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Por favor, não veja o “MasterChef Brasil” — pela sua saúde

Pensei que tinha encontrado a cura para o vazio deixado pelo fim da edição australiana. Estava redondamente enganado.

Se uma série de televisão pode tornar-se num vício, também é verdade que a habituação dá lugar a uma ressaca que começa a ter efeitos assim que rolam os créditos do último episódio. Tremores, tiques nervosos, suores frios e um vazio. Uma espécie de estado depressivo difícil de contrariar, com sintomas que qualquer pessoa que já tenha embarcado num binge watch reconhecerá facilmente. Terminada a décima temporada de “MasterChef Austrália” – comprovadamente o programa mais viciante da televisão –, a nossa vida ficou sem um rumo. E agora?

Recomendam os especialistas que um vício não deve ser interrompido de um dia para o outro. A solução passa por encontrar um hábito substituto, de preferência mais saudável. A alternativa parecia ser óbvia: assim que terminou a transmissão da versão australiana na SIC Mulher, foi lançada a quinta edição do programa brasileiro no mesmo formato. Três jurados, duas dezenas de concorrentes e muita comida à mistura. O que é que podia correr mal, pensei? Tudo. Correu tudo mal.

A coisa até tinha tudo para correr bem e para fazer abrandar os efeitos da ressaca no horário pós-jantar. O ritual mantinha-se: chegar a casa, fazer o jantar, lavar a louça e abancar no sofá de comando na mão. Apanhei o programa já a meio, com os concorrentes em pleno combate de tachos e prestes a lutarem pela salvação antes da primeira eliminação. Os primeiros minutos serviram para tirar as medidas ao estúdio, às novas bancadas e às quatro novas caras que dirigem o program. Alto. Quatro? O MasterChef tem quatro jurados?

Rapidamente percebi que se trata, afinal, de uma apresentadora, um conceito estranho ao modelo do programa. Contrariamente ao concurso australiano, onde a responsabilidade recai sobre os próprios jurados, no Brasil foi necessário trazer um quarto elemento. E bastam cinco segundos para perceber que Ana Paula Padrão faz tanta falta no MasterChef como uma faca de peixe num rodízio brasileiro.

A apresentadora serve menos para dar emoção ao programa e mais para o tornar num altamente elaborado anúncio de televendas: focam-se pacotes de manteiga, frascos de palmito e garrafas de óleo. Esfrega-nos o óbvio na cara até à exaustão, quando um curto plano era mais do que suficiente. E assim se encostam os três chefs a um canto como meros provadores de comida.

Talvez estejam a ser injusto. É que assim que o trio começa a criticar os pratos que lhes vão surgindo pela frente, começo a perceber que o apoio da apresentadora é mais útil do que se possa pensar. A eloquência do chef durão Henrique Fogaça é inversamente proporcional ao seu talento para a cozinha. E se a dicção é perfeita para um vocalista de uma banda de metal – é verdade, é um dos membros da banda Oitão –, é claramente insuficiente para comandar um programa televisivo.

Fogaça à parte, restam apenas dois candidatos ao papel de apresentador. O outro homem do painel é chef francês Érick Jacquin, que parecer um tipo aparentemente bem-humorado e com uma tendência para os trocadilhos sexuais. Digo parece, porque tudo o que lhe sai da boca é praticamente imperceptível, de tal forma que a produção é obrigada a legendar as falas do jurado.

Sobra Paola Carosella e não, ela também não é brasileira. O MasterChef voltou a recrutar no estrangeiro e trouxe uma chef argentina que, ironicamente, é a que melhor se faz entender em português portuguesa. Ponto da situação: ao fim de dez minutos de programa, o cenário não é prometedor. O trio de jurados tem um efeito soporífero e a apresentadora mantém-nos acordados como uma torneira que não pára de gotejar. Pelo menos, a coisa está equilibrada.

A esperança estava toda ela depositada na estrela do programa: a comida. E que desilusão. Numa decisão incompreensível, a produção do programa brasileiro decidiu atirar ao lixo a inspiração do sucesso australiano e virou-se para a edição americana, de onde roubou toda a inspiração. Só podia acabar em desastre.

Os palavrões repetem-se uns atrás dos outras, cuidadosamente ocultadas com um inútil sinal sonoro. A competição gastronómica não é claramente suficiente para animar o público. Vai daí, decidiram resgatar também as piores táticas dos norte-americanos.

Antes de uma das provas, a apresentadora chama uma concorrente e coloca-lhe nas mãos uma decisão ingrata: escolher dois concorrentes da equipa perdedora para os salvar da eliminação; e eleger quem da equipa vencedora teria que trocar com eles e enfrentar uma possível saída do concurso. Como seria de prever, a cena acabou com olhares raivosos e comentários sarcásticos. Estava criado o ambiente perfeito para juntar uma dúzia de homens e mulheres com facas na mão.

E por falar em facas: o “MasterChef Brasil” é um absoluto caos. Os concorrentes atropelam-se na despensa – têm um limite de tempo para recolher todos os ingredientes de que precisam –, correm pelas bancadas de facalhões em punho e não têm problemas em pedir descaradamente receitas completas aos colegas.

Correndo o risco de ser injusto, a comparação com a edição australiana é sempre inevitável. E fazendo-a, há algo que salta à vista: a profunda falta de preparação e de conhecimento dos concorrentes. Falta a delicadeza e sofisticação que sobra no programa australiano. Alguém imagina um concorrente a pedir a um colega de bancada, passo por passo, a receita para fazer chantilly? Pior: em vez de chantilly, o resultado foi uma espécie de mistela amanteigada.

Dois míseros episódios. Foi o tempo que durou esta tentativa falhada de preencher o vazio deixado pelo “MasterChef Austrália”. A versão brasileira é quase tão insuportável quanto a norte-americana, mas o pior pecado é mesmo a incapacidade que tem em fazer-nos salivar enquanto vemos o resultado de horas passadas na cozinha. E muito menos há vontade de tentar replicar os desastres que vão sendo provados por Fogaça, Carosella e Jacquin. Pela cara dos três, até eles preferiam estar em casa a ver as maravilhas australianas.

O “MasterChef Brasil” é a sequela que queríamos mesmo muito ver – e da qual até queríamos gostar –, mas que no nosso íntimo esperávamos mesmo que nunca fosse feita.