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João André: “Parece que estou num revival dos ‘Morangos’, mas agora não sou o Kiko”

A NiT falou com o humorista Carlos Coutinho Vilhena e com o ator que criaram o projeto “O Resto da Tua Vida”.
O primeiro episódio foi lançado a 7 de abril.

Estamos em 2005 e “Morangos com Açúcar” está no auge. A terceira temporada da série juvenil tem mais audiências do que o “Jornal das 8” da TVI e não há miúdo em Portugal que não conheça a história que se passa no Colégio da Barra.

Este foi o ano em que Portugal ficou a conhecer nomes como Joana Duarte, Mariana Monteiro, Helena Costa, Diana Chaves, Ana Guiomar e Diogo Valsassina, além, claro, de Francisco Adam (ator que morreu no final da temporada) e Tiago Castro (o mítico Crómio). Havia ainda o grupo de Kiko, Manel e Becas — que é como quem diz João André, Tiago Felizardo e Sara Prata, respetivamente.

Foi um fenómeno enorme. Havia espetáculos esgotados nos coliseus, os D’zrt enchiam salas por todo o País e os atores (a grande maioria bastante jovem) não podiam sair à rua. Eram abalroados entre pedidos de fotografias e autógrafos e havia fãs que chegavam a ir para a porta de casa dos seus ídolos. João André foi um dos que viveu essa euforia — ao estilo Beatlemania, como descreve o seu pai — mas, ao contrário de vários colegas, o seu sucesso ficou por aí. Nunca recebeu a esperada chamada para fazer mais trabalhos.

Durante “Morangos com Açúcar”, ganhava milhares de euros num fim de semana por uma simples presença em certos eventos e discotecas. Alguns anos depois teve de voltar para casa dos pais porque não conseguia arranjar trabalho no mundo da representação. Ia vivendo de part-times mal pagos enquanto fazia teatro. Também na série era patrocinado pela marca Lightning Bolt e podia ir a uma loja levar tudo o que conseguisse para casa. Porém, algum tempo depois, para conseguir sustentar-se, teve de ir trabalhar para uma loja da mesma marca para dobrar as roupas e vendê-las em troca de um salário mínimo.

Toda esta história impressionante é contada em “O Resto da Tua Vida”, uma série documental produzida pelo humorista Carlos Coutinho Vilhena lançada no YouTube. Todas as semanas há um novo episódio de cerca de 20 minutos — apesar de não haver um dia nem uma hora marcados. O primeiro estreou a 7 de abril e já existem três disponíveis.

Tem estado a ser um autêntico fenómeno nas redes sociais — o próprio Salvador Sobral referiu o projeto numa entrevista que deu recentemente à NiT. “Não sei ainda se gostei ou não. Em 20 minutos senti raiva, uma tristeza brutal, um sentimento de injustiça para com o João André, risadas totais com coisas que eles diziam. Aquilo é, ao mesmo tempo, uma verdadeira sátira aos reality shows. Não consigo perceber bem aquilo e deixou-me impactado, isso para mim é arte”, explicou o músico português.

Nas redes sociais, admiradores do trabalho de Carlos Coutinho Vilhena ou antigos fãs de João André nos “Morangos com Açúcar” têm contribuído para o burburinho à volta do projeto. O humorista descreve-o como um “documentário verídico em que 100 por cento é real”, mesmo que possa confundir algumas pessoas sobre a sua veracidade.

“Como está dividido em várias plataformas confunde as pessoas, mas todas as histórias são reais. A forma como contamos a narrativa faz levantar questões, mas é verídico.”

Há cenas de comédia mas também de drama emocional. O documentário arranca precisamente com o momento em que Carlos Coutinho Vilhena e João André se conhecem — ficou tudo registado pelas câmaras. Tal como grande parte dos portugueses da sua geração, o comediante de 25 anos assistia a “Morangos com Açúcar” todos os dias depois da escola e cresceu a ver na televisão as aventuras de Kiko. João André tem mais sete anos — está nos 32 — apesar de, como diz no primeiro capítulo, manter uma aparência bastante similar. Por isso mesmo é que continua a ser reconhecido na rua.

O documentário, que é gravado em parceria com a GoSolo, está a ser filmado há cerca de um ano. Ainda não está fechado o número de episódios que irá ter (de vez em quando ainda gravam cenas) — mas o impacto é inegável. O objetivo é claro e assumido: voltar a pôr João André na ribalta, mas não enquanto Kiko. A ideia é destacar João André, o ator — que tem uma companhia de teatro chamada Bruta.

Depois de uma breve passagem a solo por “Você na TV”, na TVI, João André reuniu-se com Carlos Coutinho Vilhena na NiT para a primeira entrevista sobre o projeto.

Há uma grande dúvida para os fãs da série. Tudo aquilo que vemos no documentário é real e natural? Ou há partes que são recriadas para mostrar coisas que aconteceram na realidade?
João André: É tudo real, é aquilo que lá está.
Carlos Coutinho Vilhena: Quando há brincadeiras de humor, como a do Papa ou do Harry Potter, isso repetimos. Porque aí eu já tinha uma ideia para fazermos aquilo. Mas não lhe digo.
JA: Mas mesmo isso é genuíno. Apesar de o Carlos ter pensado naquela situação, aquilo que aparece na série é o que está a acontecer no momento.
CCV: Às vezes pode parecer que está tudo mais ou menos pensado, mas estamos a gravar isto há um ano e temos muitos brutos. Chegamos ao final de um dia com cinco ou seis horas de gravações. Só que limamos aquilo tanto que parece que foi feito por ordem cronológica.

Quantas horas de gravações é que têm?
CCV: Muitas, mesmo muitas. Há muitos minutos que não entram e podiam entrar e se calhar até foi má opção do editor — que sou eu, e ele também me ajuda. Achávamos que íamos ter menos material.
JA: Há uma coisa que acaba por ser o segredo. Se estivermos durante cinco ou seis horas a gravar, sem qualquer tipo de interrupções, a certa altura já nem nos lembramos. A câmara está a gravar e uma pessoa esquece-se. Deixamo-nos ir. E isso acaba por ser o gancho para a coisa funcionar e ser tão fluída.
CCV: Eu digo mesmo à malta para meterem a gravar e nós nem sabermos bem. Está tudo envolvido naquela bolha: estão os produtores, o realizador, o câmara, o diretor de fotografia, estamos nós e ninguém sabe quando é que começámos a gravar — e nem é preciso. E por isso é que a coisa vive nesse limbo em que as pessoas não sabem o que é ou não real. Nem nós sabemos bem o que estamos a fazer e adoro viver nesta bolha. Foi uma descoberta que fizemos em conjunto.

Quantos episódios é que esta série vai ter?
CCV: Ainda não sabemos. Porque há muita coisa que está a acontecer agora de que não estávamos à espera. O objetivo final deste documentário está dependente das pessoas que estão de fora da série. Por isso é que editamos algumas coisas em cima da hora. Não estávamos era à espera que acontecesse tudo tão cedo. Tantas pessoas a ver, convites para muita coisa começarem a aparecer de forma louca…
JA: O “Você na TV” é um bom exemplo de uma coisa que de repente se antecipou.
CCV: Estava previsto já há um ano. Mas não tão cedo. Esta é a primeira entrevista que estamos a dar sobre o projeto, estamos a marcar as outras para daqui a duas ou três semanas, e só fomos tão cedo ao “Você na TV” porque o Goucha ia de férias.