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“I Love You, Now Die” é o novo documentário da HBO sobre um crime bizarro

Centra-se num caso de suicídio adolescente — que, ao mesmo tempo, foi um homicídio involuntário.
Michelle Carter foi condenado a dois anos e meio.

Tal como tantas outras raparigas adolescentes no início da década de 2010, a americana Michelle Carter vivia obcecada com a série juvenil “Glee”. Tanto que o seu Twitter estava cheio de referências à história — com muitas citações do enredo, sobretudo da sua ídola, a atriz Lea Michele, que interpretava Rachel Berry.

Michelle Carter era tão viciada em “Glee” que, quando o namorado da vida real (e também na série) de Lea Michele, Cory Monteith, morreu de overdose em 2013, enviou dezenas de mensagens ao seu namorado, Conrad Roy, com falas da história entre as duas personagens. 

Esta obsessão revelou-se perigosa cerca de um ano depois, a 13 de julho de 2014, quando Conrad Roy foi encontrado morto no carro — tinha-se suicidado ao envenenar-se com monóxido de carbono.

Quando a polícia começou a investigação do caso, descobriu milhares de mensagens de texto entre Michelle e Conrad. Em muitas delas, a adolescente apelava a que o namorado tirasse a própria vida — naquilo que parecia um esforço para se aproximar da história de Lea Michele.

Michelle Carter encorajou Conrad Roy a suicidar-se — disse, inclusive, para ele regressar ao carro quando, por momentos, ele tinha desistido, assustado com o que estava a acontecer. Roy morreu mesmo. Tinha apenas 18 anos — e a namorada 17.

Nos dias que se seguiram ao suicídio, Carter apresentou-se como a namorada de luto — tal como Lea Michele foi depois da overdose de Cory Monteith. Decorou frases da sua atriz favorita em entrevistas para as enviar por mensagem a amigas. 

“Ele foi o melhor homem que alguma vez conheci e vivi literalmente todos os dias a sentir-me como a rapariga mais sortuda do mundo”, enviou por mensagem Carter, copiando palavra a palavra uma declaração de Lea Michele numa entrevista a Ellen DeGeneres em 2013.

Apesar de serem namorados, Michelle Carter e Conrad Roy mantinham uma relação sobretudo virtual. Só estiveram realmente juntos meia dúzia de vezes. No caso que chegou a tribunal, a adolescente foi acusada de homicídio involuntário pelo papel que teve na tragédia.

Os procuradores alegaram que era um plano de Michelle para conseguir atenção e poder desempenhar o tão desejado papel de namorada em luto. Os próprios meios de comunicação social abordaram o caso dessa forma, retratando a adolescente como uma sociopata. O juiz concordou com essa perspetiva e condenou Michelle Carter a dois anos e meio de prisão — começou a servir a pena este ano.

Toda esta história é contada no documentário de duas partes “I Love You, Now Die”, que estreou a 10 de julho na HBO Portugal. Tem 140 minutos (1 hora e 20). Foi conduzido por Erin Lee Carr, a realizadora americana responsável por “Mommy Dead and Dearest”, o filme que contou a história de Gypsy Rose Blanchard, que matou a mãe juntamente com um namorado que conhecera online depois de anos e anos a ser tratada por problemas médicos que não tinha. Esse caso também foi explicado na série “The Act” — e ambas as produções estão disponíveis na plataforma de streaming da HBO.

De forma a apresentar uma perspetiva mais imparcial, Erin Lee Carr procurou não julgar tanto o comportamento de Michelle Carter e quis tentar perceber o que estaria por detrás do que tinha acontecido — incluindo os problemas mentais de Carter, que até a tinham levado a ser hospitalizada uma vez, e do próprio Conrad Roy.

O documentário tem entrevistas com familiares de Roy e foca-se muito nas mensagens trocadas entre o casal — além de ter bastantes imagens do caso em tribunal. O filme sugere que a tecnologia criou as circunstâncias que levaram à relação digital cada vez mais tóxica, que terminou com uma tragédia.

“Interesso-me sempre por estas mulheres complicadas. Há tantos filmes sobre homens criminosos que me faz sentido enquanto realizadora pensar sobre estas mulheres, e não julgá-las apenas por um dia na história delas, para perceber o que as levou até àquele contexto”, explicou Erin Lee Carr numa entrevista à revista “Rolling Stone”.

E acrescentou: “Eu tinha a perceção de que a Michelle era oportunista, que potencialmente seria uma sociopata. Mas, com o passar dos dias no tribunal, tornou-se claro para mim que o argumento dos procuradores para o motivo — que ela tinha morto o namorado, que o convenceu a matar-se para se tornar popular — era treta. Não fazia sentido. A defesa argumentou que ela era alguém que era evitada pelo seu círculo social, que tinha um distúrbio de alimentação, que tinha estado num hospital de saúde mental.”

Mesmo que não tenha assim tantas respostas, “I Love You, Now Die” promete fazer as perguntas certas sobre este caso complexo.