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Facto: o “MasterChef Austrália” é o programa mais viciante da televisão

Pesadelos e carros do amor? Não brinquem comigo. A nossa vida só precisa de três homens graúdos a lambuzarem-se com pratos deliciosos.

É uma tortura sem igual. Durante 40 minutos, desfilam especiarias tostadas que espicaçam e pintam molhos coloridos, depois vertidos em pequenos lombos de carne ou peixe cozinhados até à suculência máxima. Desenham-se não um, nem dois, mas dezenas de pratos que desafiam a lógica: mesmo sem o aroma, queremos atacá-los sem dó. Não contentes com o masoquismo da coisa, enroscamo-nos no sofá enquanto três homens graúdos se lambuzam desavergonhadamente com o festim. Há até quem beba os molhos, rape os pratos e sorva as últimas gotas diretamente dos dedos. Um festim romano exibido em prime time sem direito a bolinha vermelha. Ver todas as noites um episódio de MasterChef transformou as até aqui calmas noites de semana numa espécie de deboche – e numa ida para a cama com o estômago a reclamar a sua dose.

É preciso deixar um aviso: não falo de qualquer uma das mais de 50 versões do programa espalhadas pelo mundo. De todas as cópias, a australiana é a versão mais espetacular. A diferença é evidente quando espreitamos um miserável episódio do “MasterChef” norte-americano e percebemos que estamos a ver uma espécie de reality show arrancado da sarjeta onde moram outros programas que excitam os ianques.

Na versão americana, a comida serve apenas de pretexto para as discussões, intrigas e enxovalhos que parecem ser requisito obrigatório. No júri, claro, está Gordon Ramsay na sua variante mais raivosa – a quilómetros de distância do afável Ramsay que passou como convidado pela 10.ª temporada do programa australiano.

O condão da edição australiana parece ser mesmo esse: o de transformar o que seria um reality show impiedoso numa história de superação, sem as desnecessárias dramatizações e exploração dos dramas dos concorrentes até à náusea. Não há órfãos deixados ao abandono ou doentes terminais. As relações entre concorrentes e até os jurados são visivelmente genuínas e ajudam a tornar o programa real. Todos têm uma história para contar, mas o foco raramente se desvia daquilo que nos fez mudar de canal – a comida.

Nunca vi a versão portuguesa e pela amostra das versões brasileira e americana, pouparam-se preciosas horas de vida. Os dois últimos são programas sem alma, sem personalidades interessantes ou pratos verdadeiramente apetecíveis, e com um conjunto de jurados capazes de adormecer um miúdo hiperativo sob uma overdose de açúcar.

Os jurados australianos são os porreiraços com quem todos queremos ir jantar, virar umas canecas de cerveja e limpar uma travessa de costelinhas. Eles são a alma do programa que já dura há uma década e que continua a bater as versões regionais feitas em diversos países. Não admira que a versão do país down under continue a fazer sucesso do outro lado do mundo. Já ninguém passa sem os conselhos preocupados de Gary Mehigan, a careca transpirada do intolerante ao picante George Calombaris, ou a forma peculiar com que Matt Preston leva a comida à boca, a quase dois metros do chão.

Por cá, parece que há planos para o regresso do “MasterChef” português já em 2019 e, se o júri dos anos anteriores se repetir, teremos Manuel Luís Goucha a fazer concorrência aos fatos bizarros e coloridos de Matt. Só falta Mário Machado de avental a desconstruir uma muamba de galinha.

Chega de panoramas tristes. O que nos traz aqui é mesmo o melhor dos melhores. E o “MasterChef Austrália” é o melhor porque não cede aos truques sujos dos concursos travestidos de reality shows. Não precisa de explorar dramas para puxar à lágrima, dispensa tramas secundárias de vingança e ódio entre concorrentes. Pasme-se: nem sequer exige que um dos seus jurados berre aos ouvidos dos participantes. As únicas lágrimas que o “MasterChef” provoca são as dos concorrentes eliminados – e a dos espetadores, quando percebem que o linguini nero com vieiras e bisque de caranguejo não pode ser provado através do ecrã.

Sem nunca ter viajado até à Austrália, percebe-se a cada episódio que a cultura gastronómica local é absolutamente incrível. Por contraponto, basta ver um episódio da edição americana, onde os passos das receitas são completamente ignorados, para se perceber que o público de cada um dos programas é radicalmente distinto. Nos EUA, o “MasterChef” é feito para a geração Jersey Shore. Na Austrália, ele é feito para quem realmente gosta de comida.

O exotismo faz parte do charme da edição australiana. A diversidade reflete-se nos concorrentes: emigrantes vindos da Índia, Itália ou de países árabes misturam-se com os nativos. Tudo isso se traduz em pratos que combinam ingredientes estranhos aos portugueses, mas que se envolvem em receitas mediterrânicas, asiáticas e árabes. Enfim, o sonho molhado de qualquer foodie que se preze.

É um facto: o programa não é para todos. Quem não sente umas leves palpitações no momento de descobrir se a panna cotta assentou ou se a granita está efetivamente congelada, pode esquecer o “MasterChef Austrália”. As receitas de cada concorrente são acompanhadas de perto pelas câmaras, e embora seja feito um grande jogo de edição para tornar tudo muito mais entusiasmante, a verdade é que é possível descobrir segredos, truques e técnicas de cada prato.

Ver religiosamente todos os episódios de “MasterChef” pode ser uma experiência masoquista. Assistir a um desfile de pratos saborosos no rescaldo de um jantar dietético de semana, cuidadosamente regado a água, é um exercício de tortura. Contrariamente ao que acontece nos programas da concorrência, todo este esforço é valiosamente recompensado.

Ao fim de quase cem horas de televisão – a décima temporada, transmitida pela SIC Mulher, está prestes a chegar ao fim –, também nós terminamos a maratona a conseguir distinguir um ramo de salsa de um de cerefólio, a avaliar o ponto perfeito de cozedura de uma posta de peixe ou a fazer um molho a rebentar de sabor. A senhora lá de casa agradece.