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Acabou “A Guerra dos Tronos”. E agora, como superamos esta perda psicológica?

A oitava temporada da série chegou ao fim esta segunda-feira. A NiT falou com uma psicoterapeuta sobre formas de lidar com isso.
Sim, apostamos que já não se lembra de como Bran era.

Acabou. Não vai haver mais lutas entre Starks, Targaryens e Lannisters. Não há mais white walkers nem batalhas épicas. Não vai haver mais viagens entre Winterfell, Dragonstone, King’s Landing e Essos. Sabíamos que este dia ia chegar. “A Guerra dos Tronos” acabou.

Desde o início que a série da HBO — cujo último episódio estreou na segunda-feira, 20 de maio — nos prometia que o inverno estava a chegar (e ele chegou mesmo durante a história) mas o verdadeiro inverno é este.

É aquele em que, depois de passarmos praticamente uma década a vibrar com “A Guerra dos Tronos”, chegamos ao fim. Muitos fãs diriam que estão com uma sensação de vazio — ficar “órfão de série” é isso. E as outras séries podem não ser suficientes para preencher esse espaço.

Para tentar explicar este fenómeno de perda de uma série e perceber quais são as melhores formas de lidar com ele, a NiT falou com a psicoterapeuta Joana Alves Ferreira, d’O Canto da Psicologia.

Segundo a especialista, os projetos de televisão, além de funcionarem como uma forma de desanuviarmos do dia a dia, podem ter uma dimensão bem mais profunda e simbólica.

“Podemos pensar nas séries enquanto veículo que nos permite vivenciar verdadeiras experiências catárticas, na medida em que projetamos nas suas personagens e enredo partes nossas que, muitas vezes, permanecem inconscientes. Podem, assim, funcionar como uma fonte de satisfação de desejos reprimidos, oferecer um espaço de proteção face a sentimentos de solidão e desamparo, fazer emergir fantasias, medos, conflitos, tornando-se, por isso, um meio privilegiado de contacto com a nossa realidade psíquica.”

Tendo em conta isto, é natural que nos identifiquemos e nos afeiçoemos a personagens de séries como “A Guerra dos Tronos”. Quem não gostava de beber um copo com Tyrion? E de andar de dragão com Daenerys? E de jantar com Tormund?

“Naturalmente que é possível ligarmo-nos a personagens de uma série televisiva, porque, no limite, estamos sempre a falar do que aquela personagem representa sobre o nosso mundo interno. Este aspeto é muito curioso na clínica, na medida em que, muitas vezes, os pacientes trazem para as sessões filmes, séries ou personagens específicas com as quais se identificam, como forma de falar sobre si mesmos.”

Temos também de ter em conta que, num projeto de televisão, isto é muito mais possível do que num filme, por causa das diferenças de duração. “É como se a série passasse a integrar a rotina quotidiana sem que déssemos por isso, tornando-se, assim, um terreno fértil para criar uma ligação mais forte com a mesma, bem como identificações mais permanentes com as personagens.”

Vamos ter saudades dos Stark.

É possível que a perda de uma série ou de uma personagem nos faça sofrer tal e qual como quando perdemos um familiar? “São perdas muito diferentes e que, por isso, serão, à partida, vividas com uma intensidade incomparável. Mas é evidente que se estabelece uma ligação quando se assiste a uma série televisiva e, nesse sentido, quanto mais investidos estivermos, maior será o sentimento de perda associado ao fim da mesma.”

Além disso, a experiência social de ver uma série — especialmente “A Guerra dos Tronos”, que foi um fenómeno global — também é relevante quando refletimos sobre o tema. “Muitas vezes acompanhar uma série implica uma rotina familiar e social — vemo-la com o parceiro, discutimos o episódio com os colegas de trabalho — e é quase uma experiência coletiva. Por tudo isto, é absolutamente natural experienciar o sentimento de perda, na medida em que não deixa de ser algo em que estivemos investidos e que termina.”

De qualquer forma, Joana Alves Ferreira faz questão de fazer a distinção entre a perda de uma série e de um familiar. “É sempre uma experiência de luto distinta daquela que ocorre quando perdemos alguém que faz parte da nossa vida, cujo vínculo é real e com quem estabelecemos uma relação de reciprocidade, na qual não só estamos implicados, como o outro está connosco. Assim, podemos dizer que é perfeitamente aceitável que haja um sofrimento associado ao fim de uma série que nos acompanha, embora seja preocupante quando esse sentimento de perda profundo se perpetua, devendo, por isso, questionarmo-nos sobre qual foi a função que a série cumpriu na nossa vida.”

Por fim, o que podemos fazer para colmatar esta perda? Devemos começar logo a ver outra série, como substituição? Devemos recomeçar a série do início para não perdermos a ligação? Devemos fazer uma pausa?

“Tal como em tudo o que perdemos, é bom que ocorra um período de elaboração, na medida em que aceitar a perda daquilo de que gostamos (mesmo quando se trata de uma série) é uma forma de irmos ‘reatualizando’ a nossa capacidade de aceitar e de elaborar as perdas, que, de resto, fazem parte da condição humana. Associo a ideia de ver a série de novo para ‘não perdermos a ligação’ a uma impossibilidade de nos separarmos, de nos despedirmos.”

Ou seja, a solução passa por seguir em frente, depois de fazermos um período de luto pessoal, e talvez ver uma nova série. Não temos a certeza se ler os livros de “A Guerra dos Tronos”, para quem ainda não o fez, não possa ser uma boa opção — por um lado seria entrar mais neste mundo, por outro seria fazê-lo de uma perspetiva diferente e distante da televisão. Claro que tudo isto só acontece se tivermos esse sentimento de perda psicológica — e demora sempre alguns dias até começarmos a senti-lo.

Leia a crítica da NiT ao último episódio de sempre de “A Guerra dos Tronos”; a entrevista ao ator que faz de Tormund, Kristofer Hivju; ou a conversa que tivemos com o Night King, que é interpretado por Vladimir Furdik; além da entrevista a Pilou Asbæk, o ator que tem o papel de Euron Greyjoy. Conheça ainda a história de Vasco Temudo, o português que participou nesta temporada da série.

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