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“A Guerra dos Tronos” voltou a sacrificar os heróis — era arriscado mas resultou

A série da HBO chegou ao fim esta segunda-feira, 20 de maio. E ainda estamos a processar o que aconteceu.
Bran, não estávamos à espera disto. Parabéns.
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Caros fãs de “A Guerra dos Tronos”, aquela que é a série favorita para muitos de vós terminou. É verdade. Como nós, apostamos que ainda estão a processar e a digerir tudo o que aconteceu no sexto episódio da oitava temporada — que foi transmitido esta segunda-feira, 20 de maio, na HBO e no Syfy. Não é fácil, mas vamos lá refletir em conjunto.

Este capítulo, que se chama “The Iron Throne” e foi realizado pelos showrunners D.B. Weiss e David Benioff, está dividido em duas partes. A primeira é nublada, obscura, negativa. Tem o ambiente típico de uma distopia — aquela em que Westeros esteve muito próximo de se tornar.

King’s Landing está destruída. Vemos imagens de feridos queimados a circularem desorientados pelas ruas, crianças mortas entre os destroços, edifícios a cair aos bocados. Tyrion caminha pela cidade para ver se consegue descobrir o que aconteceu aos irmãos, Jaime e Cersei.

Chega ao sítio que dá acesso à pequena baía onde estava o barco em que ambos iam escapar e só encontra pedras e mais pedras. Acaba por reparar na mão de ouro de Jaime e retira alguns dos tijolos para encontrar os irmãos mortos, mas juntos, quase em posição fetal, como se estivessem no útero da mãe. Morreram juntos, tal como nasceram e viveram. É um momento bonito de última homenagem aos irmãos Lannister, que tanto nos irritaram ao longo dos anos (sobretudo Cersei, claro), mas que foram ótimas personagens para o enredo.

Nas ruas, Grey Worm ainda está em modo matança e quer executar os soldados dos Lannister que sobreviveram. Jon Snow tenta travá-lo, explica-lhe que é desnecessário, mas Grey Worm diz que está a cumprir as ordens e os desejos da rainha — e mata-os assim que Snow vira costas.

As trevas parecem ter chegado quando Daenerys aparece (num plano incrível com as asas de Drogon por trás) para fazer o discurso aos súbditos. A Mãe dos Dragões (do dragão, vá) aparece representada como um ditador fascista que fala para os soldados fiéis numa parada militar. Daenerys já não está com uma disposição tão Mad Queen — ela parece estar lúcida e acredita que o que está a defender faz sentido. Só que não faz, não é?

A Targaryen diz que, depois de “libertarem” King’s Landing, o plano não é parar por aqui porque “a guerra ainda não acabou”. Depois, o objetivo é “libertarem” as pessoas em Winterfell ou em Dorne. Daenerys pode estar um pouco louca, mas a verdade é que, como ela faz questão de relembrar, os dothraki juraram derrubar as casas de pedra dos seus inimigos com fatos de ferro. Os Imaculados também prometeram viajar para o outro lado do mundo para darem à sua rainha o poder que ela merecia. São referências que estão plantadas desde o início da série e que estão agora a ser colhidas, mesmo que tenhamos pensado nelas num tom mais inocente. Todos eles estão com ela.

Exceto, claro, Tyrion e — mais ou menos — Jon Snow. No final do discurso, Tyrion aproxima-se de Daenerys e confessa-lhe algo que ela já sabia: soltou o irmão, Jaime, e por isso cometeu traição. Depois de ouvir o discurso, o Lannister deita a pregadeira de Mão da Rainha pelas escadas abaixo e demite-se do cargo. Tyrion é feito prisioneiro pelos soldados liderados por Grey Worm.

Quem vai visitá-lo à cela improvisada é Jon Snow e já esperávamos que fosse aqui que fosse discutida uma forma de tirar Daenerys do poder. Não é bem isso que acontece. Estamos numa fase anterior: Tyrion ainda tem de convencer Jon Snow de que ela não vai ser uma boa rainha. É claro que não vai. You know nothing, Jon Snow.

Daenerys fez um discurso fascista para os soldados.

Tyrion assume que Varys tinha toda a razão e faz um discurso incrível de motivação. “Em todos os sítios aonde ela vai há homens maus a morrer e nós apreciamo-la por isso e cresce nela a certeza de que tem razão. Ela acredita que o destino dela é construir um mundo melhor. Se acreditasses nisso, não matarias quem quer que estivesse entre ti e o paraíso?” Tyrion faz esta última pergunta referindo-se aparentemente a Daenerys, mas na verdade é um apelo a que Jon mate a sua namorada (e tia, não se esqueçam).

No último par de temporadas, a relevância de Tyrion diminuiu — ele até foi acusado por várias personagens no início da oitava de estar menos inteligente e perspicaz. Bem, ele foi vital nos últimos capítulos da história. E ainda bem, porque é uma das melhores personagens de “A Guerra dos Tronos” e fazia todo o sentido.

Nesta altura não sabemos que decisão é que Jon vai tomar. Pelo menos naquele momento — afinal, ainda nem chegámos à meia hora de episódio (no total são 80 minutos). Jon Snow dirige-se à sala do trono e encontra Drogon estacionado à porta — embora camuflado pela neve que está a cair em King’s Landing. Pensamos que o dragão não o vai deixar entrar, mas ele dá-lhe um sinal de confiança (e a nós também). Ele afasta-se para Jon — que também é um Targaryen e, por isso, tem uma ligação visceral aos dragões — passar.

Na cena seguinte é quando retomamos a visão que Daenerys teve na segunda temporada, quando a Khaleesi entra na sala do trono e há neve a cair — no último episódio pensámos que eram cinzas com tudo o que estava a arder, mas parece mesmo neve. Ela está prestes a chegar ao trono, que está intacto, embora a sala esteja bastante destruída. Tem os olhos a brilhar de felicidade e orgulho. Parece que está a ser atraída para o poder de uma forma destrutiva, tal como o efeito que o anel de Sauron causava em “O Senhor dos Anéis”.

Daenerys está quase a sentar-se no trono, mas Jon entra na sala. Mais uma vez, é uma cena de “A Guerra dos Tronos” que é completamente representativa de uma realidade maior. Os dois têm uma discussão intensa. Daenerys acredita que ambos podem ficar juntos e concretizar a sua missão. “Eu sei o que é o bem e tu também sabes”, diz-lhe ela. “E todas as outras pessoas que pensam que sabem o que é correto?”, questiona Snow. “Eles não têm direito à escolha”, diz-lhe Daenerys. A questão que Jon coloca é, na verdade, para Dany. “És a minha rainha e vais ser sempre a minha rainha”, diz-lhe Jon. Os dois beijam-se e pensamos que será mais uma cena como a que aconteceu recentemente em Dragonstone, quando Jon desistiu do beijo a meio por desconforto emocional.

Só que, de repente, ouvimos um golpe e um objeto afiado de metal a ser espetado. Daenerys cai para trás, nos braços do seu amado, quase sem reação porque a morte é praticamente instantânea. Sim, Jon Snow acaba de matar Daenerys. Até podíamos estar à espera que isto acontecesse, mas não neste momento, certo? Não quando Jon ainda nem sequer a tinha confrontado com palavras, não é? Ou fomos demasiado ingénuos?

Drogon apercebe-se do que aconteceu — a sua mãe morreu — e voa rapidamente para a sala do trono, que está destruída o suficiente para que ele consiga aterrar lá dentro. Mostra os dentes ferozes a Jon Snow e começamos a ver o fogo a nascer na sua garganta — pensamos que Snow vai ter um grande problema. Só que Drogon vira-se para o Trono de Ferro e começa a queimá-lo. É um momento incrível. Um dragão, supostamente um animal mais irracional do que o homem, está a destruir o símbolo do poder que faz com que as pessoas se matem e traiam umas às outras, a origem de tantos problemas, crises e tragédias. E o trono derrete.

Drogon pega gentilmente em Daenerys e parte para fora da sala do trono, voa rumo ao horizonte cinzento. Será que vai para Dragonstone? Ou para Essos?

Foi o momento mais fofinho do episódio.

E, de repente, acaba a primeira parte — sendo que a segunda só começa algumas semanas depois, pelo que Tyrion diz. As críticas que podemos fazer em relação a este episódio — que tenham mais a ver com a construção da história e não com o enredo em si — estão relacionadas com este salto temporal. Deve ser o maior de sempre em “A Guerra dos Tronos”.

Jon Snow acaba de matar Daenerys Targaryen e o cinzento da primeira parte dá lugar a um ambiente mais primaveril, que sugere que as coisas podem estar melhores. Tyrion, que está com uma barba mais longa, é levado por Grey Worm até à arena de dragões onde parecem estar, ao longe, personagens como Sansa, Arya e Sam. Parece quase uma realidade alternativa. E logo a seguir percebemos que Snow está preso. Calma, já lá vamos.

Sendo que Jon Snow acaba de se tornar o Queenslayer ao matar Daenerys, não era suposto que Grey Worm e as centenas de Imaculados e dothraki o esfolassem vivo? Afinal, ele acaba de matar a rainha logo depois de ela ter conquistado King’s Landing. Será por Grey Worm não ser um fã do poder dos reinos de Westeros e não gostar de decisões que não fossem tomadas pela sua rainha que ele não o fez?

Bem, regressemos à tal arena dos dragões. Grey Worm chega com Tyrion para que, basicamente, todos aqueles nobres possam discutir quem deve ser o rei ou a rainha. Há representantes de várias casas — Sansa, Robin Arryn (que cresceu imenso desde que era aquele miúdo estranho), Brienne, Yara Greyjoy e Gendry são alguns deles, mas há outras pessoas que lá estão, como Arya, Bran e Davos, além de alguns representantes de casas que não conhecemos. São quase todos próximos dos Stark, na verdade. E portanto o desfecho não foi improvável.

Parece que voltámos à estaca zero. Daenerys está morta, Cersei também, Jon Snow está preso e Grey Worm não tem intenções de o libertar. Quem raio vai ser rei? Edmure Tully, irmão de Catelyn Stark, a mulher de Ned, levanta-se para tentar ser ele o escolhido. De forma hilariante, Sansa simplesmente pede-lhe para se sentar. Sam sugere a democracia. “Já que o rei vai governar a vida de toda a gente, não deveria ser toda a gente a votar?”

Depois de um momento de silêncio, o grupo desata a rir. “Sim, a seguir vou perguntar ao meu cavalo o que é que ele acha”, comenta um dos membros, enquanto solta uma gargalhada alta. Parece que Westeros ainda não está preparado para a liberdade e o impasse continua. Tyrion intervém e declara, depois daquilo, que mais nenhum rei será rei apenas por ser filho de um antigo rei. Acabou a linhagem de sangue. Daenerys acabou por conseguir, às custas da sua morte, um sistema político melhor.

Tyrion começa então a defender a hipótese que pensa ser a mais adequada: Bran Stark como rei. Bran é o super Corvo de Três Olhos e por isso é a pessoa mais culta no continente inteiro. Sabe exatamente o que fizeram todos os reis e tem essa experiência. Além disso, sempre provou ser sensato — e não tem a ambição de governar, o que pode funcionar em seu favor, já que não é obcecado com o poder. Será que ele aceita ser rei?

“Porque é que pensas que vim de tão longe?”, pergunta Bran a Tyrion, mostrando o máximo de sentido de humor que a personagem consegue há vários, vários anos. O grupo vota, um de cada vez, e só Sansa é que não escolhe propriamente em ter o irmão, Bran, como seu rei. Tudo porque ela quer cumprir o desejo antigo do Norte de ser um reino independente. Bran, o Quebrado, é eleito o rei dos Ândalos e dos Primeiros Homens e defensor dos Seis Reinos de Westeros. Portanto, o Norte é um reino independente e um Stark é o rei dos outros reinos de Westeros. Ned estaria orgulhoso.

Bran vai fazer discursos chatos e é uma personagem que irrita muitos fãs da série — além de dar origem a grande parte dos memes nas redes sociais. Os criadores de “A Guerra dos Tronos” não tiveram problemas em nomear rei uma personagem pouco popular, o que é de louvar e aplaudir. E Bran está ligado ao início de tudo isto. A queda da torre, que o deixou paralítico, desencadeou grande parte dos acontecimentos que se seguiram. Não era nada fácil concluir todas as storylines dentro da história principal.

Grey Worm poupou a vida a Snow.

A decisão foi surpreendente e é ótimo que o entusiasmo global em torno desta história não a tenha afetado assim tanto — se Jon Snow e Daenerys acabassem juntos no trono seria um final demasiado feliz e típico da Disney, não? E mesmo que Jon Snow ficasse com o trono depois de matar Daenerys, seria aborrecido e relativamente previsível, não? Claro que os fãs vão apreciar este final consoante gostarem ou não da reviravolta de Daenerys como a Mad Queen.

O destino de Jon Snow? Viver uma espécie de prisão perpétua como comandante da Patrulha da Noite. Mas para quê existir uma Patrulha da Noite, se já não existem white walkers? “Porque é sempre preciso um lugar para bastardos e pequenos criminosos”, diz Tyrion.

Entretanto, passado algum tempo, temos direito a uma cena do novo (e divertido) conselho de apoio ao rei Bran. Bronn é o Mestre da Moeda (ele, pelo menos, sabe como gastá-la), Davos comanda os navios, Brienne é a responsável pela Guarda do Rei (sendo que Podrick é um desses guardas) e Sam Tarly é o maester. Tyrion é novamente a Mão do Rei — não era algo que ele queria, mas foi o que teve de fazer para Bran aceitar tornar-se o dono disto tudo. Numa homenagem à saga escrita por George R.R. Martin, Sam aparece com um livro chamado “As Crónicas de Gelo e Fogo”, que conta, no fundo, a história de tudo o que vimos na série — por alguma razão, Tyrion não foi incluído.

No final de tudo chega o momento das despedidas. Grey Worm aceita que Jon Snow vá para Castle Black — porque razão é que Sansa o deixa fazer isso? E porque é que Jon Snow não assume o crime que fez dizendo que é ele o verdadeiro herdeiro ao trono? Porque é. Talvez tenha a ver com o sentimento de culpa que tem por ter morto o seu grande amor (depois de Ygritte, pelo menos) e por desejar penitência. Os Imaculados vão todos para Naath, a terra natal de Missandei.

Depois, os Stark. Bran é eleito rei, Jon vai para Castle Black, Sansa será a rainha do Norte e Arya… Arya quer descobrir o que está a oeste de Westeros, porque não aparece nos mapas. Quer ser uma espécie de Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral ao “descobrir o mundo novo” e este momento da história — olhando para o quadro grande — representa a transição da Idade Média para o período dos Descobrimentos e do Renascimento na Europa. Os quatro irmãos despedem-se na doca de King’s Landing. Voltam a ser lobos solitários. Depois, há uma sequência ótima em que vemos Arya a circular pelo navio, com as bandeiras Stark hasteadas; Sansa a andar pelo grande hall de Winterfell e a ser nomeada rainha e Jon de volta a Castle Black rodeado pelos seus novos companheiros. Quem também lá está é Ghost — que finalmente tem direito a uma festinha —, Tormund e os outros wildlings.

Agora que os mortos foram derrotados, o Norte além da Muralha está seguro. E na última cena vemos Jon Snow a sair com Tormund e os outros wildlings de Castle Black, em direção a Norte. Será que vai apenas fazer uma visita para recordar os bons velhos tempos? A nós parece-nos que vai viver uma vida livre do outro lado da Muralha. Westeros está em boas mãos e Jon foi o mártir necessário para que isso acontecesse — embora talvez pudessem trazê-lo de volta à vida agora que os Imaculados foram para terras distantes. Fica a ideia.