, o regresso ao ponto mais alto da montanha-russa já não engana ou deslumbra Nimri.

“Sei o que custa ter um bom momento profissional e sei-o porque nem sempre foi assim. Nem sempre o telefone tocou conforme esperava”, confessa em entrevista ao “La Vanguardia”.

Sobre a fama, que hoje mais do que nunca a elevou a um estatuto de super-estrela em Espanha, mantém-se relativamente imperturbada, com uma frieza que poucas vezes se viu, na atriz e nas suas personagens: “Essa fixação que algumas pessoas têm com atores e músicos, observo-a à distância. Gosto, mas não deve ir além do devido. Há que relativizar essas coisas. Ter um filho e levar umas pancadas de vez em quando ajudam-te a afastar-te desses disparates.”